20 de janeiro de 2021Informação, independência e credibilidade
Brasil

Cloroquina causará mais mortes, afirma Mandetta

Ex-ministro afirma ainda que pais só viveu 1/3 da crise e governo já foi avisado de surto de mortes

Em entrevista à Folha, ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta é enfático e afirma que resultados iniciais de estudos que recebeu ainda no governo já indicavam riscos no uso de cloroquina para pacientes com quadro leve do novo coronavírus.

Segundo os dados, este medicamento pode elevar a pressão por vagas em centros de terapia intensiva e provocar mortes em casa por arritmia. Ele diz ver na pressão de Bolsonaro pela cloroquina uma tentativa de estimular o retorno das pessoas ao trabalho.

Mas apesar da ansiedade do presidente, Mandetta acredita que o país atravessou até o momento apenas 1/3 da crise e deverá ter pelo menos mais 12 semanas “duras” adiante.

Confira os principais trechos:

O sr. foi demitido no meio da pandemia. Seu sucessor não durou um mês no cargo. Qual deve ser o impacto da queda de mais um ministro?

Este último mês foi perdido, sem nenhuma ação positiva por parte do ministério. (…) o que assistimos foi a demissão de todo o segundo e o terceiro escalão do ministério, sem colocar ninguém no lugar. Isso é o pior dos mundos. O Ministério da Saúde está hoje uma nau sem rumo. Foram 30 dias de um ministério ausente.

São dois meses desde a primeira morte confirmada e passamos de 15 mil óbitos. Como vê o cenário atual?

Disse uma vez que teríamos 20 semanas muito duras pela frente. Esses dois meses que passaram são 8 semanas. Para as outras 12, são mais 3 meses. Estamos vivendo o primeiro terço disso, temos o segundo e o terceiro para concluir.

Alguns estados já adotaram “lockdown” (confinamento estrito). Está na hora desse tipo de medida?

Tínhamos colocado no começo que, se passar de 80% a ocupação de leitos, tem que começar a considerar lockdown.Mas tem estado trabalhando com 98% e deixando o povo andar na rua. Aí começa a morrer paciente cianótico [azulado por falta de oxigênio] porque o oxigênio não entra. Está morrendo na UPA, em casa, e não tem vaga de CTI.

O presidente anunciou que vai mudar o protocolo de uso da cloroquina também para casos leves da Covid-19. Há riscos?

Sabemos que, se não fizer absolutamente nada, se você tem 25 anos, é saudável e tiver a Covid, teria 99% de probabilidade de ter uma forma leve e sair bem. Se eu te tratar com a fita do Senhor do Bonfim e cloroquina, teria 99% de chance. Com camisa do Botafogo e cerveja preta, também. Se tiver com 68 anos, aí teria mais chance de complicar.

Falaram: “então vamos testar”. Começaram a testar a cloroquina pelos graves que estão nos hospitais. Do que sei dos estudos que me informaram, e não concluíram, 33% dos pacientes que estavam em hospital, monitorados com eletrocardiograma contínuo, tiveram que suspender a cloroquina porque deu arritmia que poderia levar a parada cardíaca. Esse número assustou, é alto.

Alguns médicos falaram que “não, a cloroquina tem que usar no primeiro dia para evitar complicação”. E aí você começa a ter um problema. Se todos os velhinhos tiverem arritmia, vão lotar o CTI, porque tem muito mais casos de arritmia que complicação de Covid. E vou ter que arrumar CTI para isso, e pode ser que morra muita gente em casa com arritmia.

Por isso falei que ia adotar para os casos graves e gravíssimos em hospital, e fora do hospital o médico assistente que decida e corra o risco. O que o presidente quer é que o ministério faça como se fosse uma prescrição, para que em todas as unidades de saúde, mesmo sem confirmação da Covid, seja entregue a cloroquina.

Tudo baseado nessa coisa de que um médico falou: ‘acho que é bom’. Mas ninguém colocou no papel, ninguém demonstrou. A médica Nise Yamaguchi é uma que, quando você pergunta ‘onde está escrito isso?’, fala: ‘é a minha impressão’.

O que leva à campanha pela cloroquina?

A ideia de dar a cloroquina, na cabeça da classe política do mundo, é que, se tiver um remédio, as pessoas voltam ao trabalho. É uma coisa para tranquilizar, para fazer voltar sem tanto peso na consciência. Se tivesse lógica de assistência, isso teria partido das sociedades de especialidades [não do presidente]. Por isso não tem gente séria que defenda um medicamento agora como panaceia.

O Donald Trump defendeu a cloroquina, mas voltou atrás e parou. Nos EUA, isso gera processo contra o Estado. Aqui no Brasil não, se morrer, morreu.Para mim foi isso que fez com que o Teich falasse: ‘Não vou assinar isso. Vai morrer gente e ficar na minha nota’.