25 de janeiro de 2021Informação, independência e credibilidade
Brasil

Após ataques contra enfermeiros e hospitais, já dá pra prever que pandemia ficará (muito) pior

Deturpação da verdade é tamanha que já se consegue fazer multidões duvidarem do vírus, dos mortos, da necessidade de combater este cenário

Politizaram a pandemia. E, surpresa, o candidato que bradava o fim da ideologia e do ‘toma lá, da cá’ em seu governo está fazendo exatamente o contrário. No pior momento possível.

O mais frustrante é que com todas as evidências e dados possíveis, fieis seguidores de Jair Bolsonaro e seu entorno se recusariam a passar do primeiro parágrafo desse texto.

E estes seguem prezando pela economia e seu presidente, mesmo após Bolsonaro soltar algumas das mais insensíveis, irônicas, negacionistas, cruéis e imperdoáveis frases e respostas sobre o avanço do covid-19. Desde quando o novo coronavírus ainda não tinha ceifado ninguém, até o número de mortos superar 5 mil:

O mais assustador é que, no momento, passamos de mil mortes confirmadas a cada três dias e tenha quem ache isso pouco. No Amazonas, já houve um colapso e pessoas estão morrendo fora do hospital. No Maranhão já há cidades em lockdown. Em Alagoas, no dia 15 de abril havia 83 casos e 5 mortes. Já, são 1.226 infectados e 53 mortos.

O que esperar destes estados e o restante do Brasil dentro de algumas semanas? O mais triste de tudo é que o que não falta é informação para prever o pior.

Infelizmente, o crescente número de acessos de informação provoca uma dicotomia… Ao mesmo tempo que é perfeitamente plausível não ser feito de idiota e cair em mentiras, a chegada de dados, fatos e factoides é tão grande que os mais ignorantes ou os que torcem por topar com algo que os agrade, passam a acreditar em tudo.

Foram anos disso. Sem filtro, o que chega no Whatsapp é a lei. Mesmo que seja o áudio de alguém afirmando ser outra pessoa, ou uma foto com montagem ridícula.

Às vezes nem se faz tanto esforço: um texto cretino em cima de uma imagem, afirmando que um governador infectado se reuniu com dezenas de pessoas em um ato político, já basta para fazer as pessoas duvidarem da realidade.

E a deturpação da verdade é tamanha que já se consegue fazer multidões duvidarem do vírus, dos mortos, da necessidade de combater este cenário. Neste 1º de maio, por exemplo, um protesto silencioso de enfermeiros, que queriam mais EPIs e condições de trabalho na linha de frente contra o vírus, foi interrompido por bolsonaristas.

Interpretar a fundo os que se vestem de verde e amarelo defendendo o presidente e a economia, agredindo enfermeiros durante uma pandemia, fica para segundo plano. Há uma gama de explicações para todos os casos: podem ser ignorantes, idiotas, frustrados, impotentes, contraditórios, enrustidos, manipulados, monstros, vis, hediondos… Não importa muito.

Eles são criminosos:

  1. crime de perigo de contágio de moléstia grave (art. 131);
  2. crime de perigo para a vida ou saúde de outrem (art. 132);
  3. crime de epidemia (art. 267);
  4. crime de infração de medida sanitária preventiva (art. 268);
  5. crime de desobediência (art. 330).

Todos do Código Penal.

Claro, todos são inocentes até que se prove o contrário e quando o alto escalão manipula dados e informações, sempre é possível alegar ignorância quanto às verdades sobre os fatos. Tem quem de verdade veja Bolsonaro um Messias e os governadores e prefeitos uns tiranos. E estas são as mesmas pessoas que fazem carreata em frente aos hospitais, com volume alto no carro tocando ‘Que País é Esse?’

Há algumas semanas, era bom ter esperança. Esperança na solidariedade do próximo, o novo coronavírus é um inimigo grande o suficiente para eliminar ideologias políticas. Que se as pessoas colaborarem e fizerem o distanciamento social, como na Nova Zelândia, Alemanha ou Paraguai, não teríamos mais pessoas na UTI e o número de mortos seria pequeno.

Mas isto foi há semanas atrás e agora temos inúmeras evidências tanto do estrado que pode provocar o coronavírus… e também a ajuda extra de criminosos. É triste. É angustiante. Mas vai ficar muito pior.