2 de março de 2024Informação, independência e credibilidade
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Considerado, Nildinha e a confraternização da turma do Gabiru em restaurante chique

Ou quando o neto censura a avó com paixão platônica pelo dedo do do doutor

É tempo de confraternizar: cada turma, uma história.

Reta de fim de ano, confraternizações de toda ordem e dona Nildinha, a avó do Considerado, amanheceu animada. Levantou da cama certa de participar um encontro festivo da turma do Gabiru.

O detalhe é que ela não faz parte da turma. Mas, como o neto é um dos fundadores do grupo ela se sentiu automaticamente auto convidada.

Foi cedo ao salão de beleza, ajustou os cachos dos cabelos e deu uma geral nas unhas das mãos e dos pés. Olhou-se depois no espelho do salão e mandou ver: -Estou pronta pra luta!

As moças do salão olharam-na com a cara de espanto e resolveram matar a curiosidade: -Pronta pra luta, que história essa Nildinha?

Ela, em estado de graça, disse que acompanharia o neto nessa “confra” no restaurante Maria Antonieta. “Eita, está podendo muito hein dona Nildinha”? – Pontuou a manicure.

Eufórica, falou que não gastaria nada. Isso por que o Considerado havia lhe dito que o Dezinho Papada, o Pastor e o Magistrado iriam bancar a reunião festiva. Os demais pagariam só uma taxinha simbólica.

-Mas Nildinha, Dezinho Papada é quem? -Perguntou a dona do salão. – Ah, minha filha, segundo o “Consa”, é um dos chegados do restaurante. – Disse ela.

A manicure disse que gostaria muito de ir a uma festa assim. Nildinha logo lhe tirou de tempo: – Nem pense minha filha. Lá só eu, por que conheço vários, principalmente meu doutor branco, coleguinha do meu neto, que tem olhos e dedos lindos.

-Dedos lindos, dona Nildinha, que coisa estranha? -Voltou a questionar cabeleireira. E ela de bate-pronto: – É por que você nunca fez uma consulta com ele, um urologista famoso no País inteiro.

Dito isto, pagou a conta e deu no pé. Em casa, Nildinha colocou o novo short branco, comprado em uma loja de marca da Ponta Verde, uma camiseta rosa de cetim e um blazer curto, bege, para parecer discreta no ambiente fino. Sentou-se na poltrona da sala e ficou a esperar o neto.

Considerado chegou da rua e ficou abismado com toda a produção da avó. E aí não se conteve: -Vai pra onde vó, com essa elegância?

Ela o olhou de cima a baixo e devolveu a pergunta: – Como assim, nós não vamos à festa da sua turma do Gabiru? Considerado ficou surpreso por que isso não havia sido discutido, nem combinado. Até por que essa turma é uma espécie de “clube do bolinha”.

-Mas vó quem lhe chamou?

-Oh, gente, você não é da turma?

-Sou, mas a senhora não?

-E o que é que tem me levar?

-Mas isso não foi acertado vó.

-Eu sou sua avó, lhe banco aqui em casa e não posso ir a uma festa com você?

-Não é isso vó, eu teria que ter combinado com a turma?

-Com quem mesmo, quem é que manda, o Batoré, esse tal Pastor, o Delegado, aquele Promotorzinho do Mercado da Produção, ou o Purê Azedo?

-Tenha calma vó, não é bem assim…

-Então o que é?

-A senhora deveria ter falado antes, para eu perguntar ao Tonelada se poderia lhe levar.

-Tonelada? E desde quando aquele peixe boi manda em você?

-Ele não manda, mas organiza as festas.

-É. Você quer mesmo que eu morra sozinha, como uma velha enjeitada.

-Que exagero vó, eu não estou com você?

-Sim, mas eu não sou a dama do incesto…

-Que sacrilégio é esse minha avó?

-Você está censurando o meu direito de ver o meu doutor.

-O doutor é casado dona Nildinha, deixe de enxerimento descabido…

-Ele é casado, mas o dedo dele não… Seu porra!