18 de janeiro de 2021Informação, independência e credibilidade
Brasil

Bolsonaro ameaça STF e Congresso: ‘Não tem mais conversa’

Declarações do presidente no domingo abriram outra crise institucional

Na porta do Planalto, Bolsonaro diz que as Forças Armadas estão lhe apoiando

BRASÍLIA – Após fazer aparição de quase uma hora na rampa do Palácio do Planalto para centenas de pessoas que se manifestavam a favor do seu governo e contra o STF e o presidente da Câmara neste domingo, o presidente Jair Bolsonaro  (sem partido) disse que a Constituição será cumprida no país “a qualquer preço” e que o governo tem o povo e as Forças Armadas ao seu lado.

“Graças a Deus que não temos problemas esta semana porque chegamos no limite, não tem mais conversa”, disse Bolsonaro, ao deixar a rampa, em live transmitida em sua página no Facebook.

“Daqui para frente, não só exigiremos, faremos cumprir a Constituição, ela será cumprida a qualquer preço. E ela tem dupla mão, não é de uma mão de um lado só não”, afirmou, acrescentando que o governo nomeará novo diretor-geral da Polícia Federal nesta segunda-feira.

Na quarta-feira, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes suspendeu a nomeação de Alexandre Ramagem para o cargo, em decisão liminar, citando possível comprometimento do indicado, que tem relação de amizade com a família de Bolsonaro.

O ex-diretor da corporação Maurício Valeixo foi demitido por decisão de Bolsonaro em processo que levou o ex-ministro da Justiça Sergio Moro a deixar o governo acusando o presidente de querer interferir nas investigações da PF.

Neste domingo, na rampa, onde acenou a apoiadores e pegou duas crianças sem máscara de proteção contra o coronavírus no colo, Bolsonaro ressaltou o apoio das Forças Armadas e do povo ao seu governo.

“Tenham certeza de uma coisa, nós temos o povo ao nosso lado, nós temos as Forças Armadas do lado do povo, pela lei, pela ordem, pela democracia e pela liberdade, e o mais importante, temos Deus conosco. O Brasil tem tudo para dar certo, o Brasil vai dar certo”, afirmou.

Bolsonaro estava acompanhado de dois dos seus filhos, o deputado Eduardo Bolsonaro (PLS-SP) e a caçula Laurinha. Nenhum dos três usava máscaras.

A deputada Bia Kicis (PSL-DF), também na rampa, afirmou que a manifestação não defendia o fechamento do Congresso ou do STF.

“Não queremos fechar Congresso, fechar Supremo, mas que nosso presidente possa governar”, afirmou. “O povo não vai deixar ministros, com canetada, impedir nosso presidente de governar.”

Antes de se concentrarem em frente ao Palácio do Planalto, os manifestantes fizeram carreata na Esplanada dos Ministérios. Havia faixas de “Fora Maia”, em referência ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e em favor de Bolsonaro. Uma enorme bandeira do Brasil foi passada por cima da grade ao grupo que acompanhava Bolsonaro, que a carregou sobre os ombros.

AGRESSÃO A JORNALISTAS

Durante a manifestação, jornalistas que estavam cobrindo o evento foram agredidos fisicamente por manifestantes.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), lamentou, no Twitter, a agressão contra jornalistas e trabalhadores da área de saúde.

Na sexta-feira, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro agrediram verbalmente profissionais de saúde que faziam manifestação em defesa do isolamento social na Praça dos Três Poderes, em Brasília.

“Minha solidariedade aos jornalistas e profissionais de saúde agredidos. Que a Justiça seja célere para punir esses criminosos”, escreveu Maia.

Repercussões negativas

O governador do Rio, Wilson Witzel, criticou mais uma vez o presidente Jair Bolsonaro via redes sociais ao afirmar que ele diz pregar a democracia, mas fica em silêncio diante das agressões sofridas por profissionais do Estadão/Broadcast em manifestação da qual participou neste domingo (3).

“Alimentar o caos é o único plano de governo do presidente”, afirmou Witzel em postagem no Twitter, logo após replicar reportagem do Estadão/Broadcast que relata que apoiadores do presidente Jair Bolsonaro agrediram com chutes, murros e empurrões a equipe de profissionais do jornal que acompanha uma manifestação pró-governo realizada hoje, em Brasília.

O fotógrafo Dida Sampaio registrava imagens do presidente em frente a rampa do Palácio do Planalto, na Esplanada dos Ministérios, numa área restrita para a imprensa quando foi agredido.

Mais cedo, o governador fluminense afirmou que enquanto o ponto básico de atenção no mundo inteiro é manter o isolamento social, o presidente do Brasil segue em caminho contrário, “mandando as pessoas para o corredor da morte”. Witzel questionou: “Até quando o presidente vai tratar a covid-19 como um resfriadinho?”.

A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia afirmou que “quem transgride e ofende a liberdade de imprensa, ofende a Constituição, a democracia e a cidadania brasileira”. Segundo Cármen Lúcia, isso “significa atuar de maneira inconstitucional”.

Outro ministro do STF, Gilmar Mendes, afirmou que “a agressão a jornalistas é uma agressão à liberdade de expressão e uma agressão à própria democracia”. “Isso tem que ficar claro”, completou.

Os ministros também disseram lamentar a agressão física e verbal que os profissionais do Estadão/Broadcast – o fotógrafo Dida Sampaio, o motorista do jornal Marcos Pereira e os repórteres Julia Lindner e André Borges – sofreram de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, em frente ao Palácio do Planalto, enquanto realizavam a cobertura jornalística do evento neste domingo.