25 de maio de 2022Informação, independência e credibilidade
Policia

Acusado de executar Marielle diz à Veja já ter sido ajudado por Bolsonaro

PM era vizinho do atual presidente, mas diz que “mal o conhece”

Acusado de executar vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes em 2018, no Rio de Janeiro, o policial militar reformado Ronnie Lessa ainda nega sua participação no crime.

Diz ser vítima de armação e aponta o dedo para um morto, o chefão miliciano Adriano da Nóbrega.

Em entrevista exclusiva a Veja, por meio de videoconferência, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, Lessa também confirmou que recebeu ajuda do presidente Jair Bolsonaro no fim de 2009. Mesmo dizendo que mal o conhece.

Depois de perder parte da perna esquerda na explosão de uma bomba em seu carro, ele conta que o presidente, então deputado federal, intercedeu para que seu atendimento fosse priorizado na Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR), no Rio de Janeiro.

“Bolsonaro era patrono da ABBR. Quando soube o que aconteceu, interferiu. Ele gosta de ajudar a polícia porque é quem o botou no poder. Podia ser qualquer outro policial”. Ronnie Lessa.

Apesar disso, o favor foi recusado: ele deixou o tratamento após duas semanas, porque a prótese “era bem simplesinha” e o seguro que recebeu lhe permitiu comprar uma melhor.

“É um cara esquisito. Se vi cinco vezes na vida, foi muito. Um dia cumprimenta, outro não, e mesmo assim só com a mãozinha. E nunca vi os filhos dele”. Ronnie Lessa.

Entre 2004 e 2018, Bolsonaro destinou ao menos 4,6 milhões de reais em emendas parlamentares para a instituição, sem contar a generosidade dos filhos. Lessa, o interno número 33 da Penitenciária Federal de Segurança Máxima de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, desde dezembro de 2020, ainda acrescenta: “No final dessa história eu saio como mal-agradecido. Nunca fui apertar a mão dele”.

Na entrevista, Lessa atribui a intermediação do crime ao ex-capitão Adriano, chefe do bando de milicianos e assassinos de aluguel conhecido como Escritório do Crime, que foi morto pela polícia na Bahia em 2020.

A promotoria está convicta da condenação de Lessa, apesar dos tropeços do processo. Nestes quatro anos, as investigações já correram o risco de passar para a esfera federal, tiveram cinco delegados à frente, duas promotoras deixaram o inquérito alegando “interferências externas” e há uma série de interrogações ainda sem resposta, inclusive as duas mais prementes: quem mandou matar Marielle e por quê.