9 de março de 2021Informação, independência e credibilidade
Alagoas

Sesi e Senai formam primeira turma do Novo Ensino Médio no Brasil

Protagonistas de uma experiência pioneira no país, 198 estudantes concluem Novo Ensino Médio, sendo 40 em Alagoas.

Todas as matrículas no ensino médio, a partir de 2021, seguirão o novo modelo em Alagoas | Assessoria

Depois de três anos de uma experiência pioneira, o Serviço Social da Indústria (Sesi), em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), forma, nesta quinta-feira (17), 198 estudantes de cinco estados – Alagoas (40), Bahia (51), Ceará (20), Espírito Santo (57) e Goiás (30). É a primeira turma do Novo Ensino Médio no Brasil, formada no chamado Itinerário V, que associa o ensino regular à formação técnica e profissional.

Os alunos ingressaram com gratuidade e 81,5% vieram de escolas públicas, 87% são da classe D e 13% são classe C. Receber o certificado do Ensino Médio e do curso técnico de Eletrotécnica, em meio às dificuldades impostas pela pandemia e pela realidade socioeconômica das famílias, é a primeira conquista de uma nova trajetória que eles começaram a escrever em 2018.

A estrutura Sesi Senai possibilitou adaptar as aulas para o modelo a distância e cumprir o calendário escolar sem prejuízos na formação. O curso de Eletrotécnica foi escolhido para as primeiras turmas após pesquisa em âmbito nacional, considerando a demanda de profissionais. Por atuar em diferentes segmentos com manutenção, projeto e execução elétrica e eletrônica, o técnico em eletrotécnica é um dos mais requisitados, com salário médio de R$ 1.700,00 a R$ 3.390,00.

Diretor-superintendente do Sesi e diretor-geral do Senai, Rafael Lucchesi explica que as organizações são a referência nacional para implementar a formação técnica e profissional. Enquanto as escolas públicas e privadas têm até 2022 para implementar e estão dando os primeiros passos, a rede forma a primeira turma após três anos de muito aprendizado.

“Por mais de um século, tivemos um mesmo modelo de ensino, que não acompanhou as mudanças tecnológicas e as necessidades do mercado de trabalho e da indústria. O Novo Ensino Médio é a revolução desse modelo, possibilitando aos jovens experimentarem e construírem planos para o futuro profissional”, defende.

A diretora de Educação e Tecnologia do Sesi Senai em Alagoas, Cristina Suruagy, lembrou a implantação desta turma, os desafios, a evolução e conclui que esta formatura é um marco para a Educação brasileira.

“Saímos na frente mais uma vez, a Rede Sesi Senai de Educação no Brasil mostra para o que veio e dá essa contribuição imensa para a Educação do nosso país. Esse modelo veio para ficar, é bem sucedido, e os nossos parabéns a essa turma que abraçou todo esse desafio junto conosco: equipe pedagógica, nossos professores e a esses alunos, nosso desejo imenso que eles saiam vitoriosos disso, que eles vão além e conquistem muito mais”, disse.

Oferta nacional e estadual

Em 2019 e 2020, o Sesi ampliou a oferta do Novo Ensino Médio, que hoje é adotado em 22 estados, 78 escolas, 139 turmas, com 6.538 estudantes matriculados. Além do itinerário V, para o qual existem 20 cursos técnicos, entre Eletrotécnica, Redes de Computadores, Programação de Jogos Digitais, Mecatrônica, Meio Ambiente, Automação, Edificações, Informática para Internet, Logística e Alimentos, a rede já oferece os itinerários de Ciências da Natureza e Matemática.

Em Alagoas, já a partir do ano letivo de 2021, todas as turmas a partir do 1° ano serão ofertadas no modelo do Novo Ensino Médio.

O Novo Ensino Médio

Estabelecido pela Lei nº 13.415/2017, o Novo Ensino Médio prevê aumento da carga horária, de 2400 horas para 3000 horas, composta 60% pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e 40% pelos itinerários formativos: Linguagens e suas Tecnologias, Matemática e suas Tecnologias, Ciências da Natureza e suas Tecnologias, Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e Formação Técnica e Profissional.

O aprendizado é por área de conhecimento, com foco no desenvolvimento de competências e habilidades e não mais por disciplinas. A abordagem interdisciplinar incentiva trabalhos em grupo, o autoconhecimento e o protagonismo na construção de um projeto de vida e de carreira.

O modelo de ensino também está alinhado à abordagem educacional conhecida como STEAM – acrônimo em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes/Design e Matemática. Além da carência de profissionais nas áreas de engenharia e tecnologia, o Brasil caiu no ranking em ciência e matemática na última edição do Pisa, Programa Internacional de Avaliação de Estudantes.

Outra vantagem, no que diz respeito ao itinerário formativo técnico profissional, é que ele contempla o estágio e a aprendizagem, que auxiliam o jovem no ingresso no mercado de trabalho e na geração de renda – um dos principais fatores para o abandono nessa etapa escolar.

Nos países-membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 48% dos estudantes do ensino médio fazem educação profissional; no Brasil, índice não chega a 10%. A formação prepara o aluno para os desafios atuais, com competências ligadas à indústria do futuro, o que contribui para a empregabilidade dos jovens, a capacidade inovativa das empresas, a produtividade e a economia do país.

De acordo com o IBGE, 44,2% dos brasileiros de 14 a 17 anos e 31,4% dos de 18 a 24 anos de idade estão desempregados e em busca de trabalho.

Cases de Alagoas

Nos três anos de formação, estudantes, pais e docentes relatam amadurecimento profissional e pessoal dos formandos.

A diarista Elisângela Pastora da Silva, 40 anos, é mãe do Carlos Eduardo dos Santos Silva, 18 anos. Para ela, o filho ter um diploma e uma profissão mostra que, apesar de todas as restrições financeiras enfrentadas pela família, o amor, a união e o esforço preenchem qualquer dificuldade. Carlos será o primeiro da família a ter o ensino médio e uma profissão técnica. Elisângela estudou até a antiga 7ª série do ensino fundamental e o pai de Carlos cursou até a 4ª série do ensino fundamental.

Para Carlos Eduardo dos Santos Silva, a principal descoberta a robótica, que resultou em um fascínio pela tecnologia. “Não conhecia nada de robótica, comecei a ter contato quando a minha turma foi convidada para participar de um campeonato. A gente foi aprendendo e eu me apaixonei e me dediquei muito a isso”. Assim que terminar o ensino médio, ele pretende trabalhar na área de eletrotécnica e começar uma faculdade nos próximos dois anos. “Eu já sei a faculdade que eu quero ir. Só que ela é particular. Por isso, eu tenho que ter autonomia”.

Kettlen Caroline Rocha Lima Abreu, 17 anos, inspira familiares e amigos pelo foco e dedicação. Filha de técnica de enfermagem e vigilante, a jovem sonha em ser médica e se esforça pela carreira desejada – além da carga horária normal, estuda no contraturno e nos fins de semana para se preparar para o Enem. Moradora de Jacintinho, bairro popular de Maceió, a garota precisa sair de casa às 10 horas para chegar às 12 horas no SESI em Benedito Bentes. O que mais a surpreendeu no novo modelo foi o estímulo dos professores à criatividade, aos debates e ao desenvolvimento de habilidades e competências. “Eram muitos trabalhos e a gente sempre tinha algo para fazer, para nos estimular. Eu aprendi na escola que a gente tem que sair da caixinha, trazer algo a mais… os professores sempre falam isso”.