17 de janeiro de 2021Informação, independência e credibilidade
Política

Ex-senador e dono de TV que quer ‘apedrejar jornalistas’ já foi processado dezenas de vezes

Roberto Cavalcanti, que já aproveitou do foro privilegiado e arrastou durante anos processos por crime de prática de corrupção ativa, uso de documentos falsos e crime previdenciário, não quer que sejam noticiados os mortos na pandemia

Um empresário dono de jornais e TV, e ex-senador, sugerir que jornalistas e radialistas sejam “apedrejados” por divulgarem as mortes provocadas pelo novo coronavírus no Brasil é mais um sinal do triste espiral descendente que se encontra o Brasil nesta pandemia.

Roberto Cavalcanti deu sua repulsiva sugestão em entrevista ao programa Correio Debate, da rádio Correio 98 FM, que pertence ao Sistema Correio de Comunicação do qual ele é dono. A empresa abrange ainda a TV Correio, afiliada da Rede Record na Paraíba, além de rádios e jornais.

“Tem determinadas emissoras que dão placar de quantos morreram no país. Parece que são gols da seleção do Brasil. ‘Hoje, 10 mil gols, batemos o recorde.’ Isso é uma vergonha. Isso é um país que deveria ter vergonha na cara. O jornalista, o radialista que fizesse um negócio desses deveria ser apedrejado na rua”. Roberto Cavalcanti, ex-senador e empresário dono de meios de comunicação na Paraíba.

Roberto Cavalcanti palestrou sobre Mídia e Política. Foto: Rafael Passos

E pensar que, há dois anos, em palestra, ele chegou a dizer que “a imprensa é para servir aos governados e não aos governantes”, na Academia Paraibana de Letras Jurídicas (APLJ), em 7 de junho, no Dia da Liberdade de Imprensa.

Claro, ele recuou. Pediu desculpas. Disse que falou em forma de desabafo. Mas estamos em uma era em que impropérios são ditos como se não houvessem consequências para que estes sejam registrados nas correntes de Whatsapp dos apoiadores. E estes compartilham com palavras de ordem, ódio, como se fosse colocado mais gasolina em uma fogueira.

A declaração, de forma curiosa, aconteceu no mesmo dia em que o presidente Jair Bolsonaro convocou empresários para uma “guerra” contra os governadores. Tudo pela reabertura da economia. E, como era de se esperar, alguns dos soldados do presidente seriam assim.

Dezenas de processos

Enquanto senador, Cavalcanti viveu um momento conturbado. Ele foi alvo de dezenas de processos, desde o recurso de milhões de reais até a compra de votos. Ele chegou a ser julgado no STF pelo que ficou conhecido como o “Escândalo da Fazenda Nacional” e também por enriquecer o Jornal Correio da Paraíba. Que também é dono.

De acordo com o Ministério Público, ele era diretor de empresas que deixaram de pagar um financiamento de R$ 18,8 milhões para a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). O esquema foi feito a ajuda de uma quadrilha de ex-servidores da Procuradoria da Fazenda Nacional, segundo o MPF.

O inquérito penal que investigava a extinção fraudulenta de débitos do Jornal Correio tramitava na justiça federal da Paraíba, mas depois que Roberto Cavalcanti obteve foro privilegiado por ter assumido vaga no senado, de forma suplente, e o caso foi para o STF em 2009.

Com o fim do mandato,e consequentemente do foro privilegiado, Roberto Cavalcanti a partir de 2012 teve o processos contra ele, que estavam tramitando no Supremo Tribunal Federal (STF), remetidos novamente à Justiça Federal na Paraíba.

Entre as acusações estão a de crime de prática de corrupção ativa, uso de documentos falsos e crime previdenciário. No total, processos que resultam em mais de R$ 18 milhões de devolução de recursos aos cofres públicos.

Além dos três processos no STF, segundo a organização Transparência Brasil, no ano passado, o ex-senador Roberto Cavalcanti era citado em pelo menos outras 90 ações e recursos judiciais que tramitavam em Varas Federais de Paraíba, Pernambuco e Rio de Janeiro, nos Tribunais Federais e na Justiça Estadual.

Resta saber se, além de ele não concordar em falar que mais de 800 pessoas morrem todos os dias em uma óbvia pandemia que só tende a piorar no Brasil, sugira também serem apedrejados os jornalistas que mencionarem seu passado repleto de processos nas costas.

Em tempo: nos números mais recentes, com mais 844 óbitos em 24h no Brasil, o país já tem quase 14 mil mortos na pandemia. Quando a Alagoas, foram mais 13 mortes no mesmo período, totalizando 177 óbitos.

Repúdio

Em comunicado, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais da Paraíba manifestou repúdio ao posicionamento de Cavalcanti e prometeu “medidas cabíveis”. Confira na íntegra a nota de repúdio:

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais da Paraíba, filiado à FENAJ, vem a público repudiar as declarações do ex-senador e empresário do Sistema Correio, Roberto Cavalcanti, durante programa na Rádio 98 FM, que faz parte do conglomerado de comunicação. Em um momento no qual a imprensa brasileira vem sofrendo diversos ataques durante a cobertura da pandemia do coronavírus, agressões verbais e até mesmo físicas, o ex-senador afirma que jornalistas e radialistas que noticiam as mortes pela covid-19 deveriam ser apedrejados na rua.

A declaração, além de chocante, causa repulsa na categoria, que foi considerada como serviço essencial durante a pandemia e continua trabalhando em seus postos normalmente. Nem mesmo as funções com possibilidade de trabalho remoto foram liberadas para tal. Outro agravante é a falta de equipamentos de proteção individual como máscaras em diversos desses locais do Sistema Correio, onde os trabalhadores estão expostos e, com isso, já foram identificadas pelo menos cinco infecções pelo vírus.

Agrega-se a essa situação que por si só já define o pensamento do Sr. Roberto Cavalcanti acerca dos trabalhadores que emprega o fato de ter extinguido, em plena pandemia, o jornal impresso Correio da Paraíba, deixando 38 jornalistas desempregados e sem perspectiva.

Porém, a atitude, apesar de grave, não surpreende, pois o Sistema Correio, do qual o Sr. Roberto Cavalcanti é empresário, há anos vem se negando a negociar reajustes para a categoria e, na primeira oportunidade de flexibilização de direitos, realizou uma demissão em massa mesmo em um momento no qual a proteção ao trabalhador deveria ser prioridade.

Repudiamos esse tipo de postura de qualquer pessoa, especialmente no que se refere a um empresário da área de comunicação. Tomaremos todas as medidas cabíveis para reparar a categoria em relação a essa declaração infeliz.