25 de janeiro de 2022Informação, independência e credibilidade
Política

A coleção de besteiras e gafes de Bolsonaro em cúpula do Mercosul

“Embaixada não é lugar de se fazer política”, piada com rivalidade entre Chile e Peru e exaltação de Trump destoaram com “mitadas vergonhosas”

O presidente da República, Jair Bolsonaro, acompanhado dos ministros das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e da Economia, Paulo Guedes, discursa na 54ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, em Santa Fé, Argentina.

Abrindo o plenário exaltando a nova fase de prosperidade e dinamismo do Mercosul, a partir do recém-fechado acordo com a União Europeia, o presidente argentino Mauricio Macri passou a palavra ao presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, com uma provocação. “Querido amigo, mas sem falar sobre o VAR porque, disso, não vamos falar”, cutucou.

Ao tomar a palavra, o presidente brasileiro, que acusa os líderes de esquerda da região de populistas e de autoritários, surpreendeu ao elogiar o bolivariano presidente da Bolívia, Evo Morales. Foi a primeira vez que Bolsonaro teve palavras cálidas com um líder de esquerda: “Morales, já estava com saudades de você depois que eu o vi na minha posse no Brasil”.

Mais logo depois, surgiu um festival de besteiras. Os líderes de esquerda da região usam a expressão “Pátria Grande” para se referirem a uma América Latina unida como se fosse um único país integrado. A expressão é sempre usada por Evo Morales, mas o brasileiro prefere a expressão de Donald Trump, “América Grande”.

“Não queremos na América do Sul uma ‘Pátria Grande’. Queremos que cada país seja autônomo, democrático e grande como diz o Trump na sua ‘América Grande'”. Jair Bolsonaro, presidente do Brasil.

Enquanto o presidente brasileiro discursava, o chileno Sebastián Piñera entrava no plenário sem procurar fazer alarde por chegar atrasado. Bolsonaro interrompeu o seu discurso para cumprimentar o seu amigo que entrava de fininho:

“Bem-vindo, Piñera! Ei, Piñera! Bem-vindo!”. Piñera, claro, não respondeu.

“O seu problema é com o Peru; não com o Brasil. Na Copa América, quero deixar bem claro”. Jair Bolsonaro.

Mas a gafe já estava lançada. Peru e Chile mantém uma longa tensão desde a Guerra do Pacífico, no século XIX, quando o Chile invadiu o Peru, ganhou a guerra e ficou com parte do território peruano.

Bolsonaro voltaria a chamar o seu colega chileno ao mencionar o Chile. “Cadê o Piñera?”, perguntou. “Agora está bem localizado”, disse. Piñera novamente nem olhou.

Bolsonaro também comparou a reforma da Previdência que promove no Brasil à quimioterapia. “Apesar de a reforma ser como uma quimioterapia, é necessária para o corpo sobreviver”, ilustrou.

O tema é delicado para outros países da região como o Chile que enfrenta críticas pelo seu sistema de capitalização, justamente aquele que Paulo Guedes quer implementar no Brasil. Também a Argentina que precisará reformar o seu sistema previdenciário.

“Conversando com o primeiro-ministro japonês, eu o convidei ao Brasil para provar o nosso churrasco. Mas até brinquei com ele. Disse que o churrasco da Austrália era genérico perto do nosso. E também perto do da Argentina e perto do do Uruguai, para não deixar os nossos colegas fora disso”. Jair Bolsonaro.

Moeda comum

Fora do discurso, uma contradição aconteceu em nível ministerial. O tema foi discutido entre ministros da Economia e presidente dos Bancos Centrais dos países que compõem o bloco. “Vamos fazer um estudo profundo sobre as mudanças e as vantagens potenciais de uma moeda comum”, anunciou o ministro da Economia argentino, Nicolás Dujovne.

Horas antes, o ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes, tinha relativizado: “Do ponto de vista objetivo, não houve nada ainda. Do nosso ponto de vista, é um horizonte distante”.

Outra contradição do presidente Bolsonaro. No discurso, pregou o “zelo nas indicações às Embaixadas sem víeis ideológico”. Mas o víeis ideológico só vale quando se trata da esquerda, já que ele defende a indicação do seu filho, Eduardo Bolsonaro, como embaixador nos Estados Unidos.

“Imaginem se o filho do Macri (Mauricio Macri, presidente argentino) fosse embaixador no Brasil e ligasse para mim, querendo falar comigo. Quando vocês acham que ele seria atendido. Amanhã, semana que vem ou imediatamente?”. Jair Bolsonaro.

Embaixador não liga pra presidente, liga pro responsável pelas relações internacionais. ​Em tempo, único embaixador que o Trump respeita é o da Rússia. E um repórter quis saber, então, se o eventual futuro embaixador Eduardo Bolsonaro receberia também petistas na Embaixada.

“Petista com bandeirinha do PT no peito? Ninguém. Embaixada não é lugar de se fazer política”. Jair Bolsonaro.