27 de outubro de 2021Informação, independência e credibilidade
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A caminho do mar: O tempero ‘Salgadinho’ de governos negligentes

Fotos: Fátima Almeida

A cena não é novidade para quem cruza os caminhos que vão do Centro de Maceió em direção aos bairros de Pajuçara, Ponta Verde, Jatiúca, nas rotas perto do mar… Mas choca, viu! E devo confessar que essas imagens não são das piores, mas não resisti ao impulso de registrá-las e comentar. Porque, ainda que pareça comum ao descaso de governantes de todas as eras; por mais que tenha se tornado corriqueira no cotidiano do maceioense, a cena do lixo amontoado, esperando a maré cheia para invadir a Praia da Avenida e entrar no mar é uma estupidez. E essa cena se repete praticamente todos os dias, há dez, vinte, quarenta anos; um século, talvez!

Em registro do ambientalista Octávio Brandão, datado de 1916/1917, no livro Canais e Lagoas, a referência ao Riacho Salgadinho já era de “um rio infante com graves mazelas”, referindo-se também à supressão da “mata de sucupira da margem esquerda” que  havia sido substituída por casebres.

De lá para cá, a situação só se agrava, aos olhos negligentes (para não desrespeitar os cegos) de governos que passam e voltam; que olham, prometem, esquecem e permitem que o antigo Riacho Maceió continue mergulhado num mar de lama e sujeira ao longo do seu percurso, por vários bairros de Maceió, trazendo na correnteza o tempero salgado da insensibilidade, sentido na ponta da língua (suja), do maior canal de esgoto a céu aberto da nossa cidade. 

Ano após ano, décadas após décadas,  o Riacho Salgadinho arrasta, por onde passa, o que lhe jogam no leito: móveis, carcaças de eletrodomésticos, animais mortos, dejetos de incontáveis descargas sanitárias diárias, cortando a cidade, da parte alta à parte baixa, até agonizar na Praia da Avenida.

Hoje, nenhuma promessa de recuperação do Salgadinho (e já não são tantas) pode deixar de entendê-lo em todo o seu percurso, com todos os problemas sociais que habitam em suas margens e com toda força que deve mover o poder público na obrigação de investir em obras de saneamento, em EDUCAÇÃO AMBIENTAL, em medidas curativas e preventivas, desde a nascente, até o deságue no mar. Não adianta tratar apenas a chegada do Salgadinho, na Praia da Avenida, limpando a foz após cada despejo, recolhendo o lixo que chega, mancha a areia, a água do oceano oceano e a nossa dignidade. Tem que evitar que ele chegue, impedi-lo no seu nascedouro, casa por casa, quilômetro por quilômetro.

O problema é muito grave – feito doença crônica – mas não impossível de ser sanado (e saneado), como não é possível que ninguém encontre uma solução que, ao meu ver, parece óbvia. No entanto, a imagem que predomina é da total e absurda indiferença, que se revela no lixo acumulado desembocando no mar; nos urubus fazendo turismo de rapina na praia; no descaso das autoridades e na aceitação inerte da população (não conheço nenhuma manifestação coletiva séria  sobre essa situação).

Por fim, despoluir o Salgadinho requer prioridade (urgentíssima) e investimento caro; uma obra que provavelmente não se esgote em um só governo.

Talvez more aí a principal dificuldade: Se não dá pra concluir nos quatro anos de um mandato, como transformá-la em votos?

Ops! Cala a boca, língua salgada!