23 de junho de 2021Informação, independência e credibilidade
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Ardil 2022: O paradoxo de ir às ruas ou seguir permitindo o desgoverno na pandemia

Em uma situação impossível, sensatos vivem um Catch-22 literal ao tentarem se entender sobre organizar ou não manifestação nas ruas

No livro Catch-22, do escritor Joseph Heller, de 1961, uma lei militar paradoxal é imposta a um grupo de pilotos americanos durante a Segunda Guerra mundial: o medo de morrer, algo racional, poderia ser considerado um problema mental, o que implica na dispensa de missões de voo, mas ao pedir a dispensa você mostraria estar são, já que só um doido não teria medo de pilotar um avião de combate.

Ou seja, quem pedisse dispensa, não estaria mais doido e teria que voar em novas missões. Você seria doido se voasse em novas missões e são se não o fizesse. Mas se estivesse são, não poderia ter dispensa e teria que voar novamente em missões de combate. Se voasse, então estaria doido e não teria que fazê-lo. Mas, se ele não quisesse fazê-lo, então estaria são e teria que fazê-lo.

Para bom brasileiro entender, é o nosso se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Exatamente o que acontece agora: muitos estão cientes dos perigos da Covid-19 e não é muito normal ir às ruas em aglomerações, mas acaba sendo necessário quando uma parcela (e seu governo) fazem isso ativamente, perigando perpetuar esse cenário de pandemia. Ao menos para além de 2022.

Podia ter sido mais fácil

No Brasil, Catch-22 foi traduzido como Ardil-22, a situação ardilosa e sem saída que hoje, sem muito floreio, perfeitamente acontece em nosso país, durante esta pandemia.

É preciso ser mentalmente incapaz para achar que uma pandemia viral, com contágio em gotículas de saliva, espirros, tosse, contato próximo e superfícies contaminadas por contato, não se espalharia se algumas medidas simples não fossem adotadas.

Qualquer criança ou adulto com cognição inferior e idade mental de 2 anos conseguiria adotar medidas simples, como uso de máscaras (as vias aeras são as principais portas de entrada e saída do covid-19), maior higienização (como o vírus está envolto num bicamada lipídica, álcool gel ou espuma de sabão destrói o coronavírus) ou, claro, o distanciamento social.

Infelizmente, seja por histeria, negacionismo transvestido da mais completa burrice ou puro genocídio, essas ações completamente simples e que mitigariam a situação de pandemia enquanto a vacina (até hoje, única solução) não estivesse ao alcance de todos, um contingente enorme quis lutar contra isso.

Máscaras se tornaram um símbolo físico do comunismo, o distanciamento social ou toque de recolher uma clara medida contra a liberdade de ir e vir e o fechamento do comércio (a mais difícil de ser tomada) foi tido como uma medida irresponsável e assassina. Ou seja, jogaram contra.

Com mais de 470 mil mortos, o brasil é presidido por alguém que tem fãs. Alguém que conta “piadas” sem graça e consegue gargalhadas. Alguém que conseguiu colocar no jargão do gado comum palavras e expressões como “eu autorizo”, “globolixo”, “vá pra cuba” e outras merdas.

Imagina o poder que este mito desperdiçou: se no começo incentivasse o uso de máscaras verde amarela aos bons patriotas, que assim como ensinou a higienização de pênis contra câncer (eu não seria capaz de inventar isso), também incentivasse o uso de álcool gel e que fosse batalhar no STF para que a primeira vacina nacional se chamasse B-17, JB-38 ou Messias-22.

O Brasil seria outro. Toda merda que ele faz ou fala, é reproduzida. Como em toda seita que se preze, os seguidores fariam igual. Bastava isso. Mas ele jogou contra. Fez completamente o contrário, algo que qualquer outro mentalmente incapaz conseguiria faz. Até remédios que não funcionam contra vírus persistem no dialeto rural. É frustrante. E genocida.

Ardil 22

A virtude de um bom líder é reconhecer seus erros. O presidente, no entanto, se acha melhor que o professor Girafales e não admite nem ter errado quando errou. É infalível, imortal, imbrochável. E seguindo nessa tocada, o homem que falou em gripezinha ou apenas 8 mil mortes por covid-19 e partiu para discursos de frescura e mimimi, tem a autorização de surtados para continuar neste ritmo.

Diante de todas as evidências, o status quo deste governo mostra que a mudança não viria de dentro. Diacho, ele vai além como se a cada passo testasse os limites de seu poder. Uma hora, vai se achar no direito de tomar para si o que não é dele. E é aí que entraria sua oposição.

O Brasil está numa situação de merda. Com uma 3ª onda batendo na porta, ritmo de contágio crescendo e um horizonte sem fim com a longa demora no plano nacional de imunização, o presidente continuaria passeando de moto em um país de fantasia enquanto as pessoas sensatas apenas testemunhariam em casa. Por causa, claro, do vírus e seu alto nível de contágio.

No último dia 29, houve um momento de basta. A oposição organizou um protesto nacional e foi às ruas. De forma pacífica em todas as cidades – inclusive no Recife, onde PMs fizeram duas pessoas perderem o olho após tiros de bala de borracha.

O presidente disse que foi pouca gente porque a PF aprendeu número recorde de maconha. O gado ironizou a “aglomeração do bem”. Muitos com certeza iriam em outra situação, que não durante a pandemia. Seja o receio de se infectar e contaminar conhecidos (ou mesmo desconhecidos, pois empatia não precisa se limitar nisso), seja todo o discurso de evitar se aglomerar.

Isso tudo pode se repeti no dia 19 deste mês. Assim como aconteceu em 2013, contra Dilma, às ruas devem receber um novo ‘Não vai ter Copa’, desta vez contra a Copa América no Brasil, torneio que o presidente prontamente aceitou após pedido da Conmebol, ao contrário dos 9 meses de tratamento de silêncio para com a Pfizer e suas vacinas.

E com um povo cada vez mais acuado, com um governo debochado e gado burro ou mentalmente incapaz, o se correr o bicho pega ou se ficar o bicho come do Brasil é realmente uma situação ardilosa, que pode ter reflexos em 2022.