29 de maio de 2022Informação, independência e credibilidade
Brasil

Redes sociais: Telegram abriga venda de armas, drogas e dinheiro falso

O conteúdo violento do Telegram também é o paraíso das fakes news e da pornografia infantil

Por Luana Patrolino

Telegram: o paraíso do tráfico, violência e pornografia infantil

Paraíso das fake news, o Telegram passou de um simples aplicativo de troca de mensagens para um dos principais vilões da Justiça brasileira. A disseminação de conteúdo falso, violento e, muitas vezes, criminosos, é rotina na plataforma.

O jornal Correio Braziliense passou duas semanas infiltrado no submundo de links secretos do aplicativo e descobriu uma verdadeira “terra sem lei”.

A rede social — nascida na Rússia e sediada em Dubai, nos Emirados Árabes — ainda está longe do gigante WhatsApp. No entanto, seu crescimento tem provocado dor de cabeça nas autoridades brasileiras. Preocupado com o caos que o aplicativo pode causar no pleito deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) avalia formas de conter o conteúdo do aplicativo, mas já admitiu não ter controle, pois a empresa não possui representação no Brasil.

Atualmente, o Telegram está instalado em 53% dos smartphones no país, taxa que era de apenas 15% em 2018, segundo levantamento do site MobileTime em parceria com a empresa de pesquisas on-line Opinion Box. A rede permite grupos com 200 mil pessoas, além de compartilhamento irrestrito.

Em poucas horas navegando, é possível encontrar grupos de venda de armas, drogas e CPF e compartilhamento de pornografia infantil. Apologia ao nazismo, comércio ilegal de imagens e desinformações sobre a vacina contra a covid-19 também proliferam — mais de 50 mil grupos foram formados na plataforma com essas finalidades.

Também é fácil encontrar canais de venda de notas falsas de real, em que criminosos fazem negociação diretamente com os inscritos; centenas de grupos destinados à disseminação de conteúdo falso; e comercialização de dados pessoais por meio de programas automatizados.

Comunidade de CACs (caçadores, atiradores e colecionadores) e simpatizantes de armas são assíduos de grupos do Telegram. Em espaços que chegam a dezenas de milhares de pessoas, revólveres, fuzis, munição e acessórios bélicos são comercializados sem regulamentação de órgãos públicos.

Para tentar despistar, usuários lançam mão de “truques”. O termo “CP” (child pornography), por exemplo, aparece geralmente simbolizado por emojis; a palavra “vacina” é escrita de ponta-cabeça; e “nazi” surge, geralmente, com tipografias góticas.

O cientista de dados Dionísio Silva, da Total Florida International (TFI) no Brasil, explica por que o Telegram é tão atraente para esses públicos. “Um dos principais trunfos, sua criptografia, é vista com bons olhos pelos criminosos, já que eles enxergam nisso uma menor chance das conversas estarem sendo monitoradas por autoridades. O Telegram também é bem mais fácil e conveniente de ser usado do que a dark web”, ressalta.

Fabio de Sá e Silva, professor de estudos brasileiros da Universidade de Oklahoma (EUA), aponta a necessidade de o país abordar temas como esse. “O Brasil está muito atrasado na discussão sobre regulação de redes sociais, como o debate recente sobre a identificação de perfis do Twitter deixou claro”, aponta. “Até mesmo nos Estados Unidos, onde prevalece uma filosofia de não intrusão do Estado em companhias, as grandes plataformas estão sendo forçadas a prestar contas e a mudar suas políticas.”

O Telegram, porém, não é a única alternativa para os extremistas. Nos grupos, os usuários já se preparam para migrar rumo ao Signal ou Gettr, em caso de controle do aplicativo. “Desde que houve a mudança da política de privacidade do WhatsApp, tem havido uma procura maior por outros aplicativos. Quanto mais se discutir sobre os aspectos de proteção de dados, podemos ter certeza de que, cada vez mais, as pessoas vão procurar outras plataformas”, frisa Nunes.

Com regras de funcionamento menos rígidas, o Telegram também atrai extremistas banidos de redes como Facebook, Twitter e YouTube. É por meio da plataforma, por exemplo, que o blogueiro Allan dos Santos, foragido da Justiça, se comunica diariamente com seus apoiadores. Muito ativo, ele promove ataques às instituições, critica a oposição e espalha fake news. Mais de 121 mil pessoas o acompanham na rede.

O caminhoneiro Marco Antônio Pereira Gomes, conhecido como Zé Trovão, preso desde outubro do ano passado, também usava a plataforma para se comunicar com seus seguidores quando estava foragido no México. Ele chegou a ter 40 mil inscritos no canal oficial — hoje, são 17 mil.

Família Bolsonaro no Telegram

De olho nas eleições, o presidente Jair Bolsonaro e os filhos abraçaram o Telegram. Com mais de 1 milhão de inscritos, ele é bastante assíduo na rede e compartilha diariamente vídeos e pronunciamentos. À frente dos adversários, ele se tornou o pré-candidato à Presidência da República mais influente da plataforma.

Filhos do presidente também são usuários. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem 92 mil inscritos; o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), pouco mais de 69 mil; e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), 52 mil.

Procurado, o Telegram não retornou os pedidos de entrevista feitos pelo Correio.