23 de setembro de 2021Informação, independência e credibilidade
Política

Aliado, Miranda chora decepcionado (e com medo) ao concluir que Bolsonaro é corrupto

Decepcionado com seu Mito, deputado disse na CPI que presidente sabia e permitiu ações corruptas com a Covaxin de seu líder de governo, Ricardo Barros

A CPI da Pandemia teve seu dia mais importante nesta sexta-feira (25) com os irmãos Miranda. Um, Ricardo Miranda, servidor de carreira, concursado do Ministério da Saúde, que apontou irregularidades e propinas em compra de vacina. O outro, Luis Miranda (DEM-DF), deputado federal eleito na onda bolsonarista e que precisou sentir na pele para acordar sobre a política corrupta de seu presidente.

A tropa do cheque tentou atrapalhar. Mas mesmo diante dos gritos descontrolados de Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), líder do governo no senado que ficou vermelho de raiva, um sonso Marcos Rogério (DEM-RO), que inventa “narrativas” para defender Bolsonaro ou mesmo a intimidação de Marcos do Val (Podemos-ES), o barrigudo baixinho da SWAT, provas e depoimentos mais do que relevantes aconteceram.

O deputado Luis Miranda precisou de mais de 6 horas, mas pressionado pelas perguntas de Alessandro Vieira (Cidadania-RS) e Simone Tebet (MDB-MS), resolveu deixar escapulir o nome do deputado que Bolsonaro sabia estar metido na corrupção de compra das vacinas: Ricardo Barros (Podemos-PR), simplesmente o líder do governo.

Curiosamente, Barros é autor de uma emenda produzida para facilitar a importação da Covaxin, imunizante indiano. A MP que recebeu a emenda é a 1.026/2021, que visava facilitar a compra de vacinas, flexibilizando a análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Assim, um imunizante poderia ser avalizado mesmo sem estudo em fase 3 concluído no Brasil.

O contato entre Bolsonaro e os Miranda teria ocorrido em 20 de março deste ano, quase um mês depois da assinatura do contrato de aquisição de 20 milhões de doses da Covaxin, ao custo final de R$ 1,6 bilhão.

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O deputado fez a primeira menção à suposta frase de Bolsonaro às 15h35. Questionado várias vezes, Miranda resistiu em informar quem seria o “fulano”. Jurava não lembrar. Somente às 21h48 admitiu, ao responder a um questionamento da senadora Simone Tebet (MDB-MS) e depois de ter sido pressionado por vários senadores.

“Eu sei o que vai acontecer comigo. A senhora também sabe que é o Ricardo Barros que o presidente falou. Foi o Ricardo Barros que o presidente falou. Foi o Ricardo Barros”. Luis Miranda, (DEM-DF).

“Eu queria ter dito desde o primeiro momento, mas é que vocês não sabem o que eu vou passar. Apontar para o presidente da República que todo mundo defende como correto e honesto, que sabe que tem algo errado, sabe o nome, sabe quem é e não faz nada por medo da pressão que pode levar do outro lado. Que presidente é esse que tem medo de pressão de quem está fazendo o errado, quem desvia dinheiro”? Luis Miranda, (DEM-DF).

Miranda, que chegou na CPI com um colete a prova de balas e segurando uma bíblia, foi eleito na onda bolsonarista. E defendia de forma ferrenha os projetos e pautas de seu presidente no Congresso. Mas precisou sentir na pele, na ameaça ao seu irmão, que alguns dos ideais de Bolsonaro são nefastos, corruptos e péssimos ao Brasil.

E como um leopardo que teve a cara mordida pelo bicho que ajudou a criar, especialmente a ameaça escancarada feita pelo ministro Onyx Lorenzoni dias antes, sobre as acusações de corrupção, precisou sentir na pele para descobrir que o que vinha defendendo é errado.

“Todos os servidores públicos, principalmente aqui no Distrito Federal, sintam abraçados, porque a partir de agora eu sou contra a reforma administrativa, porque se não fosse a instabilidade, não estaria de enfrentado com a coragem que ele tem de denunciar esse estudo que está ocorrendo”. Luis Miranda.

Seja por estar pressionado ou por medo, Miranda chorou. Mas de decepção. Ele ali se arrependeu com seu mito. Rico e vivendo de boa nos EUA, resolveu ajudar o Brasil de alguma forma após a inflamada eleição de 2018 e surfou na onda do Bolsonarismo. E hoje tem medo de morrer afogado. Não só metaforicamente.

E como ele, que muitos outros bolsonaristas acordem para vida: Bolsonaro e seu governo agiram com incompetência nesta pandemia, suas ações ou faltas dela mataram centenas de milhares de pessoas e ele é corrupto. Muito corrupto.