Domingo de carnaval, Considerado veste a fantasia do Pateta e parte para Bahamas, ao lado da avó, sonhando com uma folia gigantesca. Ela, em uma sandália de salto Luiz XV, vestiu um biquini branco e por cima uma saída de praia rendada, no mais puro estilo filé do Pontal da Barra. Partiram ao som de “Oh abre alas que eu quero passar” …
Em Bahamas, área de mansões dos novos ricos de uma região litorânea tupiniquim, chegaram animados, exatamente na hora em que um trio elétrico arrastava um bloco tocando o som da Bahia de todos os santos:
“Vamos abrir a roda enlarguecer
Vamos abrir a roda enlarguecer
Tá ficando apertadinha,
Meu amor, abre a rodinha,
Por favor abre a rodinha,
Por favor abre a rodinha …
Foi aí que dona Nildinha caiu na frevança imitando todas as coreografias que a moçada fazia, de rua em rua, de praça em praça. Pura animação para a vozinha que já está chegando aos 70, sem preconceitos de etarismo, nem tristeza alguma para se lamentar. Já o neto, quando viu a animação dela desistiu da folia e foi ver se encontrava alguns conhecidos na área.
Em uma das ruas, uma mansão bem iluminada, um grupo animado dançava e cantava em alto som. Pensou que era a casa do empreiteiro OS, onde imaginava tomar uma cerveja. Mas, quase que era xingado de tanto olhar para dentro da casa, do outro lado da calçada. Um segurança apareceu à porta, olhou-o com a cara feia e ele resolveu sumir da cena. Mais adiante entrou na rua do Pastor. Na casa, nem uma sombra, nenhum movimento. Aliás, só o balanço de uns pequenos galhos de um pé de araçá, recém-plantado no jardim.
Entre resmungos e lamentos seguiu em frente, saindo à rua principal. Logo estava em frente à casa do “senhor dos remédios”. Lá só 3 carros pretos na garagem. Nem zumbido se ouvia. -Cadê esse povo? – Resmungou sob a luz de um sol de esturricar.
Aí bateu a tristeza e se sentou em um banco da praça com fome e sede. Foi à folia com a avó feito boca de ponche. Não levou nem uma garrafa de água. Nesse caso específico, seguiu o estilo de Paulo Motosserra. Mas a tristeza aumentou ainda mais quando viu a vozinha aparecer no início da rua, mais de uma hora depois. Ela chegou mancando com uma sandália pendurada no dedo. A outra jogou fora. O salto quebrou e ela caiu, após uma agachadinha coreográfica, ralando os joelhos. Mas, nem assim perdeu a animação.
-Que houve meu filho, você aí com essa cara de tristeza?
-Eu é que pergunto?
–Besteira. Tropecei, a sandália quebrou e joguei fora. E essa aqui vou levar de lembrança. Já faz parte da fantasia.
-Então vamos embora.
-Nada disso, vamos tomar umas na casa de “Paizinho”!
-Que “Paizinho” vó?
-Aquele seu amigo procurador que diz que é o pai do Batoré.
-Pelo amor de Deus vó. Deixe isso pra lá e “vambora” …
-Não senhor, vamos lá que ele é quem comanda o bloco “Os Coroas de Batom”.
-Vó, nesse bloco só tem “bozoide” e os caras desfilam só de cueca…
-Ah é nesse mesmo que quero ir. E vou olhar pra cara de tudinho.
-Vó eles desfilam até à beira do rio e lá tiram as cuecas e mergulham na água fria. Todo mundo nu.
-Não tem problema, quando eu chegar lá eu vou tirar meu biquini.
-É vó. Pelo jeito a senhora não vai olhar só para as caras deles.
-É claro, meu filho. Quem está morto aqui é você.














