26 de outubro de 2020Informação, independência e credibilidade
Brasil

Somente em São Paulo, reabertura de escolas amplia risco de covid-19 para 340 mil idosos

Cerca de 20% dos idosos da capital paulista moram com crianças

A aposentada Maria Elisa Victorino Geraldo, de 72 anos, divide a casa onde mora, na zona leste da capital paulista, com a mãe, Dinah de Rossi Victorino, de 94 anos, a filha e as netas. Ela é uma dos cerca de 340 mil idosos da cidade que coabitam com crianças e adolescentes em idade escolar.

Com a pandemia de covid-19 e a discussão sobre o retorno às aulas presenciais em São Paulo, Maria Elisa teme estar mais exposta ao novo coronavírus quando as crianças voltarem a frequentar a escola.

“Tememos muito o retorno às aulas. Tenho diabetes e minha mãe tem enfisema pulmonar. Aqui em casa temos duas crianças em fase escolar, Francesca, de 14 anos, e Antonella, de 12 anos. Elas devem permanecer em casa, nas aulas online, se isso for opcional até o fim da pandemia. Caso contrário, minha filha, mãe delas, verá como poderá ser feito esse processo”. Maria Elisa Victorino Geraldo, aposentada de 72 anos.

Até este momento, a prefeitura de São Paulo liberou, a partir de 7 de outubro, as aulas presenciais para alunos do ensino superior ou para atividades extracurriculares do ensino infantil, fundamental e médio.

A volta às aulas das escolas públicas e particulares ainda não tem data definida. O prefeito disse que está sendo avaliada a possibilidade de os estudantes voltarem a partir de 3 de novembro.

De acordo com a professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) Yeda Duarte, mais de 20% dos idosos da cidade de São Paulo moram em casas com jovens em idade escolar. Um fato que, segundo ela, precisa ser levado em conta ao se discutir o retorno das aulas presenciais.

O alerta foi feito durante o webinar “Covid-19, 60+: que epidemia é essa?”, promovido pela Agência Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo) em parceria com o Canal Butantan.

“Estamos falando de aproximadamente 340 mil idosos em contato próximo com crianças e adolescentes que vão retornar à vida normal, podem ser [portadores do SARS-CoV-2] assintomáticos e vão trazer essa contaminação para dentro de casa”. Yeda Duarte, a pesquisadora.

Mais de 20% dos idosos da cidade de São Paulo moram em casas com jovens em idade escolar.

Pesquisa

Com o apoio da Fapesp, a professora coordena, desde 2000, o Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE), que busca avaliar periodicamente as condições de vida de moradores do município de São Paulo com 60 anos ou mais.

O dado apresentado no seminário foi extraído da edição mais recente, conduzida entre 2015 e 2017 com 1.236 participantes selecionados para representar o perfil da população idosa da capital.

Nos últimos meses, em parceria com pesquisadores do Instituto Butantan, a equipe do SABE tem investigado como a covid-19 vem afetando esse grupo de voluntários.

Além de entrevistas por telefone para avaliar o impacto da doença e do isolamento social, foram feitos exames sorológicos (para buscar a presença de anticorpos contra o novo coronavírus) em 310 idosos e em todas as pessoas com quem eles mantêm contato frequente.

No caso de indivíduos que apresentaram sintomas suspeitos nos 15 dias que antecederam a coleta, também foi feito o teste de RT-PCR (que detecta o RNA do vírus e é o principal método de diagnóstico da covid-19).

Dados preliminares do SABE-COVID (80% dos resultados tabulados) apontam uma soroprevalência de 4,5% entre os idosos avaliados. Entre seus principais contactantes o percentual foi mais que o dobro: 9,6%.

Segundo Yeda, a maior soroprevalência em bairros periféricos tem relação com as condições de moradia nesses locais. “Há, por exemplo, um maior número de pessoas vivendo na mesma casa. Esse aspecto da desigualdade social precisa ser considerado ao se definir a flexibilização das medidas de controle e os grupos prioritários para vacinação”, destacou.

Infectados em casa

Dados do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe), apresentados no evento pelo médico Paulo Rossi Menezes, membro da Coordenadoria de Controle de Doenças (CCD) da Secretaria Estadual da Saúde, corroboram a avaliação de que a maioria das contaminações entre os idosos ocorreu em casa.

“Quando se olha apenas as curvas das pessoas com 60 anos ou mais o padrão é totalmente distinto. O crescimento não se interrompe quando a máscara é introduzida e se mantém até o fim de junho. Isso reforça a ideia de que os idosos estão sendo infectados dentro de suas casas. As pessoas que moram com eles saem às ruas de máscara, mas tiram a proteção ao retornar”. Yeda Duarte.

Segundo Menezes, os casos confirmados de covid-19 no estado de São Paulo estão concentrados na faixa de 30 a 50 anos de idade, à qual pertence boa parte dos indivíduos que continuaram trabalhando no período de quarentena.

No entanto, os idosos representam três quartos das mortes confirmadas. Desses, 83% tinham uma ou mais doenças crônicas, sendo as principais cardiopatias (52,4%), diabetes (36,5%) e doenças neurológicas (10,4%). Entre as pessoas com mais de 60 anos que precisaram ser internadas após contrair o vírus, 42% evoluíram para óbito.

Agência Brasil

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