9 de dezembro de 2021Informação, independência e credibilidade
Política

Bolsonaro discursa na cúpula do clima 5 meses após ameaçar Biden “com pólvora”

Presidente desta vez terá que parar de ladrar e gastar saliva para convencer líderes de que a chantagem pela Amazônia proposta pelo ministro Salles é uma boa ideia

atualizado às 11h30m após o discurso de Bolsonaro

Em novembro do ano passado, enquanto ainda se lamentava e temia pela derrota de seu ídolo Donald Trump nas eleições americanas, o presidente brasileiros Jair Bolsonaro ameaçou o agora presidente dos EUA, Joe Biden, com o fim da diálogo e o uso da pólvora pela Amazônia.

O presidente fez o comentário no Planalto ao se referir a um ‘grande candidato a chefia de Estado’ que disse que poderia ‘levantar barreiras comerciais contra o Brasil’ por conta de incêndios na Amazônia.

“E como é que podemos fazer frente a tudo isso? Apenas a diplomacia não dá, não é, Ernesto (Araújo, então ministro das Relações Exteriores)? Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora, senão, não funciona. Não precisa nem usar pólvora, mas tem que saber que tem. Esse é o mundo. Ninguém tem o que nós temos”. Jair Bolsonaro, à época.

Cinco meses depois, Bolsonaro teve que parar de ladrar (para mostrar a coragem que não tem) para gastar saliva (de uma retórica nada articulada) e tentar convencer o mundo de vai combater o desmatamento ilegal e queimadas irregulares na Amazônia. Justamente em um evento virtual organizado por Biden.

Leia mais: PF troca chefe no Amazonas que pediu investigação contra Salles

Discurso

De forma mais moderada, sem acusar ONGs, indígenas ou ameaçar rivais com pólvora, o presidente Jair Bolsonaro disse que o Brasil está aberto à cooperação internacional. Ele também prometeu que o país atingirá a neutralidade climática até 2050.

O presidente, no entanto, evitou números e fatos em sua fala e não fez referências aos atuais recordes de desmatamento registrados na Amazônia. Mas disse que pretende acabar com a atividade ilegal no setor até 2030.

“Coincidimos, senhor presidente, com o seu chamado ao estabelecimento de compromissos ambicioso. Nesse sentido, determinei que nossa neutralidade climática seja alcançada até 2050. Antecipando em 10 anos a sinalização anterior. Entre as medidas necessárias para tanto, destaco aqui o compromisso de eliminar o desmatamento ilegal até 2030 com a plena e pronta aplicação do nosso código florestal. Com isso reduziremos em quase 50% nossas emissões até essa data”. Jair Bolsonaro, presidente.

Assim como em seu pronunciamento na ONU em setembro passado, Bolsonaro voltou a mentir para mundo. Afinal, não há no Brasil “fortalecimento dos órgãos ambientais” e promessas como acabar com o desmatamento não podem ser levadas a sério diante do histórico de seu governo.

Suborno e chantagem

Diplomatas e negociadores internacionais alertam que o Brasil apenas recuperará sua credibilidade internacional e passará a ser considerado como um “parceiro confiável” quando der demonstrações reais e concretas de que está agindo para frear o desmatamento.

Mas a estratégia do Planalto de exigir uma compensação em troca de promover uma reviravolta na política ambiental, orquestrada pelo ministro Ricardo Salles, é vista nos corredores da diplomacia estrangeira como uma “chantagem” que não será bem recebida.

Nas reuniões preparatórias com a equipe de Biden, a delegação brasileira fez questão de insistir que não é o Brasil o grande responsável por emissões e que quem não está cumprindo sua parte são os países ricos, que se comprometeram no Acordo de Paris a repassar US$ 100 bilhões para ajudar os países em desenvolvimento a proteger o meio ambiente.

Ou seja: querem dinheiro para só então agir para reduzir o desmatamento. Uma espécie de suburno. Uma chantagem. Não como se estivesse apontando a arma na cabeça de um refém, mas motosserra e fogo diante de uma floresta inteira.

Salles e destruição do Fundo Amazônia

Segundo Salles, o Brasil está “disposto a agir”. Mas insistiu que o apoio internacional até hoje não ocorreu, da forma que estava previsto pelo Acordo de Paris.

O ministro indicou que, entre 2006 e 2017, o Brasil conseguiu evitar a emissão equivalente a 7,8 bilhões de toneladas de gases. Se fossem remunerados com base no mercado interno europeu, tais volumes representariam um valor de US$ 290 bilhões. “O Brasil recebeu próximo de US$ 1 bilhão. Isso mostra que há espaço para o apoio da UE”, disse.

