4 de dezembro de 2021Informação, independência e credibilidade
Política

Ernesto Araújo passa vergonha em Israel e é reflexo da imagem do Brasil no mundo

Ministro das Relações exteriores é um olavista que acredita em teorias de conspiração e tem uma longa lista de erros crassos no governo Bolsonaro

Neste domingo, chegou em Israel a comitiva comandada pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que tinha a missão de buscar o spray testado em 30 pessoas como tratamento contra a Covid-19.

A ideia, defendida pelo presidente Jair Bolsonaro como a de um medicamento “milagroso”, foi tão idiota que logo acabou sendo descartada e de uma hora para outra a viagem acabou sendo apenas para conseguir mais vacinas e algum tipo de cooperação científica.

“Estamos buscando protocolos, acordos, na área de ciência e tecnologia, que será muito proveitoso para o momento que vivemos, o vírus, como um legado para o futuro. Tem uma vacina brasileira em desenvolvimento. O objetivo é levar (…) para fazer esse acordo de cooperação em várias áreas de conhecimento, inclusive de medicamentos e vacinas, que estamos desenvolvendo”. Jair Bolsonaro, presidente.

E a viagem, que começou de maneira torta, se mostrou um desastre diplomático com a comitiva, que inclui o deputado federal Eduardo Bolsonaro, o filho 03 do presidente, sendo obrigados a usar máscara de proteção em Israel.

Avesso a medidas simples como essa, o grupo tirou a foto oficial sem no Brasil e precisou agir como deveria apenas no exterior. Para piorar, Ernesto Araújo foi repreendido ao final de uma coletiva com o chanceler Gabi Ashkenazi, novamente por não estar usando a porcaria da máscara.

A viagem, que terá duração de uma semana, bem que poderia encerrar de uma vez, antes que seja criado algum incidente diplomático irremediável. Da mesma forma, a passagem de Araújo como chanceler brasileiro bem que poderia ser encerrada imediatamente.

Até lá, a missão brasileira a Israel não recebeu autorização para visitar hospital onde realizam pesquisas com o tal do spray nasal e só poderão sair do hotel, onde estão confinados, para se encontrar o primeiro ministro Benjamin Netanyahu. Ou seja: viagem inútil.

Conspirador extremista

Olavo de Carvalho, filósofo-astrólogo-autodidata que abandou a escola na 8ª serie e no passado já foi muçulmano e comunista de carteirinha, tem forte influência no núcleo ideológico do governo Bolsonaro. Mesmo sendo um terraplanista que acredita que a Pepsi usa fetos abortados como adoçante.

E Ernesto Araújo é um de seus discípulos. Confirmado por Bolsonaro para assumir o ministério das Relações Exteriores em 14 de novembro de 2018, durante a transição do governo, foi dito pelo hoje presidente como “brilhante intelectual”.

Claro, o que mais chamava a atenção de Bolsonaro era o fato de Araújo ser um ferrenho anti-petista, além de bajulador. Durante a campanha eleitoral, Araújo manteve um blog cheio de referências ao então candidato Jair Bolsonaro, chamado Metapolítica 17, que tinha textos como esses:

“O PT (que aqui significa não apenas ‘Partido dos Trabalhadores’, mas também Projeto Totalitário ou Programa da Tirania) não pode deixar o ser humano a si mesmo. Como você faz isso? Culpando. Criminalizando tudo o que é bom, espontâneo, natural e puro. Criminalizando a família sob a acusação de violência patriarcal. Criminalizando a propriedade privada. Criminalizando o sexo e a reprodução, dizendo que todo ato heterossexual é estupro e todo bebê é um risco para o planeta porque aumentará as emissões de carbono”. Ernesto Araújo, em Metapolítica 17.

