
Considerado chega da farra, tarde da noite, e encontra a avó pensativa, devidamente acomodada no sofá cama. Assim, como se o pensamento estivesse sobrevoando nuvens brancas, no mais alto estado de serenidade. Ele estranhou porque, normalmente, dona Nildinha é elétrica. Quase não para.
-Está tudo bem com a senhora, vó?
Com isso ela levanta a cabeça calmamente e convida: – Filho, sente aqui e tome uma taça de vinho comigo…
“É bronca”. Pensou ele, mas foi buscar as taças e o vinho e passaram a degustação de um Pinot Noir da Borgonha. “Delícia”… Saboreou Nildinha, ao tempo em que o neto perguntou novamente: -Agora me conte, o que está acontecendo?
Nildinha se disse preocupada com o mundo, com o meio em que o neto vive e que estava tomando um vinho à meia-noite, que havia comprado para tentar bebê-lo com o ex, Zé Fumacê. Havia ligado, e não teve resposta. -Ele está em outra, vó. Agora está com uma menina de 20 anos. E vai até comprar uma lancha para ela. -Disparou o neto. -É um verdadeiro canalha. Não se enxerga, mas não paro de pensar nele. – Disse Nildinha. -Então é melhor a gente ir dormir. -Reagiu o Considerado.
Nildinha insistiu na degustação do vinho e questionou o dinheiro de Fumacê, a partir da informação de que ele estava querendo se transformar no “véio da lancha”. E prosseguiu: “Eu estou assustada, meu filho. Veja esses dois deputados do Rio de Janeiro que berravam ser contra a corrupção e são flagrados pela Polícia Federal no esquema de mais de R$ 28 milhões. Verdadeiros enganadores da fé alheia e das consciências desavisadas. O que você me diz disso, meu neto”?
-Eu não digo nada vó. Não entendo e, portanto, nada a declarar. -Recuou. -Como é que você não entende se vive no meio dessa gente? – Protestou a vó. -Alto lá, dona Nildinha… Na verdade quem entende é a senhora, que vivia nas rodas de prefeitos, governadores e foi até ao Hotel das Nações, em Brasília, naquela festa organizada pelo “Oio de Kombi”. Provocou o considerado.
-Pare com isso. Já passou faz tempo. Não me lembro mais.
-Mas foi a senhora mesmo quem me disse.
-É. Mas falei por que você anda com essa turma que já fundou até a tal da Igreja dos Araçás dos Últimos dias. E veio reclamar a mim que não pagaram a sua parte. Tenha cuidado!
-Eita vó, não é a turma toda. Na verdade, é o Pastor que encomendou uma comenda na Câmara Municipal e a sessão foi feita na fazenda dele.
-Meu Deus. Essa sua turma está perdendo os limites e a razão. Seu amigo Batoré faz parte disso?
-É sócio do pastor numa banca de advogados de fachada…
-Valei-me Nossa Senhora da Goiabeira!
–Da Goiabeira ou dos Araçás?
-Não importa, qualquer uma. É tudo a mesma coisa.
-E agora eles vão mais além vó.
-Como assim?
-Depois da festa da “encomenda”, o pastor distribuiu balaios de araçás lá na terra dele e já montou outro empreendimento…
–Está vendo aí… O que é agora?
-Animado com os R$ 61 bilhões que os deputados aprovaram para emendas do orçamento secreto, ele montou um projeto com o empreiteiro OS e vão construir 215 tanques de tilápia e camarões de barreiros lá na fazenda Guriatã do Canto Alto.
-Está vendo que eu tenho razão de ficar preocupada com você.
-Eu só quero receber a minha parte vó. Eles estão devendo uns araçazinhos…
-E você fez o quê?
-Eu e o Tonelada ajeitamos umas coisinhas para eles…
–Coisinhas? Então devem ser iguais aquelas do Hotel das Nações…
-Virgem vó e a senhora era uma delas, né não?
-Miserável, filho de uma égua, cabeça de araçá podre. Vá dormir!














