26 de junho de 2022Informação, independência e credibilidade
Política

Ciro favorece Bolsonaro ao focar ataques em Lula durante campanha

Fala do pré-candidato do PDT em debate com Duvivier vira alvo da esquerda e munição para bolsonarista

Terceiro colocado nas pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais desse ano, o pré-candidato Ciro Gomes (PDT) é alvo de críticas de parte da esquerda por dizer durante um debate com o comediante Gregorio Duvivier que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não foi inocentado em processos contra ele.

Além disso, sua fala, em live na sexta (20) serviu de munição a políticos bolsonaristas para atacar Lula. Ou seja: os votos que o cearense tenta tirar do petista não agregam em sua campanha e fortalecem o atual presidente Jair Bolsonaro (PL).

Ciro propôs o debate com o comediante após o humorista, durante seu programa na HBO, Greg News, sugerir que apoiadores de Ciro deveriam migrar para Lula para derrotar o presidente Jair Bolsonaro (PL) no primeiro turno.

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Lula inocentado

O trecho que causou maior repercussão foi quando Ciro se referiu a Lula, sem citar seu nome, como um “ignorante corrupto”. e Duvivier não concordou.

“Eu acho errado chamar o Lula de corrupto exatamente porque ele foi inocentado”, disse o humorista, que recebeu de Ciro a seguinte resposta:

“Ele não foi inocentado, é mentira do PT. Lula teve os processos anulados. Ele volta à presunção de inocência, mas ele não foi inocentado”.

Lula passou 580 dias preso após ser condenado no caso do tríplex do Guarujá, no litoral de São Paulo. No ano passado, o ministro Edson Fachin, do STF (Supremo Tribunal Federal), anulou as condenações do ex-presidente Lula na Lava Jato.

O Supremo ainda entendeu, por 7 votos a 4, que o ex-juiz Sergio Moro (União Brasil) foi parcial ao julgar o ex-presidente no processo do tríplex. Com isso, as provas colhidas no caso foram consideradas inválidas, e o caso acabou arquivado. Em março, o ministro Ricardo Lewandowski, do STF, suspendeu a última ação penal que tramitava contra Lula.

Esquerda

O ex-deputado federal Jean Wyllys, que deve concorrer de novo ao cargo pelo PT, escreveu em rede social que Ciro é linha auxiliar do fascismo.

O presidente do PSOL, Juliano Medeiros, elogiou Duvivier e fez crítica indireta a Ciro. “[Gregorio] Teve coragem de se expor num terreno que não é o seu, com todo o desgaste que isso pode trazer. Saiu gigante desse episódio, enquanto outros saíram minúsculos”, escreveu.

“Depois de sexta, os ex-seguidores de Ciro devem na paz da compreensão migrar para um voto democrático e justo em Lula”, escreveu Kleber Mendonça Filho, diretor de Bacurau.

Petra Costa, diretora do documentário Democracia em Vertigem, afirmou que Ciro precisa aprender a ouvir, elogiou a paciência do humorista e disse que o Brasil precisa de pedetista mais sábio —ele foi bastante criticado nas redes por interromper Gregorio dezenas de vezes.

O próprio ex-presidente Lula, sem mencionar Ciro, reagiu à onda de comentários sobre a questão da inocência. Ele postou um vídeo de seu advogado, Cristiano Zanin Martins, no qual fala sobre o assunto.

Bolsonaristas

Apesar da rivalidade com Ciro e dos ataques que ele faz ao presidente Jair Bolsonaro (PL), bolsonaristas usaram o assunto para atacar Lula.

“O Gregorio: ‘acho errado chamar o Lula de corrupto já que ele foi inocentado’. Aí vem o Ciro e joga a verdade na cara: ele não foi inocentado, é mentira do PT”, afirmou a deputada federal Bia Kic​is (PL).

Outro bolsonarista, o deputado federal Carlos Jordy, também pegou carona no assunto. “Se tem uma coisa boa no Ciro, é quando ele fala toda verdade sobre seu velho amigo, Lula. O petista não foi inocentado, ele foi descondenado e seus crimes permanecem!”, escreveu.

O presidente Bolsonaro também repercutiu a live, mas para ironizá-la. Ele postou uma foto em que aparece assistindo ao debate, no que parece ser uma montagem com base em uma imagem antiga, na qual o presidente aparecia assistindo discurso de Donald Trump.

Após o debate, a média de menções a Ciro na rede passou de 25 mil para 90 mil. No entanto, o tema provocou uma mudança no sentimento digital das pessoas sobre ele. No começo da semana, o percentual de menções positivas foi de 28%, após o debate, ele chegou a 19%, segundo Felipe Nunes, diretor da Quaest Pesquisa.