Clã Bolsonaro entra no hall internacional da tragicomédia política

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Durante anos, a família Bolsonaro vendeu a imagem de que estava “combatendo o sistema”. O problema é que, vistos de fora, eles parecem mais um grupo de parentes brigando no churrasco enquanto a casa pega fogo. E o detalhe cruel é que até o sisudo Financial Times – jornal que costuma tratar banqueiros falidos com a emoção de um contador lendo bula de remédio – perdeu a paciência com o clã.

Ao longo dos últimos anos, o jornal britânico descreveu Jair Bolsonaro como alguém capaz de “minar instituições”, flertar com aventuras autoritárias e transformar crises em método de governo. Em outra ocasião, o FT resumiu o governo como uma mistura de “O Médico e o Monstro”, com a parte monstruosa vencendo de goleada.

É um feito raro. O sujeito precisa se esforçar muito para assustar investidores britânicos – gente que sobreviveu a Thatcher, Brexit e ao mercado imobiliário de Londres. Ainda assim, Bolsonaro conseguiu.

O mais impressionante é a coerência estética da família. Jair fazia motociata em meio ao caos institucional. Eduardo passava temporadas nos EUA como um intercambista da extrema direita global. Carlos transformava redes sociais em laboratório de paranoia digital. E Flávio parecia viver eternamente numa névoa de “explicações” sobre rachadinhas, assessores e coincidências bancárias.

Tudo embalado por um patriotismo performático que consistia basicamente em bater continência para bandeira americana, repetir slogans contra “globalistas” e reclamar da imprensa enquanto concedia entrevista para imprensa internacional.

O Financial Times também apontou algo quase poético: Bolsonaro se elegeu prometendo acabar com a “velha política” e acabou abraçado ao Centrão como um náufrago agarrado num botijão de gás. A revolução moral virou loteamento de cargos com cashback ideológico.

Na economia, a promessa era de choque liberal. O resultado foi uma mistura tropical de populismo fiscal, crises artificiais e investidores fugindo mais rápido que ministro da Saúde em coletiva. O próprio FT observou que Bolsonaro conseguiu prejudicar simultaneamente a saúde pública e a economia – combinação rara até para padrões latino-americanos.

Mas talvez a maior ironia seja outra: o bolsonarismo sempre se vendeu como símbolo de força, virilidade política e disciplina militar. Na prática, entregou um governo permanentemente ressentido, reativo e obcecado com inimigos imaginários. Era um movimento que prometia restaurar autoridade, mas passava o dia brigando com vacina, urna eletrônica, jornalista, artista, governadores, STF, ONU, Leonardo DiCaprio e, ocasionalmente, o próprio bom senso.

No exterior, a imagem ficou cristalina: enquanto outros líderes tentavam parecer estadistas, Bolsonaro parecia um comentarista de grupo de WhatsApp que inexplicavelmente ganhou acesso ao Palácio do Planalto.

E assim o Brasil virou estudo de caso internacional. Não pela potência econômica prometida, nem pela modernização conservadora sonhada pelos apoiadores, mas porque o mundo observava, perplexo, até onde uma dinastia política movida a ressentimento, algoritmo e live de quinta-feira conseguiria ir.

Foi longe.

Só não exatamente na direção que prometeu.

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