
Com aprovação do Senado por 47 votos a 32, o advogado geral da União, André Mendonça, vai ocupar o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal, após a indicação do amigo Jair Bolsonaro, que quer na corte um ministro “terrivelmente evangélico”.
Logo que tomar posse na vaga deixada pelo ministro Marco Aurélio Mello, Mendonça deverá participar do julgamento de temas polêmicos envolvendo assuntos que vão da descriminalização do porte de drogas para uso pessoal e o direito ao aborto a recursos envolvendo o principal adversário político de Bolsonaro no momento, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A possibilidade de que ele venha a julgar um caso envolvendo o direito ao aborto é real uma vez que tramita no STF uma ação proposta pelo PSOL prevendo a descriminalização do aborto.
Em 2020, Mendonça se manifestou sobre um caso semelhante envolvendo a possibilidade de interrupção da gestação em casos de fetos com microcefalia causada pelo zika vírus. Na ocasião, o então AGU se manifestou contra o pedido.
“Lamentável esse pedido. Um retrocesso à sociedade […] Se trata, no pedido, da constitucionalização de uma segregação das espécies que foi presente no regime nazista”, afirmou.
Mendonça também poderá ter que julgar recursos da defesa do ex-presidente Lula, uma vez que além de integrar o plenário do STF, ele deverá fazer parte da 2ª Turma do tribunal, onde têm sido julgados muitos dos casos da Operação Lava Jato envolvendo o petista.
Ele, aliás, já defendeu a operação no passado. Em agosto, quando ainda era ministro da Justiça, em entrevista ao canal Globo News, ele disse que as “conquistas e as descobertas” feitas pela operação não poderiam ser desqualificadas.
“Temos que avaliar a operação Lava-Jato como uma conquista para o nosso país […]. Se há erros, se equívocos foram cometidos, que sejam corrigidos. Mas não podemos desqualificar as conquistas e as descobertas que foram feitas a partir da operação Lava-Jato”, disse o ministro.
Para o advogado e professor de Direito Pierpaolo Bottini, não é possível prever qual será o posicionamento de um ministro do Supremo tomando como base apenas quem o indicou.
Ele diz que, se por um lado, é possível que haja convergência entre posições ideológicas entre Mendonça e Bolsonaro em temas como aborto e a política sobre drogas, por outro, não seria possível afirmar que o futuro ministro possa usar seu cargo no Supremo para prejudicar Lula ou outros adversários políticos de Bolsonaro.
“Nas matérias sobre comportamento, é possível que haja alguma similaridade nas posições, algumas das quais já foram inclusive, expressas por Mendonça. Mas não diria que ele votaria contra um adversário de Bolsonaro em recursos na esfera criminal, por exemplo. São assuntos muito técnicos e não vejo essa possibilidade. Seria desmerecer demais o cargo”, afirma.
O professor associado de Direito do Insper Diego Werneck Arguelhes estuda o comportamento de ministros do Supremo e diz que os estudos mais recentes não conseguiram cravar que a escolha presidencial é um fator determinante para o comportamento individual dos magistrados. Ele diz que há dois fatores principais que ajudam a explicar esse fenômeno.
“O primeiro é que o Supremo é um tribunal muito sensível à conjuntura política do país. Isso pode fazer com que um ministro vote contra os interesses de quem o indicou. O segundo é a independência dada aos magistrados. Depois de assumirem, não há grandes riscos para eles em votarem contra quem os indicou”, afirma o professor.
Conservadorismo e Lava Jato
Arguelhes segue a mesma linha de Bottini e diz a tendência é de que Mendonça decida temas sensíveis como aborto e drogas com base nas posições mais conservadoras que ele mesmo já expressou anteriormente.
“Não se trata de saber se ele será conservador ou não. A questão é saber quão conservador ele será nesses temas”, afirma o professor.
Segundo Arguelhes, a principal dúvida em relação ao que se pode esperar de Mendonça caso ele tenha sua indicação aprovada pelo Senado é sobre o chamado “legado” da Operação Lava Jato. O professor argumenta que ele tem uma trajetória profissional muito ligada aos órgãos de controle e ao combate à corrupção. Por outro lado, o governo do presidente Bolsonaro não teria, de acordo com o professor, se notabilizado por fortalecer essa pauta.
“A dúvida que hoje os senadores também têm é sobre como ele vai se comportar em relação à Lava Jato e ao combate à corrupção se for aprovado. A dúvida é se teremos um Mendonça mais parecido com o início da sua trajetória profissional ou se teremos alguém mais próximo do integrante do governo Bolsonaro”, disse. (Com BBC News)














