21 de junho de 2021Informação, independência e credibilidade
Brasil

Bolsonaro, Guedes e Ramos dão a entender que o governo atua para matar

Enquanto o ministro da Casa Civil se vacina escondido e o da Economia critica povo querendo viver muito tempo, presidente garante que não há nada errado

O presidente Jair Bolsonaro e os ministros da Economia, Paulo Guedes e da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Nesta terça-feira (27), primeiro dia da CPI da Pandemia, o governo Bolsonaro deixou transparecer suas verdadeiras intenções: com o país se aproximando de 400 mil mortes por covid-19, aparentemente, a intenção sempre foi matar ou deixar morrer.

Antes de tudo, é importante salientar que naquele mesmo dia, aos seus apoiadores que seguem fechados independente de tudo, o presidente Jair Bolsonaro foi categórico ao dizer que segue perfeito em suas ações nesta pandemia:

“Eu não errei em nada. Eu não tenho bola de cristal nem chuto. Apresente um áudio meu dizendo que ia ser uma gripezinha. Eu disse que, para mim, seria uma gripezinha”. Jair Bolsonaro, presidente.

Claro, listar todos os erros e desmandos do governo neste período de pandemia não seria trabalho para um artigo ou mesmo um livro, talvez uma enciclopédia, mas seja sabotando medidas contra o vírus, jogando a população contra governadores, reprovando vacinas e promovendo medicamentos que estão até provocando mais mortes, Bolsonaro e seu governo erraram e muito.

Leia mais: Bolsonarismo, uma seita que mata brasileiros todos os dias

A não ser que, como os integrantes do entorno presidencial e seus apoiadores dão a entender, a mortandade faz parte do plano.

Ramos na baixa

O ministro Luiz Eduardo Ramos, da Casa Civil, afirmou ontem durante uma reunião do Conselho de Saúde Suplementar, que tomou “escondido” a vacina contra a Covid-19 e que tenta convencer o presidente Jair Bolsonaro a se vacinar também. Os ministros não sabiam que a reunião do conselho estava sendo gravada e transmitida por redes sociais.

“Tomei escondido porque a orientação era para todo mundo ir para casa, mas vazou. Mas tomei mesmo, não tenho vergonha não. Eu tomei e vou ser sincero porque eu, como qualquer ser humano, eu quero viver. Eu tenho dois netos maravilhosos, eu tenho uma mulher linda, eu tenho sonhos ainda. Então, eu quero viver, pô. E se a ciência, a medicina, fala que é a vacina — né Guedes? —, quem sou eu para me contrapor?”. Luiz Eduardo Ramos, ministro da Casa Civil.

Ou seja: enquanto líderes mundiais com mais de dois neurônios incentivam a vacinação, o presidente Jair Bolsonaro segue jogando contra. A ponto de fazer com que seu entorno precise se vacinar escondido, pois pegaria mal, iria de encontro com a retórica presidencial, que durante meses promoveu a imunidade de rebanho natural e promoveu um covidário com variantes mortais.

“Eu já me vacinei, o Guedes também. E tenho tentado convencer o presidente de que essa cepa — eu tive Covid em outubro do ano passado — ela é uma variante muito violenta que está ceifando vidas e próximas da gente. Na outra leva, isso não acontecia. Eu tenho um coronel que trabalha comigo na reserva, coronel, um homem de 38 anos, saudável, fazia maratona, tudo. Pegou Covid e em dez dias morreu”. Luiz Eduardo Ramos.

Enquanto isso, há manifestantes que engolem sem cuspir o que o presidente fala, a ponto de fazer protestos brincando com caixões e afirmando não precisar de vacina, pois já tem cloroquina.

Vale lembrar: Ramos é o chefe do ministério responsável pelos 23 questionamentos feitos aos demais ministérios, que praticamente colocam um alvo na cabeça do governo federal.

Guedes quer salvar a previdência a qualquer custo

No mesmo dia, na mesma reunião, Guedes fez não só uma entregada, como falou uma besteira maior ainda: além de conspirar novamente mentindo que chineses criaram o vírus em laboratório, o ministro da Economia disse que “as pessoas estão vivendo tempo demais”.

