14 de maio de 2021Informação, independência e credibilidade
Maceió

Crime da Braskem: das memórias afetivas ao ‘cheiro do sangue’ registrado nas paredes

Ex-moradores se manifestam silenciosamente contra a injustiça e o descaso

 

As lembranças tristes do Pinheiro que jamais se apagarão.

Sabe bem da dor e da tristeza profunda quem viveu lá. No Pinheiro, no Bom Parto, no Mutange e em Bebedouro. Eles sabem e exprimem suas indignações e mágoas com o monstruoso crime praticado pela Braskem nesses bairros.

Nessas áreas, no cenário desolador que apresentam há de tudo. Menos vida. E tudo registrado nas paredes das casas e de prédios em ruínas.

Lá estão as lembranças, memórias de décadas vividas pelas famílias, saudades e a raiva incontida com o descaso.

Na parede a seguir, a foto diz bem do sentimento melancólico: Não era para ser assim

Crime da Braskem: Não era pra ser essa tristeza sem fim

Na era. Mas foi assim. O crime da Braskem mineradora aconteceu, está impune e as autoridades parecem não se dar conta do vazio que ficou nas vidas de milhares de pessoas, de famílias que, mais que o patrimônio, perderam a alegria de viver.

E não apenas as autoridades estão distante. A elite alagoana faz que não ver a agonia dessa população, vítima do capital, da ganância, da especulação financeira, da barbárie do mercado, que gerou a destruição de quatro bairros históricos e de seus habitantes.

Essa elite é conivente. Com as lágrimas derramadas e com a destruição dos sonhos de cada família, interrompidos de forma criminosa.

Crime da Braskem: sonhos de décadas destruídos

O silêncio das autoridades e da sociedade em geral dói na alma de cada ex-morador do Pinheiro, do Bom Parto, Mutange e Bebedouro. O silêncio é roteiro da acomodação e de acordos espúrios, nesse enredo da maior tragédia humanitária já vista no Estado de Alagoas.

É contra o crime da Braskem e o silêncio da sociedade que a população deixa registrada o seu grito por justiça. De fato e direito.

Embora, a maioria também o sabe e comunga com o pensamento do escritor uruguaio, Eduardo Galeano, quando disse que “a justiça é como a serpente: só morde os pés descalços”.

Crime da Braskem: a impunidade é de uma crueldade sem limites…

O sentimento está exposto em cada parede, em cada porta e janelas derrubadas; em cada rua vazia, em cada prédio abandonado nesses bairros já transformados em regiões condenadas, cemitérios de sonhos, projetos, e da vida feliz que um dia habitou por lá.

As marcas estão em toda parte. Aquele cheiro do pão quentinho da padaria da esquina faz tempo que não existe mais. A fumaça do galeto assado no bar da Maria, aos domingos, também se evaporou. O cheiro de hoje é outro.

E esse cheiro está devidamente registrado pelo morador que foi expulso da casa que construiu com sacrifícios.

Crime da Braskem: morador registra o cheiro que ficou…

Enfim, o crime é real, é perverso e há culpados. Mas, enquanto o silêncio perdurar, a justiça para as vítimas vai ser sempre um faz de conta que paguei.

Não importam as lágrimas, a tristeza sem fim, a dor da alma de quem foi obrigado a deixar tudo para trás e – mais obrigado ainda – a se jogar todo em um recomeçar de novo, bem longe de casa.

De fato, essa é uma conta que nem o dinheiro cheiroso da Braskem vai pagar

 

O cenário de horror aliado ao descaso e a impunidade é vergonhoso