5 de dezembro de 2021Informação, independência e credibilidade
Cultura

No ritmo do Maracatu, os embalos de sábado à tarde

O puro ritmo que contagia na diversidade cultural alagoana

Por Tereza PereiraTexto e Fotos

Tem maracatu em Jaraguá; puro ritmo

Um grupo formado por integrantes em sua maioria jovens entre 20 a 30 anos de idade, vem se encontrado há anos, na Praça Marcílio Dias, localizada na Avenida da Paz, no tradicional e histórico bairro de Jaraguá, na capital alagoana. Os ensaios com a necessária disciplina, acontecem a partir das 14 horas, podendo se estender até às 17 horas, ou um pouco mais. É o Maracatu Baque Alagoano, que surge em Maceió no ano de 2007. Alagoas tem atualmente cinco (5) grupos de Maracatus em atividade.

Marco Túlio Cavalcanti, conhecido como Kiko, coordenador artístico cultural, explica sobre a criação do grupo. Tudo aconteceu depois de uma oficina de instrumentos e ritmos musicais, realizada no CENARTE, ministrada pelo mestre percussionista Wilson Santos. Os participantes foram amadurecendo a ideia a partir dessa oficina e se organizaram, resolvendo formalizar um grupo de maracatu em Alagoas, representando desse modo um ressurgimento deste no nosso Estado.

Jaraguá, o palco do maracatu todos os sábados

Segundo Kiko, diferente da maioria dos grupos de maracatus de baque virado, que em geral está vinculada a alguma casa de Axé (templo religioso de matriz africana), que tem sua corte com reis e rainhas – o Baque Alagoano é um grupo com proposta basicamente percussiva, nascido sem vínculo religioso. Embora seus integrantes tenham grande respeito e admiração pela religiosidade e cultura afro-brasileira, que é de fato a origem do Maracatu.  O coordenador artístico completou: “Hoje, o Baque tem muita proximidade e diálogo com Pais e Mães de Santo alagoanos e alguns membros pertencem a religião de matriz africana. Embora continuamos sendo um grupo percussivo”.

Em pesquisas sobre cultura e origens da história das manifestações de música e danças de origem africana há testemunhos históricos, que o Maracatu surgiu, a partir da miscigenação musical de várias presenças da influência africana, trazendo a expressão marcante da antiga realeza africana, com reis, rainhas, príncipes e princesas, os quais de fato existiram nos diversos continentes africanos. Estando também presentes em alguns maracatus, elementos que representam a cultura indígena.

Essas diferenças de estilo e propostas em nada impede a interação entre os demais grupos alagoanos. O coordenador artístico Marco Túlio (Kiko), informou que foi realizado, entre 18 e 19 de novembro de 2017, aqui em Maceió, o Encontro de Maracatus em que todos os grupos de Alagoas estiveram presentes, trazendo duas nações de maracatus de Pernambuco.

Kiko informou ainda, que todos grupos de maracatus alagoanos sempre estiveram presentes, foram convidados e se encontraram no Pólo de Maracatus, organizado pelo grupo e sempre contou com apoio da comunidade.

A organização do Baque Alagoano é composta por três coordenações que dialogam entre si. Marcel Palmeira, coordenador administrativo; Marco Túlio Cavalcanti (Kiko), coordenador artístico cultural e Carina Monteiro, coordenadora financeira. Tem como parte da organização do Grupo os conselheiros do artístico cultural, os seguintes integrantes:  Pedro Serafim, Álvaro dos Santos e Lorena de Novaes. Os conselheiros fiscais Daniel Moura, Carlos dos Anjos e Gustavo Vieira. Esses nomes mudam a cada dois anos, por meio de eleições e novas escolhas.

O grupo percussivo tem aproximadamente cem (100) membros ativos com uma faixa etária bem diversa, desde crianças até idosos. Mas a predominância é de jovens entre 20 a 30 anos de idade, embora existam integrantes de 6 a 80 anos. Todos concordam que o convívio intergeracional é de suma importância, porque por exemplo a presença das crianças e saber que elas gostam de participar, garantem a vida longa e continuidade do grupo. Como foi destacado “isso serve para todos os grupos, para todas as manifestações e representantes da expressão cultural”.

Durante todos os ensaios vem se respeitando todos os protocolos da OMS, buscar seguir com rigor as orientações recomendadas como medidas de proteção para o enfrentamento da pandemia (Covid-19), garante a continuidade do trabalho. Considerando a importância do respeito as orientações preventivas, além da vacinação. Os coordenadores lembraram, que essas medidas são importantes para toda população, para toda a humanidade. Principalmente sendo um grupo de Maracatu, porque é um ritmo das ruas, de se precisar tocar para que todos possam ouvir. Ensaiar na praça até ajuda, como é o caso da praça Marcílio Dias, aqui em Jaraguá. Essa manifestação popular sempre esteve e estará aberta à população. “O Maracatu é um movimento cultural de rua, é das ruas e para todos, sempre esteve aberto a todos, especialmente aos moradores de Jaraguá e de toda Maceió”, disse Kiko.

