4 de dezembro de 2021Informação, independência e credibilidade
Política

Familiares enlutados dividem espaço com o “macabro” e batalha de egos na CPI

Flávio Bolsonaro acusou depoentes de serem “militantes que causam nojo”, enquanto cúpula da Comissão batia cabeça sobre indiciamentos e o relatório final

No que deve ser a última semana com depoimentos, a CPI da Covid no Senado teve nesta segunda (18) uma sessão emocionalmente carregada, mas, ainda assim, necessária: o depoimento de familiares que perderam parentes para o novo coronavírus nesta pandemia.

Márcio Antonio do Nascimento Silva, pai que perdeu o filho de 25 anos em março do ano passado, foi um dos que falou ontem. Além do seu já histórico depoimento sobre seu luto ‘não ser mimimi’ e questionar negacionistas, ele infelizmente já estava destacado por outro momento triste: a foto dele recolocando cruzes retiradas por um bolsonarista idoso que com orgulho segurava uma bandeira do Brasil:

“Três dias depois de enterrar meu filho, eu ouvi aquela fatídica frase: ‘E daí?’. Isso me gerou muita raiva, muito ódio, me fez muito mal”. Márcio Antonio.

Outra depoente, Katia Shirlene Castilho dos Santos, que perdeu os pais, conveniados da Prevent Senior, em São Paulo, narrou sobre sua irmã precisar encontrar o corpo do pai dentre diversos outros corpos ensacados e lembrou as duas ocasiões, em março e maio passados, em que Jair Bolsonaro imitou uma pessoa com falta de ar.

“Quando a gente vê um presidente da República fazer isso, para nós é muito doloroso. Se ele tivesse ideia do mal que faz para a nação, além de todo o mal que já fez, ele não faria isso”. Katia Shirlene.

Infelizmente, não foi suficiente para abrir os olhos nem de um lado nem de outro sobre a relevância do que estava sendo falado ali.

Relatório indefinido

Enquanto isso, a cúpula de oposição ao governo Bolsonaro, o chamado G7 da CPI, batia cabeça. Tudo por causa do vazamento do relatório da CPI – que deveria ser lida hoje (19), mas deve ficar para quarta-feira. O vazamento à imprensa é atribuído ao senador Renan Calheiros, que defende acusações mais pesadas contra o presidente Jair Bolsonaro e seus aliados.

Isso, no entanto, isolou o senador alagoano, que às vésperas de apresentar formalmente o parecer final da CPI da Covid vem sendo acusado por quem deveria ser seu aliado. Parte da cúpula atua até para convencê-lo a retirar partes alvo de divergência do texto. Caso o relator não ceda, congressistas avaliam apresentar emendas.

O relator chegou a ser chamado de traidor pela suspeita de ter feito uma jogada política para expor trechos do texto e encurralar colegas que quisessem mudá-los. O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), por exemplo, não quer mais conversas a portas fechadas sobre o relatório e afirmou nesta segunda-feira (18) que Renan deve manter “tudo aquilo que vazou”.

Outra ala, porém, ainda busca consenso. Mesmo sem reuniões do G7 previstas, senadores querem conversar individualmente com Renan. Os senadores Humberto Costa (PT-PE) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP), são dois dos que querem se reunir para discutir o teor do parecer e evitar que ele seja colocado em votação sem consenso.

Ainda assim, Aziz disse esperar que colegas apresentem sugestões, mas declarou que votará para aprovar o texto do relator, após se reunir com Humberto e Randolfe.

“A sugestão minha é que ele mantenha tudo aquilo que ele vazou. Para não ter dúvida sobre o nosso comportamento. Para não sair brincadeirinha, dizendo: ‘Ah, o presidente [Jair Bolsonaro] ligou pro Omar’. Não ligou para mim”. Omar Aziz, presidente da CPI.

Segundo o que fora vazado, a minuta do parecer de Renan que estava pronta na sexta-feira (15) pede o indiciamento de mais de 60 pessoas, entre elas filhos do presidente, ministros de Estado, integrantes e ex-funcionários do Ministério da Saúde e empresários.

O texto atribui 11 crimes ao presidente, entre eles o de homicídio. Além disso, Renan propõe 17 projetos de lei ou mudança na Constituição, que incluem definir crime para punir a disseminação de fake news, hoje inexistente.

Macabro Flávio Bolsonaro

Apesar disso tudo, os depoimentos desta segunda deveriam ter sido repetido mais vezes. Ouvir os familiares foi muito mais importante do que as longas impressões de alguns senadores, principalmente de negacionistas como Marcos Rogério, o mala das “narrativas”, ou Luis Carlso Heinze (este parece estar próximo de internação por invalidez cognitiva).

Mas ainda há quem puxe o coro, como o senador 01 filho do presidente Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro. Com rachadinha e contatos milicianos no currículo, ele mostrou toda sua insensibilidade e monstruosidade ao acusar os depoentes de terem sido “escolhido a dedo pelo histórico de militância contra Bolsonaro”:

“O que estamos testemunhando é macabro, triste e lamentável. É um desrespeito com as quase 600 mil vítimas desse vírus aqui no Brasil. Bolsonaro fez e continuará fazendo o que está ao seu alcance. Já são mais de R$ 621 bilhões investidos no combate à pandemia”. Flávio Bolsonaro, senador.

O racha da cúpula do G7, por puro ego político de quem quer ser o pai da criança pelos resultados da CPI, foi uma pena. Mas o depoimento de gente como Flávio era esperado, afinal mentiram e desviaram o foco do assunto durante este tempo todo.

É óbvio que todas as vacinas que foram aplicadas no Brasil, sem exceção, foram viabilizadas pelo presidente Bolsonaro. Ele é o presidente. O problema é que de forma imbecil ele passou meses ignorando o problema e até hoje faz desdém contra a pandemia.

O president, aliás, até hoje diz que não vai ser vacinado (algo que só muito desiludido ainda acredita), perguntou ‘e daí?’, tentou esconder os números da pandemia (que ele garantiu não passarem de 900), joga contra o uso de máscaras e quando foi comprar vacina facilitou para esquemas propineiros, como do caso Covaxin.

O macabro, triste e lamentável é que ainda tenha gente acreditando e reproduzindo as falas de seres como Flávio – que pouco a pouco vão perdendo o direito de serem chamados de “gente” ou “humanos”. Nem mesmo o tradutor de sinais aguentou a barra ontem. Por que diabos o argumento de um bolsonaristas ainda presta neste debate?