24 de janeiro de 2022Informação, independência e credibilidade
Artigo

Bolsonaro vem aplicando pedaladas dignas de um regime fechado e ditatorial

Além de tentar ocultar os números da pandemia, governo vem sufocando dados de desemprego do IBGE, queimadas do Inpe, gastos do cartão corporativo e ações da PF

O presidente Jair Bolsonaro cresceu de popularidade e venceu as eleições de 2018 muito em cima do discurso de de anti-petismo e contra o clamor de uma ditadura da esquerda.

Ele acreditava que o PT, que ficou 8 anos no poder com Lula e quase 6 anos com Dilma, estava planejando transformar o Brasil em uma Venezuela. Que a maquiagem de contas públicas, as pedaladas fiscais, eram um indicativo disso.

E acaba sendo curioso que após quase 14 anos de governo, os petistas da “extrema esquerda” não conseguiram instalar uma ditadura, mas em menos de dois anos, os bolsonaristas da direita (há quem diga ser extrema) já estão se aproximando disso. E não foi por falta de aviso:

“Ele não é anti-comunista e eu também não sou. Na verdade, não tem nada mais próximo do comunismo do que é o meio militar. Nem sei quem é comunista hoje em dia”. Jair Bolsonaro, sobre Hugo Chavez, em 1999.

Essa observação não é uma defesa do regime venezuelano, dos anos de governos petistas ou de outros exemplos mais extremos, como Recep Tayyip Erdoğan na Turquia ou Kim Jong Un na Coreia do Norte.

É que há realmente algo em comum entre os governos que são, hoje, altamente criticados por Bolsonaro, assim como aqueles mais extremos no combate à pandemia: surpreendendo apenas os desavisados, Bolsonaro vem fazendo de seu governo exatamente aquilo que mais falava contra, uma grande ditadura.

Nesta semana, para “acabar com as notícias do Jornal Nacional”, de forma preocupante o governo resolveu divulgar o boletim com o balanço diário da Covid-19 apenas às 22h, e não mais cedo como fazia normalmente. E após a repercussão com o Plantão da Globo, sua picuinha com o jornalismo “funerário” foi ao extremo e ele resolveu sufocar os números.

Não sendo suficiente enterrar centenas de mortos por dia, Jair Bolsonaro resolveu esconder os números da pandemia. Um dos únicos países do mundo a fazer isso, aliás. Poucos dias depois do país ser criticado por Donald Trump: o presidente dos EUA nos citou, além da Suécia, sobre como não agir numa pandemia.

Claro, oportunista, Bolsonaro culpa os governadores. Mas a história sabe: ele chamou de gripezinha, disse que não era pra ter medinho, que havia histeria, a economia seria mais importante e que se desse problemas, a culpa seria jogada no colo dele.

E como o pior dos exemplos (afinal, ele é o presidente e o cargo mais alto da República é uma referência), Bolsonaro agiu de forma irresponsável durante toda a pandemia. Promoveu um remédio até mais perigoso, antagonizou a OMS e a China (em um momento inoportuno, pois precisamos de aparelhos) e sem máscara apertou com a mão remelenta idosos durante seus passeios políticos.

Felizmente, para uma pessoa sensata não cola mais: Bolsonaro e seus aliados já passaram do ponto de passar a mão na cabeça. Infelizmente, mesmo em um momento de distanciamento social, há quem ainda queira tocar e passar adiante as pregações do presidente.

Não importa quantos, mas ainda há quem defenda fechamento do STF e Congresso, retorno da ditadura militar ou luta contra ascensão do fascismo.

Passadas de pano

Quem (ainda) está apoiando Bolsonaro, está fechando os olhos para o óbvio e caindo cada vez mais em contos conspiratórios. Ouvindo apenas aqueles que acham que, uma pandemia que afetou todo o mundo, é uma conspiração para atacar um presidente irrelevante de um país que, hoje, é inútil e praticamente sem importância para o resto do planeta (que, é importante ressaltar, não é plano).

E as maiores vozes destas loucuras são os bolsonaristas, que receberam pregações do gospel de Olavo de Carvalho, o filósofo-astrólogo que é guia espiritual do presidente. Um senhor que mora nos EUA e recebe dinheiro dos apoiadores e neste domingo mandou o presidente tomar no cu e exigiu ajuda financeira, ou então iria derrubar seu governo. O presidente ficou de quatro e vai angariar os fundos.

Passada de pano essa que não é exclusiva. Até hoje há quem relativize os números da pandemia. Que é apenas uma invenção de governadores, que querem derrubar o presidente. E por isso a ocultação dos dados foi tomada como algo “normal”.

Esconder os números de uma pandemia, brincar com o número dos mortos, é uma coisa muito séria. Mas foi apenas uma escalada normal dos eventos:

Estes são apenas alguns dos exemplos do que seria ou está sendo ocultado no governo Bolsonaro. Em uma tentativa de maquiar dados de números sociais, climáticos, financeiros ou criminosos, o Brasil já se encaminha para se tornar aquilo o que ele mais pregava contra: uma ditadura.

E seja ela uma ditadura de esquerda ou de direita, é até burrice tentar relativizar uma da outra. Enquanto milhões são tirados do Bolsa Família para serem direcionados ao Secom, vários cargos são dados ao Centrão para conquistar força política e há um antagonismo com quem protesta contra o governo, não tem outra: ninguém poderá ficar surpreso se/quando o pior pode acontecer.