Duas outras coisas atraiam a atenção de Bolsonaro ao escritor. Primeiro, o fato dele ser um “religioso anti-globalista”:

“Tenho 28 anos de serviço público e sou também escritor. Quero ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista. Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. Essencialmente é um sistema anti-humano e anticristão. A fé em Cristo significa, hoje, lutar contra o globalismo, cujo objetivo último é romper a conexão entre Deus e o homem, tornado o homem escravo e Deus irrelevante. O projeto metapolítico significa, essencialmente, abrir-se para a presença de Deus na política e na história”. Ernesto Araújo, em Metapolítica 17.

E, claro, adorar Trump. Não só adorar, idolatrar mesmo. De o achar um Deus:

“Trump propõe uma visão do Ocidente não baseada no capitalismo e na democracia liberal, mas na recuperação do passado simbólico, da história e da cultura das nações ocidentais. (…) Em seu centro, está não uma doutrina econômica e política, mas o anseio por Deus, o Deus que age na história. Não se trata tampouco de uma proposta de expansionismo ocidental, mas de um pan-nacionalismo. O Brasil necessita refletir e definir se faz parte desse Ocidente”. Ernesto Araújo, em Metapolítica 17.

Rejeição na Europa

Pouco dias após a indicação de Araújo, autoridades da União Europeia já se mostraram preocupadas com a postura do futuro chanceler brasileiro. Seus textos acadêmicos, que passaram a circular pela comunidade diplomática, previam uma problemática relação do novo governo brasileiro em relação aos europeus.

O novo ministro dizia em um dos textos que a Europa significa hoje “apenas um conceito burocrático e um espaço culturalmente vazio regido por ‘valores’ abstratos”, chamando a atenção principalmente diante das críticas em relação à construção da UE. Nele, o futuro chanceler aponta que “a fundação da União Europeia anulou, pasteurizou todo o passado”.

“Os europeus de hoje podem até estudar sua história, mas não a vivem como um destino, muito menos a celebram, nem a entendem como ‘sua’, não veem nela um sentido nem um chamado”. Ernesto Araújo, sobre a Europa.

Suas críticas foram publicadas nos Cadernos de Política Exterior, do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI), no ano passado. No texto, o futuro ministro indicado pelo presidente eleito Jair Bolsonaro sai em defesa das políticas de Donald Trump e seu papel em “salvar” o Ocidente. No Parlamento Europeu, a notícia sobre o novo ministro também foi recebida com “cautela”.

Fã de Trump

A questão de Araújo é que além do ódio pela Europa e pela esquerda, ele possuía um interesse maior que o próprio Brasil: uma patológica aproximação ao então presidente americano, Donald Trump.

Desde sua indicação, escolha do novo chanceler foi recebida como uma confirmação de que o governo brasileiro buscará uma aliança estratégica com os Estados Unidos.

Alinhado com o republicano laranja, que viria a provocar uma insurgência ao fim de seu mandado e não ser reeleito nos EUA, Araújo e Bolsonaro votaram com Trump contra o Pacto Global para Migração Segura, Ordenada e Regular.

Bolsonaro disse que “o Brasil é soberano para decidir se aceita ou não migrantes” e “quem porventura vier para cá deverá estar sujeito às nossas leis, regras e costumes, bem como deverá cantar nosso hino”. Araújo seguiu com o mesmo discurso retrógrado.

O Brasil, claro, saiu prejudicado no acordo, aprovado por 150 países em conferência da ONU em dezembro de 2018. Isso porque, por volume ou não, os brasileiros estão entre as 10 nacionalidades mais impedidas de entrar em países europeus.

No 1º semestre de 2018, 2.225 tiveram entrada negada. Segundo a Polícia Federal, em 2018, 252 mil brasileiros saíram do país enquanto outras 94 mil pessoas escolheram o Brasil para morar. Para cada migrante internacional no país, há dois brasileiros no exterior.

