Por Mácleim Carneiro*

Ter a possibilidade de socializar, na Depois do Play, o álbum da cantora e compositora Sílvia Nazário, lançado em 2019, é ter, ao mesmo tempo, um restinho de esperança de que, pelo prisma individual, este ano eleitoralmente difícil, apesar de tudo, ainda poderá ser auspicioso pelas nossas diferenças. As diferenças dos que têm qualquer forma de arte como ferramenta poderosa. Por outro lado, coletivamente, pensando o Brasil como um todo, as perspectivas diante de tamanha polarização e do nosso frágil processo civilizatório, não são tão auspiciosas. É pouco alentador encontrar-se diante de tal realidade, mas, como já afirmou o mestre Herbie Hancock, “o negócio da música é uma fração do negócio da vida. Viver com integridade criativa pode trazer benefícios futuros nunca imaginados.”
O álbum Tons Azuis, da alagoana Sílvia Nazário, trata da vida que segue em vários tons e seus matizes. Para começar, é um álbum comemorativo de 30 anos de carreira, ao passo em que também celebra outro tanto de tempo em que ela estuda e ensina a filosofia Raja Yoga Brahma Kumaris. Porém, definitivamente, engana-se quem pensar que este é um álbum feito para cheirar incenso. Na verdade, Tons Azuis é o sexto disco da carreira de uma cantora e compositora que ganhou o troféu Caymmi – o Grammy da música da Bahia – antes de cruzar o Atlântico e fazer o processo inverso das caravelas portuguesas, aportando definitivamente na terra de Camões. Lá, ela construiu sua carreira, cada vez mais sólida.
Pelo Mundo
Certamente, os fatos acima ainda não são capazes de revelar, aos que não conhecem Sílvia Nazário, a dimensão do seu talento e trabalho. Pois bem, ela é natural aqui do aquário, alagoana da gema, embora resida em Portugal há mais de 35 anos. Na verdade, já é uma lusitana de vida e passaporte. Mas nada que a impeça de cantar com toda brasilidade que Deus lhe deu. Silvia Nazário saiu de Salvador em fevereiro de 1990, após receber quatro indicações ao Troféu Caymmi e ganhar dois. Contudo, ela iniciou sua carreira aos 13 anos, como atriz e compositora, escrevendo letras para peças musicais. Quando, finalmente, ganhou o mundo, Silvia Nazário levou sua musicalidade para diversos países, entre eles Inglaterra, Alemanha, França, Espanha, Índia, Marrocos, Nigéria e, claro, o nosso belo e judiado Brasil.
O que descobrimos no álbum Tons Azuis é uma cantora e compositora que passeia por caminhos musicais muito próprios, e traz consigo uma profunda e delicada história com a sua música. Aliada a uma interpretação refinada e sensível, apresenta-nos inúmeras possibilidades na fruição de um trabalho singular. Silvia harmoniza um repertório rico em sonoridades, desde as raízes indígenas em sua primitividade, passando pelo chorinho e todo o leque do que representam o samba e a bossa, em termos de brasilidade, além, claro, de um flerte mais que feliz com o Jazz
Os versos de Sueli Costa, dizem: “Quando o mar tem mais segredo / Não é quando ele se agita / Nem é quando é tempestade / Nem é quando é ventania / Quando o mar tem mais segredo / É quando é calmaria.” Apropriada dessa verdade, Sílvia Nazário abre o álbum com ‘Um Mar de Amor’, uma canção de sua autoria, sobre o poema incidental do poeta português João de Barros. Assim, ela navega na calmaria de um mar e seus segredos profundos, que serão revelados em marés cíclicas, que se renovam em cada faixa desse admirável trabalho. Logo em seguida, o mar continua sendo tema para o belo e suave samba-bossa ‘Tons Azuis’ (Claudio Kumar e Sílvia Nazário), que dá título ao álbum e aponta setas para um trajeto sofisticado, que delineará as onze faixas deste álbum. É aqui, também, que encontraremos a clareza da base sonora (bateria, baixo e piano acústico), que imprimirá uma estética reducionista, onde menos é mais! Além disso, temos o piano de Pablo Lapidusas a nos esclarecer que o diálogo, ao longo de todo o álbum, será em nível elevado.
‘Ascensão’, um samba que tem música de Sílvia Nazário, sobre um poema de João de Barros, é mesmo uma espécie de ascendimento, algo que se move para cima, em relação ao que lhe precedeu. Tem na introdução um tamborim, que não permite dúvidas sobre essa intenção. Essa faixa reserva-nos algumas surpresas interessantes, pois aparece pela primeira vez um sutil e suave naipe de metais, com uma dinâmica altamente adequada. Logo após a introdução, vem uma simpática pincelada na estrutura melódica, por meio de um vocalise inesperado para aquele momento, mas que funciona super bem. Outra coisa curiosa, é que o poeta João de Barros é remanescente do final do século XIX, portanto, a linguagem da sua poesia é bem característica, com frases assim: “harmonioso e límpido fulgor”, ou ainda, “dá-me a austera alegria do teu beijo.” Estruturas clássicas, um tanto parnasianas, mas que se tornaram interessantes na malemolência do samba. Ou seja, salta aos olhos, ou melhor, aos ouvidos
Conterrâneos
A faixa 6, ‘Acácias e Margaridas’ (Claudio Kumar e Silvia Nazário) tem em sua ficha técnica dois importantes conterrâneos da alagoana. Carlos Bala (bateria) e Felix Baigon (contrabaixo acústico) cumprem com absoluta maestria suas funções e, de quebra, temos uma incomparável e singular assinatura do mestre Bala. Trata-se de um samba funkeado e vitaminado pela sustança sururu, que, de imediato, sugere um arranjo de metais, mas ele não acontece. E fica fácil querer, pois a faixa 10, ‘Corre Menina’ (Silvio Ricarti e Claudio Kumar), é um samba com pegada bem semelhante e foi contemplado com um naipe de metais pontuando perfeitamente bem. Outro conterrâneo, não menos importante, o baterista Marcio Diniz, agrega imenso valor à interessante ‘Ar de Amor’ (Sílvia Nazário), repleta de sincopes e climas de delicadas nuances, acentuadas pela utilização e execução sensível dos pratos do talentoso Marcinho.
O fato é que ‘Tons Azuis’ é um álbum recheado de belos e bons momentos. Em alguns deles, Silvia Nazário se aproxima bastante do trabalho da portuguesa Maria João, uma bela referência para uma nova tradução do jazz. Por si só, esse fato já garantiria uma avaliação diferenciada para este álbum, pelo parâmetro do que há de melhor na música mundial. Nele, fica evidente uma atmosfera de leveza e cumplicidade com o mundo musical que influenciou a alagoana. Em ‘Tons Azuis’, Silvia Nazário convida-nos para uma viagem pelos caminhos percorridos em seus 30 anos de música, e ainda nos presenteia com essa belíssima obra!
No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!
PULO DO GATO: “Quando a arte se torna maior do que a própria expressão da vida, é ele mesma que traça o destino, desenhando caminhos onde a alma encontra a sua mais autêntica voz.” (Sílvia Nazário)
Ouça aqui: https://music.youtube.com/watch?v=9WNDGmJKZBs

*Mácleim é músico, compositor, cantor, jornalista e crítico de arte














