8 de março de 2021Informação, independência e credibilidade
Brasil

Brasil ignorou em junho cúpula em que a China ofereceu US$ 1 bi em crédito para vacina

Bolsonaro “descobriu nessa semana” que Ernesto Araújo encerrou diálogos com a embaixada chinesa desde o ano passado

Em julho do ano passado, um encontro entre chanceleres latino-americanos e a China discutiu o acesso das Américas às vacinas chinesas e o anúncio de uma linha de crédito de US$ 1 bilhão para permitir que os governos da América Latina tivesse acesso aos produtos.

O Brasil não foi.

O encontro teve organização do governo mexicano, que confirmou que entregou um convite ao Itamaraty, mas a chancelaria brasileira nem mesmo quis explicar o motivo pelo qual não participaria do encontro.

A a ausência do Brasil, claro, causou indignação no meio científico. No Instituto Butantan, onde é produzida a Coronavac, a opção do país foi alvo de críticas internas. Já entre diplomatas em Pequim, ficou claro o sinal de que o governo federal não estava interessado em negociar um maior acesso a vacinas ou insumos.

Não foi o que disse o presidente Jair Bolsonaro, ao lado do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, em sua live semanal desta quinta-feira:

“O pessoal fala ‘ah, o Brasil precisa da China’ A China também precisa da gente. Ou tu acha que a China está comprando soja para jogar fora”? Jair Bolsonaro, comparando a importância da soja e insumos para vacina.

Ernesto Araújo, ao lado de seu presidente, também negou haver qualquer crise com a China, mas admitiu que não é ele o interlocutor do Brasil com o país asiático:

“Tem gente que quer ver uma crise, quer criar invenções onde não existe. Nosso embaixador em Pequim, na verdade, tem conversado porque é lá que precisa operar para conseguir os insumos da vacina dentro da burocracia chinesa, que é uma coisa normal”. Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores.

Ernesto Araújo e China

Tudo aparência. O presidente Jair Bolsonaro na verdade já pressiona uma mudança na agenda do ministro Ernesto Araújo para com a China. Meses de ofensas ao gigante asiático sem nenhum poder de barganha, que não a aliança com Donald Trump, custaram ao Brasil insumos para a vacina contra a Covid-19.

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Ernesto tenta agora retomar o diálogo com o país asiático, especialmente depois de Bolsonaro “descobrir nessa semana” que o chanceler encerrou conversas com a embaixada da China desde o ano passado.

O filho do presidente comparou a pandemia ao acidente nuclear de Chernobil, na Ucrânia, em 1986. Amigo de Eduardo, Ernesto endossou o filho do presidente e considerou grave o comportamento do embaixador chinês – que prometeu represálias.

Na época, a avaliação no governo Bolsonaro era a que Wanming deveria seguir o protocolo e procurar o Itamaraty em vez de responder de forma agressiva. Agora, o jogo mudou.

Vale lembrar: O ministro das Relações Exteriores afirmou no ano passado que coronavírus é um plano comunista. Em artigo com o título ‘Chegou o comunavírus’, Ernesto disse que ‘O coronavírus faz despertar novamente para o pesadelo comunista’.

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