25 de setembro de 2020Informação, independência e credibilidade
Personalidades

Papa Francisco conquista o mundo e é a personalidade do ano

Da política tolerância zero em relação à pedofilia à defesa da ecologia

 

Por Mirticeli Medeiros

Papa João Paulo II: o revolucionário da igreja católica mundial

Que papa Francisco conquistou o mundo, isso não é novidade para ninguém. Mas, além do carinho que ele demonstra para com os fiéis, estão as suas atitudes. O ano de 2019 pode ser considerado marcante para o pontificado de Francisco. Uma série de eventos serviram para concretizar os projetos que o pontífice tinha em mente quando assumiu o governo da Igreja Católica.

Da política tolerância zero em relação à pedofilia à defesa da ecologia; do apelo para que no cristianismo impere a cultura do encontro às várias tentativas de reaproximação com o mundo islâmico. Só por isso, Francisco merece ganhar capas dos jornais e destaque nas retrospectivas televisivas.

O alcance da sua mensagem ultrapassou os muros da religião. Francisco é um jesuíta que redimensionou a Igreja Católica: o papa de todos e para todos. Francisco é ecumênico, interreligioso, “bíblico, lírico e existencial”, roubando as palavras que Drummond usou para definir Adélia Prado.

Pedofilia

Se nos recordarmos bem, em fevereiro deste ano, o pontífice convocou a Roma os líderes das conferências episcopais de todos os continentes para tratar do problema da pedofilia. Um momento histórico no qual, pela primeira vez, vimos a Igreja Católica promover uma ação conjunta de prevenção contra esse crime. Apesar de a maioria dos casos terem sido registrados entre as décadas de 1960 e 1980, a impunidade em relação aos culpados ainda era uma realidade, mesmo com os esforços do predecessor, Bento XVI.

Ou seja, quase 30 anos depois, quando as vítimas finalmente tiveram a coragem de denunciar tais atrocidades, a Igreja passou a encarar o problema de frente. Em grande parte, graças a Francisco, o pontífice que não se preocupa em preservar a imagem da instituição. Foi ele quem incentivou, inclusive, que os jornalistas denunciassem esses crimes.

E não por acaso, a vaticanista mexicana Valentina Alzraki, considerada “a decana” dos vaticanistas por causa dos 45 anos de experiência em coberturas papais, foi convocada por Francisco para dar seu parecer diante de todos os padres, bispos e cardeais reunidos no evento do início do ano. “Se vocês não decidirem, de maneira radical, ficar ao lado das crianças, das mães, da sociedade civil, vocês terão que ter medo de nós. Porque nós, jornalistas, que queremos o bem comum, seremos os vossos piores inimigos”, disse a comunicadora na ocasião, quando foi aplaudida de pé pelos colegas presentes.

Quando pensávamos que Francisco já tinha feito o impossível, ele apresenta outra novidade: retira o silêncio pontifício, medida canônica que garantia à Igreja Católica acompanhar as denúncias de abuso sexual envolvendo padres numa espécie de “segredo de Justiça”. Com a medida, a Justiça civil terá acesso a todos os autos do processo. Mais um ponto para Francisco. E que ponto!

Ecologia

O papa abraçou as periferias e chegou à Amazônia. O grito dos missionários e dos marginalizados daquelas terras ecoou em Roma. O Sínodo dos Bispos para a Amazônia foi atacado desde a sua preparação, por causa de um jogo de interesses travestido de “preocupação com questões morais e de disciplina”. Passando por cima das muitas críticas, Francisco “derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes”, fazendo assim o seu Magnificat, denunciando que a criação não pode ser massacrada e violada pelo homem a seu bel prazer.

Francisco disse que a Igreja não é simplesmente uma “fábrica de documentos”, mas realidade viva, chamada a transformar, com seu testemunho, toda e qualquer realidade. Laudato si, a encíclica ecológica publicada em 2017, transformou-se em vida em outubro. “Chegamos aos diagnósticos”, declarou o papa no encerramento do sínodo, não sem antes lamentar a incompreensão diante dos motivos da convocação ao diálogo. O pontífice, no entanto, dorme com a consciência tranquila, pois é ciente de que fez sua parte, afinal, propôs-se a ouvir justo no momento em que o diálogo é conturbado e se turva. E se continuar dependendo dele, a Amazônia não cairá no esquecimento outra vez. Em 2020, virá uma exortação apostólica, na qual dará seu parecer a respeito das preocupações apresentadas pelos participantes do evento.