Os coordenadores buscam resolver as dificuldades ou entraves financeiros presentes em todos os grupos artísticos. O apoio da comunidade manter uma sempre uma boa relação entre o grupo e entre a comunidade é sempre importante, o trabalho da mídia, a credibilidade e o reconhecimento das diversas mídias ajudam nas divulgações dos eventos, das oficinas as quais estão suspensas devido a pandemia e as diversas ações do Baque. O grupo aposta na interação com as redes sociais, seu próprio instagram, facebook, twitter e todos os canais de comunicação, manter um canal aberto com a população alagoana, divulgando o Maracatu.

 

INSTRUMENTOS DO MARACATU

Os integrantes do Grupo e das coordenações comentaram sobre os instrumentos presentes e que representam o Baque Alagoano, em especial as alfaias, os agogôs, as caixas, os gonguês e os xequerês. Todos os integrantes sabem da importância de cada um deles, por isso buscam seguir a disciplina dos ensaios e a dedicação em melhorar cada vez mais.

Os mestres e coordenadores do grupo acompanham de perto todos os movimentos, afinação, preparação, escutam, tudo em sua sequência, o que está repercutindo, a harmonia do conjunto.

Dentre os instrumentos, o que exige maior preparação é a alfaia, considerada o coração do batuque ou baque, como é denominada no Maracatu. Todos os instrumentos têm sua importância, mas outro que se destaca é o xequerê, que exige muita coordenação motora para tocar, dançar e cantar ao mesmo tempo.

Alguns instrumentos são produzidos em Alagoas, também alguns integrantes do Baque trabalham na confecção desses instrumentos musicais.

ALFAIA – Instrumento musical da família dos membrafones (o som é obtido através da membrana ou pele dos animais). Trata-se de um tambor ícone do ritmo afro-brasileiro Maracatu, também no Coco e na Ciranda, acompanham duas baquetas, aro e cordas para afinação.

AGOGÔS – Instrumento musical da família dos idiofones, cujo som é provocado pela sua vibração. É o próprio corpo do instrumento que vibra para produzir o som, sem a necessidade de nenhuma tensão. Acompanha baqueta de madeira. O agogô é um termo usado pelo povo Yoruba, Igala e Edo da Nigéria para o sino golpeado sem badalo.

CAIXAS – ou tambor de caixa, instrumento musical percussivo bi-mebranofone (duas peles distendidas) da família do tambor percutido, composto por um corpo cilíndrico de pequena seção; com duas peles de alta sensibilidade à batida, fixados por meio de aos metálicos, com esteira de metal constituída por pequenas molas, em contato com a pele inferior, que vibra após a pele superior percutida.

GONGUÊS – É um tipo de instrumento de origem africana, caracteriza-se por uma espécie de sino em metal com a boca achatada, medindo de 20 a 30 cm, é percutido com um pedaço de ferro, presente na percussão dos maracatus nação ou maracatu de baque virado. Possui apenas uma campânula de ferro, assemelha-se ao agogô.

XEQUERÊ – Instrumento musical de percussão, origem africana, trazidos pelos povos africanos da nação jejê-nagô. Em iorubá: Sèkèrè, também conhecido como abê ou agbê, criado originariamente na África. Consiste em uma cabaça seca cortada em uma das extremidades e envolta por uma rede de contas. Ao longo de todo continente africano é chamado de diferentes nomes, como lilolo e exatse.

A forma da cabaça determina o som do instrumento. Um xequerê é feito por secagem da cabaça, por vários meses, em seguida, a remoção da polpa e sementes. O instrumento tem um ritmo peculiar, costuma ser agitado enquanto é tocado.

Outra peculiaridade é ser um instrumento feito com uma das primeiras plantas cultivadas no mundo, a cabaça, utilizada não somente para fins de alimentação, mas também como recipiente de armazenar água para consumo.

 

CELEBRAÇÃO PARA AYÃN   (composição de Daniel Madeira)

Esse som que vem da África

É um som de amor,

Em terras alagoanas

Renasceu meu Maracatu.

 

Na batida da alfaia

Tocando gonguê

Sou quizomba de Ayã,

Chacoalhando o abê.

 

Venha para essa quizomba,

Venha para balançar,

No toque do Maracatu,

Seu filho de Ayã chegou pra celebrar.

 

Venha para essa quizomba,

Venha para dançar,

Ao som do Maracatu,

O negro e o branco vão se abraçar.

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