13 de agosto de 2022Informação, independência e credibilidade
Corrupção

PF investiga desvio de verbas em Rio Largo; Imagens mostram entrega de propina

Gilberto Gonçalves é apontado como o “principal autor dos crimes e coordenador da ação dos demais investigados” em esquema de R$ 4 milhões

O programa Fantástico, da Rede Globo, teve acesso à uma investigação da Polícia Federal e imagens de dois carros se encontrando em um beco afastado de uma cidade alagoana; um pacote é entregue pela janela e, dentro dele, segundo a Polícia Federal, tem dinheiro que deveria beneficiar os moradores de Rio Largo.

Segundo a polícia, o esquema envolve o prefeito do terceiro maior município do estado, uma cidade de 75 mil habitantes a 30 quilômetros da capital, Maceió.

Os dois homens que ocupavam em um dos carros, de acordo com a PF, representam a empresa Litoral Construções e Serviços, que recebeu mais de R$ 4 milhões nos últimos quatro anos em contratos para fornecer materiais de construção com a Prefeitura de Rio Largo. Antes do encontro, eles haviam passado no banco para sacar R$ 49 mil, operação identificada pelo Coaf.

Logo após receber o pacote, o veículo vai direto para a Prefeitura, e as imagens mostram que o mesmo carro havia saído dali minutos antes. Segundo os investigadores, ele é dirigido por apenas três pessoas: um motorista e dois policiais civis que fazem a escolta do prefeito de Rio Largo, Gilberto Gonçalves, do PP.

Prefeito autor dos crimes

No relatório da PF, Gilberto é apontado como o “principal autor dos crimes e coordenador da ação dos demais investigados” e que “o pacote entregue por representantes da Litoral para funcionários do prefeito continha dinheiro em espécie sacado momentos antes”.

O mesmo flagrante se repetiu por quatro dias seguidos; tudo registrado pelos agentes. A PF aponta que, no total, “foram identificados 185 saques” no valor de “R$ 49 mil” cada um entre os anos de 2020 e 2022, e que o dinheiro foi retirado das contas da Litoral e da Reauto, empresa do mesmo grupo familiar, que também é contratada pela Prefeitura e recebeu mais de R$ 13 milhões nos últimos quatro anos.

Esses saques sucessivos de R$ 49 mil constituem apenas uma forma de fugir do Coaf, porque valores acima de 50 mil acabam sendo identificados e informados. Agora, quando esses saques se repetem dezenas de vezes, acaba sendo objeto de investigações.

A PG agora apura se recursos do governo federal que deveriam ir para a saúde pública de Rio Largo foram desviados no esquema. A cada ano, a cidade recebe mais repasses para a área.

Outro lado

Nesta sexta (29), a produção do programa foi até a prefeitura de Rio Largo, mas o carro que aparece nas imagens não está mais no local. O prefeito não estava. No dia seguinte, a defesa de Gilberto Gonçalves procurou a equipe.

Em nota, diz que a investigação “não apresenta nenhuma prova da participação do prefeito na malversação de recurso público” e que conseguiu uma liminar suspendendo temporariamente as investigações porque, como há um prefeito envolvido, o caso deveria estar no Tribunal Regional Federal, e não na Justiça local.

O Fantástico apurou que o TRF da Quinta Região deve decidir na próxima semana se a PF pode ou não seguir com a investigação.

A sede da Litoral, empresa cujos representantes foram flagrados fazendo os saques, estava fechado e o telefone informado caía direto na caixa postal. Segundo a Polícia Federal, essa empresa não tem nenhum funcionário e, mesmo assim, ganhou contratos milionários da Prefeitura. Além disso, a sócia recebeu Bolsa Família e também auxílio durante a pandemia.

Na empresa Reauto, o dono não estava, mas disse que só falaria na presença de um advogado. Deixamos nossos contatos, mas ninguém procurou nossa equipe.