26 de junho de 2022Informação, independência e credibilidade
Brasil

Alto contágio e limite de leitos: Porque o novo coronavírus é perigoso

O SUS possui 15 mil leitos de UTI e o Covid-19 pode provocar um colapso do Sistema Público de Saúde

Muito se compara o Corona Vírus com a Gripe Comum. Esse é o discuso de pessoas alinhadas com o pensamento de pessoas como o presidente Jair Bolsonaro, que antes de ter seu chefe da Secom sendo contaminado, disse que tudo não passava da fantasia.

Mas isto está errado. Só levando o caso da Itália:

  • Em 28 semanas, a Gripe matou 205 pessoas na Itália (isso durante a temporada 2018/2019).
  • Em 3 semanas, o Corona Vírus (COVID-19) matou 827 pessoas na Itália.

 

Portanto, na Itália, o Coronavírus matou quatro vezes mais em muitíssimo menos tempo. Confira a seguir os números da gripe em São Paulo, que hoje tem o maior número de infectados com o novo coronavírus no Brasil:

O fato é que o debate público em relação à COVID-19 (Doença) causada pelo SARS-COV-2 (Vírus) é muito pobre e esconde a principal característica dessa pandemia: o colapso do Sistema Público de Saúde.

Segundo avaliação do Ministério da Saúde, os dados sobre disponibilidade de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) no país preocupam: dos 16 mil leitos adultos existentes no Sistema Único de Saúde (SUS), 95%, ou 15.200, estão ocupados.

Atualmente, 75% da população brasileira usa o SUS e 25% usa a rede particular de saúde. Portanto, a estimativa é que em meio meio à pandemia de coronavírus, o Brasil precisaria de 3.200 novos leitos de UTI no SUS.

Na Itália, foi preciso implementar um sistema de triagem médica no norte do país, onde se uma pessoa entre 80 e 95 anos tiver insuficiência respiratória grave, provavelmente não prosseguirá o tratamento. Se ela tiver uma falha de mais de três órgãos vitais, significa que a taxa de mortalidade é de 100%.

O novo coronavírus, já contaminou mais de 125 mil pessoas no mundo todo e deixou mais de 4.600 mortos desde o início do surto na China em 31 de dezembro.

Ainda mantendo a discussão sobre a comparação com a fatalidade da gripe comum, se for de 3,5%, 1% ou 0,2% não importa, porque ela só se mantém “baixa” enquanto houver leitos e UTIs hospitalares disponíveis. Observe a tabela abaixo do número de leitos com casos do Covid-19:

Das 7.550 UTIs disponíveis em toda a Itália, pelo menos 1.028, ou 13,5%, e subindo todo dia, estão sendo ocupadas por essa doença. Dessas 7.500 UTIs disponíveis, a maioria, claro, já estava em uso por outras doenças.

Como não se precisa de UTI apenas para o novo coronavírus, claro que outras situações fazem pacientes precisar deste leitos. No estado de São Paulo, por exemplo, a taxa de ocupação das UTIs do SUS é em torno 70%:

Ou seja, pessoas saudáveis que sofrerem um acidente grave, por exemplo, podem falecer pela escassez de UTIs causada por essa doença. Causa ainda mais estresse no sistema o fato de paciente crítico demorar para se recuperar. De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), entre 3 e 6 semanas:

Na China, um Hospital foi construído em apenas 10 dias para suportar os novos casos

O próprio secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis, admitiu ontem em comissão do senado, ao citar o exemplo da Itália, onde a falta de leitos foi um dos fatores que levaram a medidas drásticas de isolamento.

“Estamos nos preparando para ter um número adicional de leitos de UTI porque esses pacientes entram nos leitos e não saem rápido; eles ficam de três a quatro semanas. Como não há uma renovação na utilização desses leitos, eles vão se esgotando”. João Gabbardo dos Reis, secretário-executivo do Ministério da Saúde.

Finalmente, agrava ainda mais o problema a nossa proximidade com a temporada de gripe, agora com o fim do verão (abril até outubro, com pico em julho), pois além das UTIs necessárias para as complicações respiratórias causadas pela Influenza, somam-se agora a demanda gigantesca por UTIs do COVID-19.

O resumo é esse: o Covid vem se mostrando mais letal que a gripe comum, entre outros fatores, por causa do colapso do Sistema Público de Saúde. Quantos mais doentes, mais leitos serão ocupados.

Nem todos os infectados que precisarem de tratamento numa UTI conseguirão uma vaga. E há um número limitado no país, já que ainda há cirurgias eletivas com complicações, outras enfermidades e acidentados.

Portanto, o momento é de cautela, não de fantasia. E não é problema nenhum se resguardar neste período, evitando aglomerações e contato sempre que possível.