A recente aprovação da criação da Bancada Cristã no Congresso é mais do que um movimento político — é um sinal de alerta. O Brasil, país de múltiplas crenças e descrenças, decidiu institucionalizar dentro do próprio Parlamento um grupo voltado explicitamente à defesa de valores religiosos. É como se o Estado laico, previsto na Constituição de 1988, fosse empurrado para o banco de trás de uma procissão legislativa.
Não se trata de hostilidade à fé — que, quando individual e livre, é um direito inalienável. O problema surge quando o púlpito invade o plenário e a Bíblia passa a servir como manual de política pública. A “Bancada Cristã” não nasce para representar cidadãos, mas para representar uma crença. E isso, num país que se diz plural, é perigosamente excludente.
Religiosos organizados no poder costumam defender “a família tradicional”, “a moral” e “os valores cristãos”, como se fossem donos da verdade moral e espiritual. Mas, na prática, o que têm feito é transformar a vida alheia num inferno terreno — julgando, perseguindo e tentando legislar sobre o corpo, o amor e as escolhas dos outros. Querem ditar quem pode amar, como educar os filhos, o que se pode ler ou ensinar, e até quem merece ser considerado cidadão de primeira classe.
O curioso é que, enquanto se dizem porta-vozes da fé, essas bancadas frequentemente se alinham a projetos políticos movidos por ódio, autoritarismo e interesses econômicos pouco compatíveis com o evangelho que dizem seguir. Usam o nome de Deus para ganhar voto, mas esquecem que a laicidade é justamente o que garante a liberdade religiosa de todos — inclusive a deles.
O Estado laico não é um Estado ateu. É apenas o reconhecimento de que o poder público não pode ser instrumento de uma fé específica. A laicidade protege o crente e o não crente, o católico, o evangélico, o umbandista, o espírita, o judeu e o ateu. Destruir essa separação é abrir as portas para a tirania moral travestida de devoção.
O Brasil já vive um clima crescente de intolerância. Minorias religiosas são hostilizadas, e debates éticos são interditados sob o pretexto de “defesa da fé”. Quando o Parlamento oficializa uma bancada para representar um credo, dá um passo perigoso rumo à teocracia disfarçada.
A religião pode e deve inspirar o indivíduo. Mas, quando o dogma se torna lei, a liberdade morre. O inferno, afinal, talvez não seja um lugar místico de chamas eternas — pode muito bem ser um país onde poucos se acham autorizados por Deus a mandar na vida de todos os outros.














