
O ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jhonatan de Jesus, relator do caso que examina a liquidação do Banco Master, determinou nesta segunda-feira, 5 de janeiro, uma inspeção no Banco Central para análise de documentos sobre o processo.
A medida intensifica o cerco institucional ao BC e gerou reação imediata de entidades do setor financeiro, que emitiram nota conjunta em apoio à autoridade monetária, alertando para o risco de que “outros atores institucionais tenham a possibilidade de invalidar o mérito técnico” das decisões do órgão.
A atuação de Jhonatan de Jesus no caso tem sido alvo de questionamentos devido à sua trajetória política. Ex-deputado federal por Roraima, ele foi eleito ministro do TCU em 2023 com apoio do então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e da bancada governista, renunciando ao seu quarto mandato para assumir o cargo vitalício.
Como parlamentar, sua atuação foi marcada por forte alinhamento com Lira e seu sucessor, Hugo Motta (Republicanos-PB), sendo coautor de 187 proposições com o primeiro e 106 com o segundo. Seu principal parceiro partidário era o PP, com 501 projetos em conjunto, posicionando-o claramente no bloco do Centrão – grupo que também está sob escrutínio no Caso Master devido a suas ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Perfil familiar e controvérsias
Jhonatan integra uma oligarquia política de Roraima. Seu pai, Mecias de Jesus, é senador e atualmente conselheiro do Tribunal de Contas estadual. A esposa do ministro esteve lotada no gabinete do deputado Gabriel Motta (Republicanos-RR), mas foi exonerada após uma reportagem indicar que não cumpria rotina de trabalho. A madrasta ocupa cargo na Companhia de Águas e Esgoto do estado.
Recentemente, o ministro arquivou no TCU um processo contra Hugo Motta que apurava supostas rachadinhas e cargos fantasmas em seu gabinete. Além disso, Jhonatan tem emendas parlamentares sob análise da “malha fina” do ministro da Justiça, Flávio Dino, desde setembro de 2025. Formado em Medicina, foi líder da bancada do Republicanos na Câmara entre 2019 e 2020, antecedendo Motta na função.
A determinação de inspeção no BC ocorre em um momento de alta tensão institucional, com o Supremo Tribunal Federal também envolvido nas investigações sobre o Banco Master. A nota das entidades financeiras reforça que interferências no processo técnico do Banco Central trazem “graves impactos para o próprio funcionamento da economia brasileira e enfraquecimento da autoridade financeira”.
Emendas
As emendas parlamentares destinadas pelo atual ministro do TCU estão sob investigação. Recursos direcionados por ele à pequena Iracema, município de aproximadamente 14 mil habitantes em Roraima, foram suspensos pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino em setembro de 2025, após auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU) apontar irregularidades.
Entre 2020 e 2023, Jhonatan destinou cerca de R$ 11,7 milhões em emendas a Iracema, uma das cinco cidades que mais receberam recursos do tipo no país naquele período. Os valores foram aplicados nas áreas de energia e transporte. O relatório da CGU, de maio de 2025, analisou dois repasses específicos, um de R$ 2,98 milhões e outro de R$ 799 mil, para implantação de rede elétrica e iluminação pública com LED.
Apesar de as obras terem sido entregues, a auditoria identificou inconsistências no plano de trabalho, falta de publicação no portal de compras públicas e barreiras nos processos de licitação que desestimularam a competitividade. O portal de transparência do município também não ofereceu clareza suficiente, dificultando a rastreabilidade do uso do dinheiro público. O relatório foi encaminhado por Dino à Polícia Federal.
Nos documentos da CGU, as emendas são identificadas apenas por número, mas o cruzamento com o portal da transparência confirma a autoria de Jhonatan de Jesus, que à época era deputado federal. A investigação ocorre enquanto o ministro, hoje relator do caso da liquidação do Banco Master no TCU, determina inspeções e cobra rigor do Banco Central.














