15 de junho de 2024Informação, independência e credibilidade
Justiça

Cangaceiro Corisco é absolvido durante Júri Épico

Evento realizado em parceria com a OAB/AL reuniu advogados e estudantes de Direito de todo o Brasil

Com auditório lotado, o Juri Épico do cangaceiro Corisco chegou ao fim na noite do último sábado (13), na cidade de Piranhas, no Sertão de Alagoas. Depois de 8 horas de julgamento, o tribunal do júri proferiu a sentença e Corisco foi absolvido das acusações.

Ao longo do dia, acusação e defesa discutiram sobre as circunstâncias que rodeavam o crime ocorrido na Fazenda Patos, e que vitimou seis pessoas da família Ventura. Para conseguir a absolvição do réu, a defesa alegou a necessidade de fazer um recorte histórico sobre a época do crime e as desigualdades às quais o povo nordestino era submetido naquele período.

O julgamento teve início com a apresentação da banca de defesa e acusação, bem como a introdução do juiz responsável pelo caso, o juiz federal e escritor, Kleiton Ferreira. O profissional fez questão de destacar o entusiasmo em participar da experiência. “Para mim foi uma experiência mágica, eu nunca tinha participado de um júri simulado, é a primeira vez, e ainda um júri com um fato histórico. Eu que gosto tanto de história, que escrevo, tem sido muito bom. Não vejo a hora de ter outro e poder não só participar, como assistir”, citou ele.

A programação seguiu com Corisco sendo chamado para o banco dos réus. O ator Jedson Carlos, de Delmiro Gouveia, ficou responsável pela interpretação do cangaceiro. O ator, inclusive, é sobrinho-neto de Corisco. Logo em seguida, as testemunhas da acusação e da defesa deram início aos seus depoimentos no tribunal do júri. Todos os personagens ouvidos foram interpretados por atores de Pernambuco e Alagoas.

Após o relato das testemunhas, Corisco foi interrogado. Juiz, acusação e defesa fizeram perguntas ao cangaceiro sobre sua história, os fatos que antecederam a chacina e as motivações que levaram Corisco a orquestrar o crime.

No início do debate, a acusação reforçou a crueldade presente no crime contra a família Ventura e a falta de assistência que os filhos da família enfrentaram após a chacina e durante o resto da vida, sem o suporte dos pais e familiares que foram assassinados. A violência empregada em muitos crimes cometidos pelo cangaço contra suas vítimas, na época em que estavam em atividade no Nordeste brasileiro, também foi ressaltada pela acusação.

Já a defesa trouxe à tona o recorte histórico da época, em que o cangaço era uma alternativa para muitos que não possuíam perspectivas e espaço e se rebelavam contra grandes coronéis que dominavam o Sertão. Além disso, a defesa alegou a disparidade de oportunidades e direitos que assolava a realidade nordestina, e ainda assola nos dias atuais, como um elemento fundamental no caso.

Por fim, a pergunta “o jurado absolve o réu?” foi direcionada aos jurados. Em um placar acirrado, com 4 votos a 3, Corisco foi absolvido.

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil em Alagoas (OAB/AL), Vagner Paes, participou de acusação e citou o sentimento de trazer o evento para o estado. “É um sentimento de realização, pois fizemos o maior evento cultural da Ordem, a OAB não tinha em seu calendário um evento artístico, cultural e histórico como esse. Tenho certeza que o sucesso desse evento vai fazer com que o Júri Épico fique permanentemente no calendário da Ordem”, frisou ele.

O presidente da Caixa de Assistência dos Advogados (CAA/AL), Leonardo de Moraes, compôs a banca da defesa e saiu vitorioso do júri. “O sentimento é de alma lavada. A tese formulada pela acusação falava sobre violência, barbárie e sobre excesso, mas se esqueceu do contexto histórico, que é tão importante em um fato como esse”, apontou ele.

Além de reunir inúmeros profissionais da advocacia brasileira, o evento se destacou por trazer vários estudantes de Direito que se deslocaram de diversos estados do Nordeste para assistir ao júri. É o caso da estudante Maria Clara Rocha, que veio direto da Bahia para presenciar o evento.

“Desde muito nova, sempre tive muita curiosidade pela história do cangaço, sempre me senti instigada em estudar sobre, inclusive, todos os meus trabalhos livres da escola eram sobre o cangaço. Ouvir a história de Corisco ser contada foi incrível, e ver ele sendo absolvido foi magnífico, pois eu já tinha na minha cabeça essa concepção. Fiquei muito emocionada”, disse ela.

O Júri Épico de Corisco em Piranhas foi realizado em parceria com a OAB Alagoas, a Escola Superior de Advocacia (ESA/AL) e a Caixa de Assistência dos Advogados (CAA/AL). Durante o encerramento do evento, a organização confirmou que a segunda edição do Júri Épico em Alagoas deve acontecer em 2025.