19 de janeiro de 2022Informação, independência e credibilidade
Política

Bolsonaro assume ser prevaricador, corrupto e falso cristão ao não responder chefe da Anvisa

Barra Torres desafiou presidente a se retratar após acusá-lo de ser “tarado por vacina” e que tinha “interesse por trás” em vacinar crianças

Para bom entender, o silêncio de Jair Bolsonaro e seu entorno diante da nota do general Barra Torres, diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), bastou.

Confirmando mais uma vez que o presidente ladra, mas não morde. E a melhor nota de repúdio que já recebeu em seu governo o fez assumir outras características, bem menos elogiosas.

Bolsonaro, que após tantos anos de pandemia ainda se agarra em uma teimosia imbecil de atacar medidas de avanço do vírus, incluindo nisso a vacinação, acusou a direção da Anvisa de ser “tarada por vacina”.

E não só isso, como insinuou que a liberação da proteção de crianças teria ocorrido porque alguém teria levado vantagens. “Qual o interesse da Anvisa por trás disso aí?”, questionou o chefe do Executivo.

Ao contrário de muitos outros ofendidos pelas mentiras e abusos do presidente (incluindo nesse monte membros da sociedade civil, imprensa, legislativo, executivo e judiciário), presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres

O presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, que não pode ser demitido até o final de 2024, desafiou o presidente Jair Bolsonaro a apresentar provas sobre corrupção no órgão regulador, que aprovou a vacinação de crianças de 5 a 11 anos contra a covid-19.

Pelo jeito, apenas verdades

Barra Torres respondeu o presidente com uma nota dura. Com mais parágrafos do que o presidente está acostumado a ler, o texto desafia o presidente a se retratar publicamente a contar uma mentira. Ou que inicie uma investigação contra o próprio Torres, por “ter interesses” em vacinar crianças, que não o de salvar suas vidas.

No texto, Torres ainda disse ser temente a Deus e duvidou que Bolsonaro faça o mesmo, além de desafiar que faça algo digno da “grandeza que o seu cargo demanda”.

E se defendendo de forma veemente da acusação de ganhar dinheiro por fora para vacinar os brasileiros, Torres afirma que “vai morrer sem conhecer riqueza”. E que nunca se apropriou do que era dos outros, prezando valores morais e que tem caráter. E assinou como Almirante da Marinha.

Bolsonaro e provavelmente boa parte de sua “equipe ténica” não iriam ler todo o texto. Para eles, algo maior que um tweet já é coisa demais. Mas sempre tem alguém para resumir algo para eles. E não tem como interpretar a nota do presidente da Anvisa de forma diferente:

  • O presidente é um prevaricador e mentiroso da pior espécie, jogando para o ar e seus gados acusações falsas, sem nunca ter provas para abalizá-las;
  • É um falso cristão, que tenta enganar sua massa de manobra com uma ou outra citação bíblica, mas que não segue as palavras do Senhor e que na prática não é temente a Deus;
  • É corrupto e ladrão, que ficou rico (toda a familícia) mesmo com seus salários não permitindo isso, graças aos desvios de salários de funcionários;
  • O presidente não é digno do cargo que ocupa, não sabe do que fala e se for tratar de vacina, que não seja com o presidente da Anvisa, que é médico e, algo que Bolsonaro também não o é, profissional;
  • Bolsonaro é apenas capitão e Torres um general almirante, que tem cargo intocável até o final de 2024.

Só faltou usar palavrão, mas o baixo calão ele deixa para Bolsonaro e seu entorno.

Ainda sem resposta

Entrando no quarto ano de governo, já ficou claro como funciona a máquina de desinformação bolsonarista. Diante de um forte fato, difícil de ser desviado, eles cessam o fogo e recuam para organizar suas novas táticas.

Este final de semana, se seguir o modus operandi dos demais, será de produzir o máximo possível de materiais de ataque pessoal contra o diretor da Anvisa. Vídeos antigos com ele ao lado de alguém do PT, um deslize em uma entrevista, algo fiapo de evidência que possa desmerecê-lo.

São anos disso: incapazes de responder a mensagem, eles atacam e desvalorizam o mensageiro. E Torres será mais umas vítimas da máquina de fake news bolsonarista. Tanto ele, quantos seus familiares.

Também é de interesse do Bolsonaro o máximo de notícias que desviem do assunto, como enchentes em diversos estados brasileiros ou desastres como o da queda de um rochedo em Capitólio (MG). Tudo no script.

Mas não se deve ser esquecido que um general apontou o dedo na cara do presidente e o chamou de ladrão, indigno, mentiroso e falso Cristão. Bolsonaro nem ao menos reagiu. Não soltou nem um “caguei”. Ficou calado. E quem cala, consente.

Confira a nota na íntegra do General da Marinha:

“Senhor Presidente, como Oficial General da Marinha do Brasil, servi ao meu país por 32 anos. Pautei minha vida pessoal em austeridade e honra. Honra à minha família que, com dificuldades de todo o tipo, permitiram que eu tivesse acesso à melhor educação possível, para o único filho de uma auxiliar de enfermagem e um ferroviário.

Como médico, Senhor Presidente, procurei manter a razão à frente do sentimento. Mas sofri a cada perda, lamentei cada fracasso, e fiz questão de ser eu mesmo, o portador das piores notícias, quando a morte tomou de mim um paciente. Como cristão, Senhor Presidente, busquei cumprir os mandamentos, mesmo tendo eu abraçado a carreira das armas. Nunca levantei falso testemunho.

Vou morrer sem conhecer riqueza Senhor Presidente. Mas vou morrer digno. Nunca me apropriei do que não fosse meu e nem pretendo fazer isso, à frente da Anvisa. Prezo muito os valores morais que meus pais praticaram e que pelo exemplo deles eu pude somar ao meu caráter.

Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, Senhor Presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa aliás, sobre qualquer um que trabalhe hoje na Anvisa, que com orgulho eu tenho o privilégio de integrar.

Agora, se o Senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate.

Estamos combatendo o mesmo inimigo e ainda há muita guerra pela frente.

Rever uma fala ou um ato errado não diminuirá o senhor em nada. Muito pelo contrário.”