Os pobres e a Igreja

Quem nunca ouviu um “por que o Vaticano não vende os seus bens e dá aos mais pobres?”. Mas, e se for possível algo melhor que isso? Foi o que Francisco fez. O luxuoso Palazzo Migliori, nas imediações da Praça São Pedro, doado ao Vaticano por uma família romana na década de 1930, agora pertence aos sem-teto da capital. O edifício – repleto de afrescos, pisos em mármore e estuques decô – terá como moradores ilustres “os pobres do papa”, que têm preferência no pontificado do primeiro jesuíta da Igreja.

Após criar espaço para oferecer banho e comida aos necessitados – e até enviar um cardeal para dormir na rua com mendigos –, Francisco, novamente, surpreendeu ao resgatar os fundamentos cristãos primordiais. Para o argentino, se a Igreja não estiver ao lado dos últimos, como seu fundador Jesus Cristo, não estará cumprindo sua missão. Em meio à crise e ao emaranhado de ideologia e religiosidade de aparência, o líder da Igreja Católica insiste em relembrar aos cristãos a essência fraterna do cristianismo.

Às portas da Igreja, não batem apenas os romanos, mas aqueles que estão nos mares arriscando a vida para ter uma vida digna que lhes foi arrancada por conflitos políticos e ingerências de potências indiferentes ao sofrimento alheio. Rostos marcados pela guerra, pela fome e pela exploração. A Europa, que reclama tanto da crise imigratória, foi a maior responsável por suas causas. E se alguma vez os líderes do velho mundo se esqueceram disso, o papa está aí para lembrá-los. Francisco tornou-se um líder de respeito, porque não tem medo de colocar o dedo na ferida. “Na dúvida, fique do lado dos mais pobres”, disse certa vez dom Helder Câmara. Porém, no caso de Francisco, não há dúvidas. Em sua visão, se a Igreja fizer opção contrária, certamente perderá de vez sua credibilidade e força. Quando se diz que a “Igreja caminha lado a lado com o homem”, quer dizer que é chamada a lutar pela sua dignidade, em um momento no qual, há seres humanos “descartáveis”. É o movimento pró-vida na sua integridade levado adiante por um papa sem medo de se sacrificar pela causa essencial de Cristo.

Francisco e os muçulmanos pela paz

Ainda falando sobre “o ano de Francisco”, não podemos deixar de fora a visita aos Emirados Árabes, realizada também em fevereiro. Em meio aos esforços de aproximação com o mundo islâmico, nada se compara a essa viagem apostólica. O papa argentino conseguiu o feito, naquele conglomerado de ilhas, de lançar um apelo de paz inédito, que contou com o apoio e a adesão dos maiores líderes muçulmanos da atualidade, entre eles o imã Ahmad al-Tayyeb, autoridade máxima sunita. Considerada uma “surpresa de Deus” por Francisco, a visita “inaugurou um novo tempo de relação entre Igreja Católica e o mundo islâmico”, como ele mesmo fez questão de frisar. Para quem não sabe, o documento será estudado em universidades de vários países e, por se tratar de um compromisso público, teve enorme repercussão no mundo árabe muçulmano.

Os debates do ano: as mulheres e os padres casados

O Sínodo dos Bispos para a Amazônia foi o primeiro da história a contar com um número expressivo de mulheres: foram 35. Muitas delas atuaram como auditoras e peritas da assembleia e puderam reivindicar maior reconhecimento de seu papel na vida da Igreja. Diversos padres e bispos participantes do evento saíram em defesa delas, pedindo ao papa para conceder-lhes um ministério especial, de modo que mulheres possam ter participação mais efetiva nas decisões da instituição. Francisco não só abriu o debate como prometeu refletir sobre os pedidos.

Outra antiga discussão, em torno da ordenação de homens casados, também foi enfrentada pelo papa. Um momento histórico, já que a questão foi engavetada por Paulo VI e João Paulo II, os quais reafirmaram, através de documentos, a impossibilidade de qualquer tipo de abertura em relação ao celibato. Atendendo ao apelo dos bispos da região pan-amazônica, que solicitaram essa licença especial para comunidades isoladas da Amazônia, Francisco, apesar de ser claramente contra a extinção da disciplina do celibato na Igreja do Ocidente, deu um passo adiante, abrindo-se à possibilidade de suprir a carência de padres através da concessão do ministério a homens casados para atuar no território. (Com Domtotal)

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre primordialmente o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália, sendo uma das poucas jornalistas brasileiras credenciadas como vaticanista junto à Sala de Imprensa da Santa Sé.

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