Em fevereiro desse ano, Bolsonaro assinou decreto que institui o programa Adote um Parque, criado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) para permitir que pessoas físicas e jurídicas, nacionais e estrangeiras, doem bens e serviços que serão destinados a atividades de preservação de unidades de conservação.

Segundo Ricardo Salles, pessoas físicas e empresas nacionais que participarem do programa deverão doar um valor inicial de R$ 50 por hectare. No caso de empresas ou personalidades estrangeiras, o valor será de 10 euros por hectare.

“O volume total previsto, se todos os parques fossem adotados por esse valor, que é o mesmo para pessoa física e jurídica, é em potencial de R$ 3 bilhões”. Ricardo Salles.

A medida aconteceu mais de dois anos após Jair Bolsonaro e sua então equipe de transição, no final de 2018, iniciar o que seria uma sabotagem ao fundo Amazônia. De forma semelhante ao que fez quando acabou com o programa Mais Médicos.

Em novembro de 2018, o então deputado federal e futuro ministro da Casa Civil (na época), Onyx Lorenzoni foi irônico em entrevista coletiva ao comparar as atuações do Brasil e Noruega em relação à preservação do meio ambiente.

“O que nós fizemos não vale nada, o que vale é a Noruega. E a floresta norueguesa, quanto eles preservaram? Só uma coisa importante que tem que ser lembrada: o Brasil preservou a Europa inteira territorialmente, toda a União Europeia, com as nossas matas, mais cinco Noruegas. Os noruegueses têm que aprender com os brasileiros, e não a gente aprender com eles”. Onyx Lorenzoni.

Onyx foi incompetente ou mal intencionado em sua fala, já que Brasil e Noruega firmaram um acordo em 2009 para que o país europeu fosse um dos principais doadores do Fundo Amazônia.

Até 2017, foram contabilizados mais de US$ 1,1 bilhão em doações. Um ano antes da declaração, o Fundo Amazônia havia recebido uma doação de R$ 139,3 milhões do governo norueguês e uma de R$ 139,3 milhões do Banco de Desenvolvimento da Alemanha.

Bolsonaro contra Noruega e Alemanha

Já presidente, em agosto do ano seguinte, Jair Bolsonaro contaria (mais) uma mentira: ele postou um vídeo editado com imagens de uma caça tradicional realizada nas Ilha Faroe, da Dinamarca. O objetivo do vídeo era criticar a Noruega que, claro, é um país diferente.

O ímpeto do vídeo surgiu para justificar o desdém, e suposta hipocrisia dos noruegueses, por causa da suspensão de repasse de recursos ao Fundo Amazônico. Mas uma semana antes, Bolsonaro dizia que o Brasil não precisava do repasse de R$ 132,6 milhões:

“A Noruega não é aquela que mata baleia lá em cima, no Polo Norte, não? Que explora petróleo também lá? Não tem nada a dar exemplo para nós. Pega a grana e ajude a Angela Merkel a reflorestar a Alemanha”. Jair Bolsonaro, presidente.

No total, a Noruega já doou mais de R$ 3 bilhões. Como de costume, ele também recuou na declaração e pediu doações para o fundo Amazônia, mas já era tarde demais.

No mesmo ano, o (ainda) ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, atacou, com fake news, o fundo dos noruegueses. Não é de se imaginar que houve uma sabotagem, um trabalho interno, para facilitar o desmate. Seja em benefício da agropecuária, madeireiros ou mineradores.

A embaixada da Alemanha no Brasil, no mesmo período, também respondeu sobre a necessidade reflorestar – após Bolsonaro também fazer desdem do apoio alemão, também retirado:

Em tempo: hoje, o desmatamento na Amazônia é o maior dos últimos dez anos. Com um crescimento de 30% em 2020 em comparação com 2019, 8 mil quilômetros de floresta foram destruídos entre janeiro e dezembro do ano passado. É como se a cidade de São Paulo desaparecesse, cinco vezes.

Conferência

No total, a videoconferência reúne 40 dirigentes, entre os quais o chinês Xi Jinping e o russo Vladimir Putin. Bolsonaro sabe que será cobrado por por suas visões controversas sobre a política ambiental brasileira e por isso vai apresentar números, metas e buscar um afastamento da de pária deixada durante a abertura da Assembleia Geral da ONU de 2020.

Entre os convidados ao evento estão o papa Francisco e a indígena brasileira Sinéia do Vale. A cúpula antecede a 26ª Conferência sobre o Clima, a Cop26, a ser realizada em novembro em Glasgow, na Escócia. Um dos principais objetivos é impedir a elevação da temperatura média do planeta acima de 1,5 grau neste século.