1 de março de 2021Informação, independência e credibilidade
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Covid-19: Quem é Thomázia Brêda na fila da vacinação?

Nas redes sociais ela demonstra vínculo com a Secretaria Especial de Saúde Indígena. Mas isso lhe dá o direito prioritário à vacina?

Alardeada e comemorada nas redes sociais, a imunização da socialite Thomázia Brêda na primeira fila de vacinação contra a Covid-19 chamou a atenção de várias pessoas, inclusive a nossa, constituindo mais um caso a ser explicado para a sociedade – senão pela própria, que o façam os órgãos de fiscalização e controle – sob pena de recair sobre ela a suspeita de ter furado a fila, que no momento trabalha com prioridades restritíssimas.

Não a conheço, e desde ontem, quando me passaram um print da foto com a mensagem comemorativa, tento descobrir quem é Thomázia na fila da vacinação. Não consegui muita coisa. É tão difícil quando descobrir quem é ela na fila do pão.

Não tem cara de octogenária; não parece viver numa comunidade indígena nem quilombola; nem vi nada que fizesse referência à sua atuação na linha de frente de atendimento a pacientes com Covid-19, que são os critérios do momento.

Mas Thomázia se vacinou. E foi a própria privilegiada quem publicou a ‘grande notícia’ da sua imunização, nas redes sociais. No seu perfil, no Instagram, uma foto do ato da vacinação, seguida de outras, onde ela segura uma placa indicativa “Dsei – AL SE – Eu me vacinei”, e até faz festinha em grupo com o cartão de vacinação. Ao lado, uma legenda complementar: “Momento de muita emoção que ficará eternizado na minha memória. Só gratidão a Deus!” e no reforço, as hashtags #SaúdeIndígena, #Sesai, #DseiAlSe e #Capai.

A euforia despertou mensagens igualmente efusivas de congratulações das amiguinhas; e também de dúvidas: “Amiga, você trabalha com indígena?”, perguntou uma delas. “Trabalho há 2 anos”, respondeu a felizarda.

A dica está no seu próprio perfil – na foto com uma a placa “Dsei – AL/SE” e numa referência à Secretaria Especial de Saúde Indígena (área do Ministério da Saúde que coordena a política nacional de atenção à saúde dos povos indígenas), à qual são vinculados os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) – identificados como unidades de responsabilidade sanitária federal correspondentes a uma ou mais terras indígenas. O que ela traz no peito (na fotografia) é o Dsei – AL/SE.

Mas, e daí? Será que isso lhe dá o direito de entrar na primeira fila de vacinação? Ou minha leitura sobre prioridade está errada?

Com a palavra o #Ministério Público, o Conselho Indígena de Saúde (#Condisi)  ou, quem sabe, a própria Thomázia (e aqui fica aberto o espaço para isso).

Afinal, se não explicar direitinho esse feito extraordinário, a lembrança que corre o risco de ficar eternizada na sua memória não é o fato histórico da imunização contra a Convid, mas o de ter que arcar com as  consequências previstas para aqueles que hoje se vangloriam do “privilégio” de ter furado a fila da vacinação.

Espero não ser esse o seu caso, mas, se há dúvida, que haja explicação.