E esta seria apenas uma das medidas que o Brasil de Bolsonaro, com Ernesto Araújo como chanceler, viria a seguir cegamente com os EUA de Trump, com uma série de decisões completamente subservientes:

  • Sair da OMC pra tentar entrar na OCDE – O Brasil deixou seu status na Organização Mundial do Comércio para a indicação de Trump por uma vaga na Organização para Cooperação e Desenvolvimento e Econômico, o Clube dos Países Ricos. No lugar do Brasil, EUA indicou a Argentina;
  • Base Militar de Alcântara para os Americanos – Fez parte da barganha pela OCDE. Bolsonaro promulgou decreto do acordo entre Brasil e Estados Unidos para o uso da base de Alcântara, no Maranhão, um acordo que prevê que apenas as empresas que adotem tecnologia americana possam lançar seus satélites e foguetes no Brasil;
  • Isenção de visto para turistas americanos, não para brasileiros – Turistas americanos que visitam o Brasil agora não precisam mais de visto. Claro, a recíproca não é verdadeira e brasileiros que queiram visitar os EUA, apesar da alta do dólar e das restrições por causa do coronavírus, não terão a mesma facilidade;
  • Briga com China fez Brasil comprar soja americana mais cara – Apenas em outubro de 2020, o Brasil importou 71 mil toneladas americanas, contra 1,3 mil no mesmo período do ano anterior. Nos primeiros dez meses de 2020, já foram 600 mil toneladas, 379% a mais que em 2019. E mais caro: a cotação do grão ultrapassou US$ 1 mil, contra  os US$ 850 da China;
  • Aliança mundial antiaborto – EUA e Brasil estavam entre os 32 países, como Arábia Saudita, Iraque, Indonésia, Egito, Congo, Paquistão e Zâmbia, que assinaram na ONU uma aliança internacional contra o aborto. Novo presidente dos EUA, Joe Biden já tirou seu país desta barca ação atrasada e tortamente religiosa.
O presidente Jair Bolsonaro, ao lado de ministros como Ernesto Araújo e do filho Eduardo Bolsonaro, em almoço comemorando a independência dos Estados Unidos

Sem defesa da Amazônia

Tentando justificar o desmatamento acelerado na Amazônia, Ernesto Araújo teve a audácia de corrigir a Nasa e explicar que satélites da Agência Espacial Americana não estava vendo incêndios, mas na verdade “fogueiras”.

O chanceler encerrou seu discurso sobre a relação entre Brasil e EUA com a mensagem de que os incêndios que atingem a Amazônia, com repercussão internacional, não são de grande proporção nem fruto de uma política ambiental negligente do governo Jair Bolsonaro.

Segundo relatos de participantes do encontro, Araújo disse que as queimadas tinham maior alcance em outros anos, mas que a imprensa estrangeira não queria criticar o governo da época, em referência às gestões do PT.

O Brasil, claro, perdeu todas as verbas internacionais que recebiam para a preservação da Amazônia e conseguiu papel de antagonista internacional, principalmente contra países que até então eram parceiros, como França, Alemanha e Noruega.

Em coletiva nos EUA, Araújo chegou a se enrolar ao tentar falar da Amazônia e explicar sua tese de que há uma tentativa de intervenção no Brasil quando o assunto é o clima e a crise na floresta.

Ele afirma que políticos têm feito uso do discurso sobre aquecimento global para dar um caráter internacional à crise na Amazônia e, dessa forma, ferir a soberania brasileira.

Uma jornalista do Los Angeles Times pediu que o ministro desse exemplos sobre essa possível intervenção. “Foi sugerida por alguns líderes do mundo”, disse o ministro, citando “um artigo na Foreign Policy defendendo isso”. Uma publicação de fake news.

E guardem esse nome: caso Araújo siga ministro, ele terá problemas com John Kerry, o “enviado especial dos EUA para Meio Ambiente” . Ele, inclusive, foi um dos arquitetos do Acordo de Paris e terá assento no Conselho de Segurança Nacional, que pela primeira vez na história terá uma autoridade dedicada a sustentabilidade no Conselho.

