Por Thomás Beltrão*

Fazendo uma rápida retrospectiva desta última década vamos identificar um verdadeiro festival de erros institucionais e de sectarismos de personalidades que integram os altos escalões da chamada democracia liberal. Ainda ontem, não foi anteontem, setores liberais aliaram-se ao fascismo bolsonarista para investir com toda virulência contra o PT e as forças de esquerda em geral.
Por mais de uma década enfrentamos uma artilharia pesada, com um Congresso reacionário, a quase totalidade do supremo, com exceção do ministro Lewandowski, tribunais superiores, inferiores – e até setores de centro esquerda acovardados – protagonizaram um momento histórico terrível, digno de esquecimento. A grande imprensa, liderada pela rede Globo, reverberava as ideias, ações e agressões destes setores. O objetivo, não era outro, nem nobre, e sim transformar as forças de esquerda e progressistas em organizações criminosas, e conseguiram. Hoje, nós saímos daquele quadro dramático, apesar de continuar existindo enfrentamento
Durante um certo momento, efêmero é bem verdade, foi muito difícil ser militante progressista e de esquerda. Sofremos alguns reveses. Perdemos pessoas boas, influenciadas pelo canto de sereia dos liberais aliados ao fascismo bolsonarista, mas que logo se reposicionaram condignamente. Outros nem tanto, transformaram-se em renegados, detratores de si e dos companheiros de décadas de luta. Esses não merecem mais que o esquecimento histórico.
Nesse tabuleiro de xadrez montado, peças estrategicamente e taticamente bem distribuídas, a equação de devastação das forças de esquerda e progressistas jogava por si só, sem precisar de um grande timoneiro à frente. Começaram comendo pelas beiradas prendendo lideranças intermediárias, em seguida evoluíram para a prisão da maior liderança popular da América Latina, o presidente Lula. No último e principal ato da orquestração destituíram a presidente Dilma por pedaladas fiscais, aos olhos de hoje, canalhice em estado puro.
A profunda desconstrução e desorientação política provocada por este amplo e avassalador movimento de forças conservadoras e reacionárias resultou na redenção do fascismo bolsonarista. A vitória do Bolsonaro inaugurou uma nova fase da vida brasileira. A nova orientação era negar tudo! Das conquistas previdenciárias e trabalhistas, passando pela agressão as instituições democráticas, até a substituição da diplomacia política, pelo método da agressão destemperada, tosca, geralmente encenada num cercadinho para idiotas úteis.
A aliança de setores liberais com o fascismo bolsonarista mostrou-se um retumbante erro e possibilitou a sua vitória na eleição seguinte. Foram quatro anos de sobressaltos e desconstrução de conquistas históricas. O despreparo escandaloso de Bolsonaro e o desastre do seu governo foram inspiradores para o início da reversão política brasileira. O mais estranho e verdadeiro é que essa reversão foi catapultada às alturas pelo hacker Delgatti (apelido vermelho) que desmoralizou o conluio de Sérgio Moro e Dallagnol, abrindo caminho para a revisão do grande erro cometido pela justiça brasileira, que foi a prisão arbitrária do presidente Lula.
Só e somente só a recuperação dos direitos políticos do Lula armou o povo para derrotar Bolsonaro. É claro que Bolsonaro nunca trabalhou com a hipótese de eleição; quem quer participar de um processo eleitoral não erra tanto como Bolsonaro. Ele sempre trabalhou com a certeza do golpe em última instância. Sabia como ninguém o descontentamento dos militares com as esquerdas.
O general Heleno defendia o golpe antes da derrota nas urnas. Sabia da dificuldade da reversão depois do fato consumado. Bolsonaro, provavelmente foi convencido pelo núcleo político de que tinha boas chances de vitória pela força da máquina. Jogaram dinheiro de avião, bloquearam estradas, disseminaram fake news pelo país inteiro e perderam a eleição!

Enquanto a imprensa noticiava silêncio e abatimento, Bolsonaro e seu grupo de aloprados tramavam o golpe. Tudo era possível, menos a posse do Lula. Pode-se discutir a eficiência ou ineficiência da tentativa golpista, mas não me parece honesto negar a tentativa de golpe. As evidências são inúmeras, minuciosamente detalhadas pela polícia federal, a delação premiada do coronel Cid e os testemunhos dos comandantes militares não deixam margem para dúvidas. Claro que houve tentativa de golpe! Bolsonaro é um voluntarista despreparado e tentou arrastar as forças armadas para um golpe de estado.
Louve-se os militares legalistas que interpretaram o sentimento do povo brasileiro que majoritariamente era contra qualquer tentativa de golpe de estado. Os comandantes sabiam que a resistência seria maior e mais intensa que a oferecida em 1964 e resultaria na morte de milhares de brasileiros. As milícias bolsonaristas, tão despreparadas ou mais, matariam adversários como quem mata bode nas esquinas do Brasil!
Até aqui tudo bem. Ponto! Agora temos que estimular que deste limão saia uma limonada. A reprodução pura e simples do sectarismo que se abateu sobre as forças progressistas e de esquerda não nos interessa. Amanhã se voltará contra nós novamente.
O arcabouço jurídico brasileiro é rígido e inflexível. Isso estimula os julgadores a serem dogmáticos e sectários. A ordem natural de um julgamento desta magnitude já foi invertida. O normal é separar e punir primeiro o núcleo ideológico, depois os que tiveram participação indireta, passiva e, por último, os idiotas úteis.
A inversão da ordem vai exigir correção posterior de penas. Não tem como um idiota útil pegar 15, 17 anos de cadeia, isso é uma exorbitância. A pancada de 20 anos de cadeia tem que ser no núcleo ideológico; este é composto por: Bolsonaro, Braga Neto, Eduardo Bolsonaro, Anderson Torres, Ramagem, Felipe Martins e os chamados Kids pretos ou forças especiais. Posso ter esquecido um ou outro. Os demais devem ter uma punição proporcional à sua participação.
Enfim, em se tratando de militares fora do núcleo ideológico, penso que o supremo deveria levar em consideração a opinião dos militares legalistas. Eles foram muito importantes para evitar o golpe e não devem ser negligenciados.
É o que penso, sinceramente. E tenha um bom dia.
*Thomás Beltrão é engenheiro civil, ex-vereador de Maceió, ex-presidente do DCE da Ufal e militante politico do campo progressista.














