29 de novembro de 2021Informação, independência e credibilidade
Maceió

Defesa Civil confirma abalo sísmico a 200 metros de profundidade no Mutange

Magnitude na escala Richter foi de apenas 1,41, mas a região vive um momento crítico

No final da manhã desta sexta-feira (5), moradores do Pinheiro, um dos bairros de Maceió mais atingidos pela extração de sal-gema pela Braskem, sentiram um novo tremor de terra. E a Defesa Civil Municipal confirmou o abalo sísmico que durou 12 segundos, a uma profundidade de 200 metros, na região próxima do Mutange.

Quem mais sentiu o abalo estava em prédios na região, que por serem mais altos são mais suscetíveis à oscilação. Apesar da profundidade, alguns moradores relataram que seus móveis pareciam balançar. No máximo, pareciam estar com uma crise de labirintite.

A magnitude na escala Richter foi de apenas 1,41, mas a região vive um momento crítico, já que desde 2018, cerca de 55 mil pessoas já foram obrigadas a deixar suas residências e seus negócios nos bairros do Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e Farol.

A região precisou ser interditada e desde então casas e prédios já foram demolidos, pois estão localizados em áreas consideradas de risco e que entraram no programa de compensação financeira da Braskem, empresa responsável pela mineração há décadas na região.

Mapa das áreas de desocupação e monitoramento

Curiosamente, ontem mesmo foi realizado um treinamento de evacuação no bairro do Pinheiro, um dos vários preparativos de uma eventual tragédia. E nesta semana, o deputado federal Paulão falou sobre a situação em Brasília:

Leia mais: Simulado da Operação AL 2 evacua prédio no bairro Pinheiro
Paulão denuncia Braskem na Câmara e pede a Defensoria da União para apoiar às vítimas

De acordo com a Defesa Civil, o abalo de hoje ocorreu num local, próximo ao prédio histórico do Hospital José Lopes, onde a Braskem está fechando um de seus poços.

O bairro já foi quase todo desocupado, mas o residencial Morada das Árvores, com 11 blocos e 10 apartamentos em cada um, está localizado em uma área em que não há indicação para realocação.

A Braskem já foi contatada para reforçar o monitoramento do local. Equipes de brigadistas do órgão realizam rondas na região próxima ao local do tremor.

Tragédia geológica

Apesar de já ser considerado um dos maiores desastres geológicos de que se tem notícia e debatido no senado, o assunto não ganha repercussão nacional.

Em Alagoas, o relatório da Serviço Geológico do Brasil (CPRM), divulgado dia 8 de maio de 2019, responsabilizou a Braskem diretamente pelas rachaduras e afundamento em três bairros de Maceió: Pinheiro, Bebedouro, Bom Parto e Mutange. Há uma falha geológica e que a empresa deveria ter realizado testes antes de fazer perfuração e mineração.

A Braskem divulgou no relatório dos seus resultados financeiros do quarto trimestre de 2019, que destacou as operações da companhia em Alagoas, um prejuízo líquido de R$ 2,92 bilhões. Isso levou a petroquímica a fechar o ano com R$ 2,8 bilhões no vermelho. Pouco tempo depois, a Holandesa LyondelBasell encerrou negociações e não comprou a Braskem exatamente por esta situação.

Leia mais: MPF quer mais de R$ 20 bi da Braskem pelos danos da extração de sal-gema

Com a ampliação das áreas de risco e mudanças estruturais constantes nos bairros afetados inicialmente, ruas e avenidas de grande movimento devem sofrer mudanças no trânsito, assim como as rotas do VLT, que liga a parte alta da capital ao centro da cidade, cortando os bairros cujo o solo não é estável.

E o afundamento do solo em bairros de Maceió, que veio com interdições em prédios, que chegaram a ser demolidos, e a adoção de aluguel social para todos os moradores realocados, foi considerado a piora financeira junto com a desvalorização do dólar:

Dois fatores contribuíram para isso: o impacto negativo da depreciação do real frente ao dólar sobre a exposição líquida da empresa não designada para hedge accounting; e, acima disso, a provisão contábil de R$ 3,38 bilhões referente à implementação dos programas de compensação financeira, apoio à realocação e promoção de atividades educacionais e ao fechamento de poços de sal em Maceió (AL)”. Relatório Ebtida da Braskem

A Braskem exerce atividade de mineração em Alagoas desde 1975, quando a empresa ainda era conhecida como Salgema. Alagoas é hoje o maior produtor de PVC da América Latina, suprindo a matéria-prima para setores fundamentais para o desenvolvimento econômico e social do País, que são os setores de Habitação, Saneamento e Infraestrutura.

A fábrica em Marechal Deodoro tem capacidade de produzir 200 mil toneladas de PVC por ano. A Braskem emprega cerca de 6 mil funcionários. Ela é hoje a sexta maior companhia do mundo no setor petroquímico. Além do Brasil, tem plantas nos Estados Unidos, no México e na Alemanha, sendo controlada pela Odebrecht e já foi citada em pelo menos cinco dos inquérito da Lava-Jato.

Histórico

O então prefeito de Maceió, Rui Palmeira, decretou em março des 2019 Estado de Calamidade Pública nos bairros Pinheiro, Mutange e Bebedouro (Bom Parto foi incluído meses depois) em decorrência do agravamento das fissuras em imóveis e vias públicas nestas regiões.

O ex-subsecretário municipal de Defesa Civil, Dinário Lemos, que chorou durante a audiência diante da recomendação de evacuação, mesmo antes do laudo final (que saiu em abril), informou que em Brasília a prefeitura encaminhou no Governo Federal, ainda em 2019, o pedido de recursos para construir um novo bairro.

Este novo local precisa abrigar as mais de 10 mil famílias que hoje moram no Pinheiro, Mutange, Bebedouro e Bom Parto. Uma força tarefa já faz o atendimento e cadastramento de moradores, que precisam desocupar suas casas, preferencialmente para o novo bairro.

Neste meio tempo, a demanda por novas casas e apartamentos fez os preços de aluguel em Maceió explodirem. Com mais gente procurando um número reduzido de imóveis, afinal quatro bairros (até então) estão sendo evacuados, mais o auxílio de aluguel social, está cada vez mais difícil encontrar um preço acessível de casas ou apartamentos na capital alagoana.

Enquanto isso, em algumas comunidades mais pobres, há pessoas que não têm documentação dos imóveis e também não podem continuar naquela área, complicando mais o cenário de realocamento. São escolas, hospitais, comércio, praças. Tudo que precisa começar do zero.