“Todo mundo quer viver 100 anos, 120, 130. Não há capacidade de investimento para que o Estado consiga acompanhar”. Paulo Guedes, ministro da Economia.

Os ministros não sabiam que a reunião do conselho estava sendo gravada e transmitida por redes sociais. Quando foi informado, Guedes disse: “Não mandem para o ar”. Após a reunião, o Ministério da Saúde retirou o vídeo da página da rede social da pasta.

De acordo com o ministro, o Estado “quebrou” e o setor público não terá capacidade de atender à demanda crescente por atendimento da população. Felizmente, há uma pandemia para matar todos os velhinhos que não poderão se aproveitar da Previdência Social, não é mesmo?

Em um dos seus primeiros pronunciamentos sobre o coronavírus, o presidente disse que a pandemia afetaria apenas os mais velhos. Mais especificamente, aqueles sem histórico de atleta (diferente do dele). Para um bom entender, meia palavra basta. Rodrigo Constantino, propagador do Bolsonarismo, até mandou isso na época:

Ainda bem para Guedes que desde 1940, a expectativa de vida do brasileiro, que só vinha aumentando, ano após ano diminuiu. A covid roubou dois anos dos brasileiros, derrubando a esperança de vida de 77 para 75 anos. Reforçando, melhor para Guedes, que poderá ter mais dinheiro da previdência. Guedes tem 71 anos.

Não se vacine, Bolsonaro

Liderando este ministro e apoiado por uma questionável parcela da população, está o presidente Jair Bolsonaro, que segue tentando militarizar a situação e enfiar cloroquina na goela, ou mesmo vias aéreas, da população. E, aparentemente, sem ter se vacinado ainda.

“Estou envolvido pessoalmente, tentando convencer o nosso presidente, independente de todos os posicionamentos. E nós não podemos perder o presidente para um vírus desse. A vida dele no momento corre risco. Ele tem 65 anos”. Luiz Eduardo Ramos.

Com todo respeito ao general Gemos, como todo líder de uma seita que se preze, Bolsonaro deveria ser insano o suficiente para acreditar no que fala. Afinal, biblicamente, ele afirma que a verdade o libertará. Sendo este o caso, fica a dica para o presidente: nunca se vacine.

Jair Bolsonaro precisa acreditar em seu discurso. Ele afirma que já fez o melhor ao seu sistema imunológico ao ser infectado com o novo coronavírus. Portanto, não precisaria ser vacinado, como perguntaria um imbecil. Afinal, só “idiota” pediria pra comprar mais vacina, “só se for na casa da mãe”.

Mas ele diz para seu gado, para seus seguidores, que a vacina não é necessária. Ainda mais a “vachina”, usada em 80% dos casos no Brasil. Então ele precisa ouvir mais seus próprios conselhos. Fazer parte do povo, abraçar de vez o bolsonarismo.

Bolsonaro precisa seguir com o povo. Mas nos hospitais, onde também precisam de sua presença. E que vá sem máscara, pois é “coisa de viado“. Tem que abraçar e dar beijo hétero em médico que receita tratamento precoce. Fazer nebulização de hidroxicloroquina. Abusar de ivermectina. Enfiar ozônio no rabo. Encarar o vírus como homem, e não maricas.

Basta que ele acredite nos seus ideais e ignore todos os sinais. Afinal, é só uma gripezinha. Ele precisa ser um patriota. Dar o valor à sua vida o mesmo que a nossa vem valendo aos seus seguidores: nada.

Sugerir isso não é errado, pois ele fala com tanta convicção, parece estar tão certo disso (convenhamos, é literalmente o que ele vem sugerindo há mais de um ano) que não há outra alternativa que não o líder dos bolsonaristas encarar de perto e seu medo o vírus.

Tão certo quanto saber que se tem alguém para culpar nessa tragédia nacional, é Jair Bolsonaro, presidente da República, que infelizmente tem tirado a vida de muitos brasileiros.