Kerry deve focar suas atenções no desmatamento da Amazônia, tem uma esposa moçambicana, “ouve português todo dia” e sem dúvidas, será um adversário a altura do presidente do Brasil e do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

A pandemia. Ah, a pandemia

Assim como praticamente toda a cúpula do Governo Federal, Araújo foi um desastre na pandemia. Fixado na ideia de vilanizar a China e seguir com a retórica de vírus chinês, o ministro das Relações Exteriores tomou algumas decisões que ajudaram a matar dezenas de milhares de brasileiros:

  • Afirma que o coronavírus é um plano comunista – Eles escreveu um artigo com o título ‘Chegou o comunavírus’ afirmando que ‘O coronavírus faz despertar novamente para o pesadelo comunista’:
    “O vírus aparece, de fato, como imensa oportunidade para acelerar o projeto globalista. Este já se vinha executando por meio do climatismo ou alarmismo climático, da ideologia de gênero, do dogmatismo politicamente correto, do imigracionismo, do racialismo ou reorganização da sociedade pelo princípio da raça, do antinacionalismo, do cientificismo”. Ernesto Araújo.
  • Deixou o Brasil de fora de lista para recuperação pós-pandemia – O governo brasileiro não faz parte da lista de mais de 50 países e entidades internacionais que se reúniram em maio do ano passadopara traçar uma estratégia para uma recuperação sustentável do mundo pós-pandemia, incluindo vacinas. Os Estados Unidos de Trump também ficaram de fora;
  • Rejeitou quebrar patentes e agora Brasil está sem vacina – Em janeiro deste ano, o governo brasileiro recou da decisão idiota de rejeitar em outubro do ano passado, na OMC, a proposta para que fosse permitido aos países suspender patentes de vacinas da covid-19. Economia sempre em primeiro lugar. Hoje, claro, o país não possui vacinas suficientes. Claro, estava seguindo o voto de Donald Trump e isso custou vacinas que viriam diretamente da Índia – a proposta de quebra das patentes foi indiana;
  • Ignorou cúpula em que a China ofereceu US$ 1 bi em crédito para vacina – Por causa das agressões de Eduardo Bolsonaro e do ex-ministro da Educação, Weintraub, ao governo chinês, Araújo deixou de ser diplomático e cortou relações com o a China. Tanto, a ponto de deixar o Brasil de fora de uma reunião por créditos de vacinas. Hoje, novamente, o país não tem vacina suficiente para esta pandemia;
  • Comparou isolamento social com campos de concentração – A analogia foi feita no dia 22, quando o chanceler brasileiro publicou um texto em seu blog pessoal criticando um livro do filósofo esloveno Slavoj Zizek. O Comitê Judeu Americano exigiu um pedido de desculpas do ministro.
  • Diz que quem duvida da cloroquina contra covid-19 age politicamente – A declaração acontece um dia após o Conselho Francês de Medina confirmar acusação por charlatanismo contra o médico que sugeriu o medicamento nesta pandemia. Além de tudo, é mais um irresponsável que fica defendendo o uso da cloroquina, medicamento que não funciona contra a covid.
    “Nós temos, com a liderança do presidente, procurado proporcionar aos brasileiros a opção dos tratamentos, a questão que vocês acompanharam, da hidroxicloroquina, que acho que tem salvado vidas, e infelizmente algumas pessoas se recusam a reconhecer por questões políticas”. Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores.

Com o cargo a perigo, Ernesto Araújo chegou pediu feitos positivos de sua gestão na sua pasta, mas não encontrou. Ao lado de Ricardo Salles, do meio Ambiente, o ministro do Exterior é mais um que pode deixar o governo Bolsonaro.

Alguns diplomatas vêm pontuando que houve uma redução de 20% nas exportações brasileiras de 2018 para 2019, de US$ 58 bilhões para US$ 46 bilhões.

Aliás, se fizesse alguma coisa que preste, o Brasil não teria gastos recorde com propaganda no exterior, para limpar sua imagem.

É realmente um inútil que precisa sair do governo. Assim como Ricardo Salles do Meio Ambiente, Damares Alves da Família, Paulo Guedes na Economia, Jair Bolsonaro da presidência…