Por Osvaldo Epifanio, O Pife.

O ABC é, digamos, uma porção de terra verde encravada aos pés da
Mata do Cruzeiro. ABC é a alcunha de Vila Pedreira, lugarejo arejado de
Fernão-Velho. Não se sabe ao certo a origem do nome de batismo, nem
do apelido. (Qualquer dia desses perguntarei ao renomado
fernãovelhense Guerréu, dentista veterano e tradutor dos causos daquele
lugar que ele chamava de país, Miguel Pessoa). Lá, no ABC, o campo da
Fábrica é o seu maior centro turístico. Muitos times alagoanos, no
passado, deram seus chutes de craques naquele gramado seco e
permanente. São Domingos, CSA, Ferroviário, Lisbonense. Havia uma
“inrronha” histórica. O rapaz de Fernão- Velho “entronxava” a venta para
os meninos da Vila Pedreira. O Cai-queda dizia que no ABC não existia luz
elétrica, e que os maloqueiros de lá tinham inveja da “fulerajem” que
morava onde tudo acontecia. Bailes, festas, desfiles, igreja, calçamento,
Sede Othon, Recreio Operário, a “Jazze” (banda de Jazz, a “Pompom”, do
Veríssimo Ferreira). Tudo besteira! Tudo era de todos. Goiabeira,
Matadouro, Rua do Cajueiro, Alto São José, Forno se faziam presentes em
todos os eventos. Mas que existia uma peleja existia.
O racha da Praça São José era um torrão de batalha, o picadeiro do
pisa pé. “Bola, meu filho, só traz pereba, arranhamento, bolha e perna
quebrada. Repare o Miço Bomba, num para de tomar injeção. A Dona Loló
até já sajou um caroço dele, saiu um carnegão!”, dizia a Fuete.
Bembém, Paconé, Coquinha, Pinicainha, Marroque, Vavá Papai
Oião, o primeiro time. Calango, Adiel Rato, Chachumbeta, Miguel Oreinha,
Cambebe, Calolinha e Pitiu, o segundo quadro. E quando os meninos do
ABC chegavam, já sabe, a cara virava, mas jogavam assim mesmo. Era
arretado, a coisa ficava mais emocionante. Não tinha graça uma pelada
sem eles. Mas o Cacate da Rua do Pescoço dava conta com o apito-de
chama-rolinha.
— Zé Aço, bota as traves, a areia tá fria, ramo – gritava o Dedé Godê
— O Tereta tá vindo ainda com a bola.
— Porra!
— Tem um cara novato aqui que tem uma bola.
— Quem?
— Ele tá com o Piticó.
— Cadê? Piticó, como é o nome dele?
— Marcelo Firmino. Firmino, só.
Biu Beleza, Bajojo e Catefone nunca tinham visto aquele baixinho (O
pirralha tinha uns doze anos, com os cabelos de ‘’black power” , e eles
nem sabiam que era de Paulo Jacinto).
Os caras boataram que ele era do dente- de- leite do CSA, outros
achavam que era do ABC.
— Ei, vem cá, disse com cara feia o Almaboa, tu é do ABC é?
O Firmino, com a voz pra baixo, sem entender aquela pergunta —
mas tinha que responder — sapecou:
— Não, sou do Ginásio, de Paulo Jacinto.














