25 de janeiro de 2022Informação, independência e credibilidade
Política

Amazônia: G7 promete “medidas concretas” e Europa ameaça acordo com Mercosul

Governo francês disse que Jair Bolsonaro teria “mentido” no G20 sobre seus compromissos ambientais

O presidente diminuiu

A ingerência com os dados do Inpe sobre o desmate crescente, descaso do ministério do Meio Ambiente e até mesmo jogar a culpa em ONGs fizeram finalmente com que o Brasil de Jair Bolsonaro chamasse a atenção do mundo.

Biarritz, cidade litorânea na costa basca do sudoeste da França, que sediará um encontro do G7, os sete países mais ricos do mundo, terá “medidas concretas” para lidar com a crise na Amazônia. Fontes diplomáticas, de acordo com o UOL, envolvem um aceno de uma ajuda internacional para combater o fogo, inclusive com recursos financeiros.

A operação foi lançada depois que Emmanuel Macron, presidente da França, apresentou a ideia de trazer o tema ambiental para a cúpula, na quinta-feira – e foi chamado de idiota por Eduardo Bolsonaro, filho 03 do presidente que quer se embaixador.

Angela Merkel, da Alemanha, Boris Johnson, Reino Unido, e mesmo Justine Trudeau, no Canadá, embarcaram na ideia da presidência francesa. Mesmo que fuja do padrão a inclusão de um assunto que está em outro território de um país emergente, como o Brasil, que não está no G7.

O presidente Jair Bolsonaro conversa com o presidente da França Emmanuel Macron, em Osaka, no Japão – Divulgação/Presidência da República

Mas, desta vez, o sentimento da diplomacia francesa é de que, durante a reunião do G-20 no Japão, o governo de Jair Bolsonaro teria “mentido” sobre seus compromissos ambientais. A opção, nos bastidores, foi a de usar essa ocasião para dar um recado ao Brasil: ou o país é sincero sobre como pretende lidar com a comunidade internacional ou será excluído do debate.

Os conselheiros dos governos do G7 esperam concluir o pacote de medidas até o começo da manhã deste sábado. Macron acredita que reúne quatro dos sete governos do G7 para liderar uma iniciativa sobre o Brasil. Entre os diplomatas brasileiros, a esperança está nas mãos do governo de Donald Trump, aliado de Bolsonaro, mas até agora, a Casa Branca não se pronunciou sobre a situação na floresta.

Apoiando ou não, o temor é de que a blindagem feita por Trump acabe custando favores do Brasil, no curto, médio e longo prazo. Por exemplo, nesta sexta-feira, França e Irlanda declararam que poderiam ameaçar o acordo comercial com o Mercosul.

Líderes posam para foto da cúpula do G20 em Osaka, no Japão – Brendan Smialowski/AFP

Outro lado

Macron não escapou de críticas de que estaria usando a Amazônia para justificar barreiras comerciais e agradar seu eleitorado. Na Comissão Europeia, a visão é justamente a oposta ao que seria defendido pela Irlanda e há uma forte pressão para que o acordo que trará amplos ganhos comerciais para o bloco não seja desfeito.

Para Bruxelas, um acordo comercial é o que vai ajudar a manter a pressão sobre Bolsonaro e, assim, o conservar dentro dos tratados como o do Clima. Entre as ONGs, muitas acusam Macron de agir de forma “hipócrita”. Ele quis evitar a presença de ambientalistas em Biarritz e estaria usando o Brasil como escudo diante de críticas domésticas por conta de sua política ambiental pouco ambiciosa.

Mercosul

Aliadas na decisão, França e Irlanda querem bloquear a implantação do pacto da União Europeia com o Mercosul caso o governo brasileiro não atue para combater os incêndios em curso na Amazônia.

“Não há nenhuma chance de votarmos a favor se o Brasil não honrar seus compromissos ambientais”. Leo Varadkar, primeiro-ministro irlandês.

A França foi mais incisiva a respeito do presidente brasileiro:

“Dada a atitude do Brasil nas últimas semanas, o presidente Emmanuel Macron só pode constatar que o presidente Bolsonaro mentiu para ele na cúpula do G20 de Osaka. Nestas circunstâncias, a França se opõe ao acordo do Mercosul”. Nota do governo Francês.

Na Finlândia, o ministro da Economia, Mika Lintila, sugeriu que a União Europeia considerasse urgentemente a possibilidade de banir importações de carne bovina do Brasil. Já o O governo do Reino Unido declarou-se na sexta “profundamente preocupado” com o aumento das queimadas e com o “impacto da perda trágica destes habitats preciosos”, nas palavras de uma porta-voz.

Firmado no fim de junho após 20 anos de negociações, o termo de cooperação comercial entre a União Europeia e o Mercosul prevê eliminar, em um horizonte de 15 anos, mais de 90% das tarifas praticadas hoje nas transações de mercadorias entre os dois blocos.

Além da resistência de produtores agrícola, muito da França e Irlanda, a parceria foi alvo de críticas de ambientalistas, que ressaltavam a fragilização dos organismos de monitoramento e combate ao desmatamento sob o governo Jair Bolsonaro.

Horas após a assinatura do pacto, o presidente francês, Emmanuel Macron, disse que obtivera do Brasil a garantia de que o país não deixaria o Acordo de Paris sobre a mudança climática (2015), que fixa metas para reduzir a emissão de gases causadores do efeito estufa.

No comunicado de quinta-feira, Varadkar declarou-se “muito preocupado” com a disparada das notificações de queimada na Amazônia (84% a mais de janeiro a 21 de agosto do que no mesmo período de 2018).