26 de junho de 2022Informação, independência e credibilidade
Brasil

Ministro do Meio Ambiente pergunta: “Que diferença faz quem é Chico Mendes?”

Ministro seguiu defendendo, no Roda Viva, licenciamentos mais ágeis e até auto-licenciamentos de empresas que vão atuar em áreas de preservação ambiental ou que suas atividades ofereçam riscos

Em entrevista concedida ao “Roda Viva” na TV Cultura, nesta segunda-feira (11), o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, confessou que não conhece a Amazônia nem mesmo sabe sobre o líder seringueiro Chico Mendes, uma das maiores referências mundiais da causa ambiental.

O apresentador, Ricardo Lessa, questionou o que Salles falava obre Mendes e teve isso como resposta:

“Eu não conheço o Chico Mendes, escuto histórias de todos os lados. Dos ambientalistas mais ligados à esquerda, que o enaltecem. E das pessoas do agro que  dizem que ele  não era isso que contam. Dizem que usava os seringueiros pra se beneficiar”. Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente.

Chico Mendes

Lessa rebateu: “Se beneficiar do que? Ele é reconhecido pela ONU”. O ministro, então, disparou: “O que importa quem é Chico Mendes agora?”.

Como se esperava de alguém indiciado por crimes ambientes e que atuará “sem ideologia”, o ministro seguiu defendendo licenciamentos mais ágeis e até auto-licenciamentos de empresas que vão atuar em áreas de preservação ambiental ou que suas atividades ofereçam riscos. Isso mesmo após ser lembrado de tragédias como Mariana e Brumadinho (MG).

O ministro ainda relativizou os critérios de multas às empresas que cometem crimes ambientais e ainda propôs um processo de “acordo negociado” com infratores, o que, na prática, seria uma espécie de anistia.

E ao falar sobre as barragens, Salles minimizou e afirmou que a resposta está sendo dada através da presença de autoridades nos locais das tragédias, mas não apresentou atitudes concretas para punir a empresa, indenizar as vítimas e evitar novos acidentes.

Assista a íntegra da entrevista.

Chico Mendes

Chico Mendes nasceu no dia 15 de dezembro de 1944 no seringal Porto Rico, próximo à fronteira do Acre com a Bolívia, em Xapuri, estado do Acre. Filho de seringueiro passou sua infância e juventude ao lado do pai cortando seringa.

Com 16 anos Chico aprendeu a ler, escrever e pensar com Euclides Fernandes Távora, refugiado político que morava próximo da colocação da sua família. Esse fato teve uma grande influência na sua vida. Quando começaram a ser formados os sindicatos no Acre, ele tinha consciência de que havia chegado a hora de mudar a realidade dos seringais.

Em 1983 Chico foi eleito presidente do STR de Xapuri e intensificou sua luta pelos direitos dos seringueiros, pela defesa da floresta e pela luta política contra a ditadura e pelos direitos dos trabalhadores.

Em 1985 Chico liderou a organização do primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros.
Mais de 100 seringueiros criaram o Conselho Nacional dos Seringueiros como entidade representativa e elaboraram uma proposta original de reforma agrária: as Reservas Extrativistas.

Em 1987 ele lançou internacionalmente o documentário “Eu Quero Viver” onde mostrou a luta de Chico para proteger a floresta e os direitos dos trabalhadores.

Entre 1987 e 1988 Chico Mendes ganhou o Global 500, prêmio da ONU, na Inglaterra, e a Medalha de Meio Ambiente da Better World Society, nos Estados Unidos e deu entrevistas aos principais jornais do mundo. Jornalistas e pesquisadores o visitaram nos seringais e difundiram suas ideias pelo planeta.

Em 22 de dezembro de 1988, em uma emboscada nos fundos de sua casa, ele foi assinado a mando de Darly Alves, grileiro de terras com história de violência em vários lugares do Brasil.

A repercussão foi imediata no mundo inteiro. A indignação foi forte e se refletiu em seguida no Brasil. A imprensa brasileira, que até então ignorara a luta dos seringueiros e nunca abrira espaço para Chico Mendes, procurou recuperar o tempo perdido. A forte reação e pressão da opinião pública levaram à condenação dos criminosos em 1990, fato inédito na justiça rural no Brasil.