25 de junho de 2022Informação, independência e credibilidade
Brasil

Presidente do Ibama pede exoneração após críticas de ministro e Bolsonaro

Atual ministro foi acusado por de abuso de poder econômico e de improbidade administrativa por suspeita de ocultação de alterações em mapas de zoneamento

Menos de um dia após, nas redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, questionarem o valor do contrato para aluguel de veículos no Ibama, a presidente do órgão, Suely Araújo, pediu exoneração do cargo nesta segunda-feira (7).

Ela já aguardava ser substituída pelo indicado por Bolsonaro, o procurador da União Eduardo Fortunato Bim, mas antecipou a saída. Ubanista, advogada e cientista política, ela foi nomeada em 2016 pelo presidente Michel Temer e em uma longa carreira ligada ao tema ambiental, tendo sido consultora legislativa na Câmara dos Deputados desde 1991.

Ela ficou indignada com as postagens deste domingo, antes que pudesse explicasse o valor do contrato, de R$ 28,7 milhões.

“Considerando que a indicação do futuro presidente do Ibama, sr. Eduardo Bim, já foi amplamente divulgada na imprensa e internamente na instituição ainda em 2018, antes mesmo do início do novo Governo, entendo pertinente o meu afastamento do cargo permitindo assim que a nova gestão assuma a condução dos processos internos desta Autarquia”, Suely Araújo, em ofício.

O Ibama é autarquia vinculada ao Ministério do Meio Ambiente. O valor de quase R$ 30 milhões corresponde ao total gasto pelo órgão com aluguel de 393 camionetes “adaptadas para atividades de fiscalização, combate a incêndios florestais, emergências ambientais, ações de inteligência, vistorias técnicas etc”.

Segundo Suely, o contrato vale para as 27 unidades da Federação e inclui os gastos com “combustível, manutenção e seguro, com substituição dos veículos a cada dois anos”. Ela afirma que a acusação foi sem fundamento e evidencia “completo desconhecimento da magnitude do Ibama e das suas funções”.

O atual ministro, acusado de crime eleitoral, dizia em suas peças de campanha que balas de fuzil seriam soluções para javalis, bandidos no campo, MST e a esquerda de forma geral.

O partido Novo, após a repercussão do caso, afirmou que “não compactua com qualquer insinuação ou apologia à violência”. A sigla também disse que fez orientações ao então candidato e que não aprovava a mensagem contida na propaganda.

Meio Ambiente

O ministro é alvo de ação de improbidade administrativa, acusado de manipular mapas de manejo ambiental do rio Tietê. Durante a campanha deste ano, chegou a sugerir o uso de munição de fuzil contra a esquerda e o MST. Não é a toa, será ministro.

Salles é advogado, presidente do Movimento Endireita Brasil e já foi secretário particular do ex-presidenciável Geraldo Alckmin, ocupando pasta de Meio Ambiente durante o Governo do tucano.

Após o anúncio, o futuro ministro disse que pretende “preservar o meio ambiente sem ideologia”. Realmente, as árvores comunistas e os animais selvagens marxistas são um problema que o povo brasileiro enfrenta.

A política de Bolsonaro no Meio Ambiente será dura. Ele não assumirá compromissos ambientais que impactem o agronegócio brasileiro, criticando acordos que estão em vigência. “A partir do momento que querem diminuir a quantidade de exportáveis nossos, essas commodities, logicamente que não podem contar com o nosso apoio. Mas não é um não em definitivo, nós vamos negociar”.

Jair Bolsonaro revelou também ter participado da decisão do Brasil de retirar o convite para sediar a próxima Conferência da ONU sobre o clima, a COP-25.

Chamado por estrangeiros de Trump dos Trópicos, o presidente eleito Jair Bolsonaro alarmou cientistas de fora do país quando havia confirmado a fusão dos Ministérios da Agricultura e Meio Ambiente. E o motivo é simples: o Brasil abriga a maior floresta tropical do mundo, dois terços do total, e sua maior ameaça em território nacional é o desmatamento para expandir a agropecuária.

Madeira, gado, soja. Esse tem sido o cardápio de exploração econômica da Amazônia até agora, com perdas significativas de cobertura florestal ao longo das décadas.

Pautas ambientais de vários setores industriais, como os da química e mineração, iriam somar às próprias da agricultura. A retórica é de que é preciso derrubar a Amazônia para produzir riqueza. E o desmatamento acontecia de forma desenfreada antes mesmo desta mudança.

Entre 2000 e 2012, a agropecuária foi responsável por metade do desmatamento ilegal nos países tropicais. No Brasil, até 90% da derrubada ilegal da floresta neste período ocorreu para dar lugar ao gado e à soja. E isso pode piorar, pois ONGs como o Greenpeace e o World Wildlife Fund (WWF) já foram avisados pelo próximo presidente: Suas ações de defesa ambiental serão dificultadas.

O problema pode ser, também, no bolso: as perdas anuais no Brasil passam de US$ 1,7 bilhão (R$ 6,4 bilhões) com eventos extremos como tempestades e inundações, na média dos últimos vinte anos.

Em ranking da COP-24 do Clima pela organização alemã Germanwatch, que reúne dados climáticos e socioeconômicos de 181 países, o Brasil está entre os 18 países com mais perdas econômicas decorrentes de desastres climáticos.

“Não é do interesse do próprio país negar que as mudanças climáticas estão acontecendo. Se ignorar os fatos, Brasil pode ficar mais vulnerável. Embora os países mais pobres sofram mais por não terem condições de se preparar para os fenômenos e para se recuperar deles, países que ignoram as mudanças climáticas também podem ter altos prejuízos, como os Estados Unidos tiveram. Apenas os furacões que atingiram a costa leste do país em 2017 causaram um prejuízo recorde de U$S 200 bilhões (R$ 760 bilhões).”

Estas são palavras do principal autor do estudo, David Eckstein. E para ele, a situação pode ser mais grave para o Brasil do que o ranking sugere. Ele diz que os países africanos e o Brasil estão sub-representados, pois o ranking só calcula perdas diretas e não inclui fenômenos como a seca, que implica prejuízos indiretos, como no abastecimento de água e na agricultura.

Ele contabiliza três secas que bateram recordes históricos na Amazônia nos anos de 2005, 2010 e 2015. A região também sofreu com inundações mais intensas em 2009 e 2012. Já o Nordeste, ainda segundo Nobre, viveu o pior ciclo de chuvas da História entre 2012 e 2017, desde que as medições se iniciaram, no final do século 19.

O Sudeste também viveu a pior seca do registro histórico em 2014. No mesmo período, Brasília também viveu sua seca mais grave, em 2016.