12 de julho de 2024Informação, independência e credibilidade
Maceió

Crime da Braskem e o belo poema de Rodrigo Severiano: Buraco

Que nenhuma voz se cale! Diz o poeta em Maceió

O crime ambiental da Braskem e a impunidade, desde muito antes…

BURACO

Enquanto eu dormia cavaram um buraco no meu peito,
dizia o muro do Pinheiro,
Dizia a fratura do Flexal,
Dizia o sonho do Bom Parto
Da parte do sonho que repartiu

Enquanto eu dormia cavaram um buraco
no meu sentimento…
bem do lado
da Lagoa Fantástica.
A rainha do sustento
A deusa do sururu perdido
Olhando pra fome de perto
Vendo cascas vazias
Cheias de sonhos tremidos.

NENHUMA BOCA PARA SORRIR.
TANTOS OLHOS PARA CHORAR.

Nem mesmo inquilino da alegria pude ser
Ver um sonho azul perdido no buraco 18 do Mutange
um grito de gol? Sem chance…
somente o berro azedo do asfalto
Das entranhas do mundo esquecido e esfarrapado
Brotam e brotam uníssonos,
enquanto surdos ouvidos fingidos
Simulam ver invisíveis
Olhos aflitos correndo de buracos.

E nesse sonho absurdo da terra
não pude mais ver Bebedouro.
nenhuma missa, nem uma reza.
Nem são Toinho querido,
o santo que chora aflito
o choro dos esquecidos da memória que se perdeu.
Nenhum templo, nenhum terreiro.
Nenhum axé, nenhum tempero.
Somente o desespero coletivo
de Gente sem gente
do ranger de dentes
desse teto sem chão.

Enquanto eu dormia cavaram um buraco no meu peito.
Dizia O VERSO furado,
dizia o MURO DA GANÂNCIA,
na fronteira da ignorância
no flagelo da infância que
o lucro comeu.

Enquanto eu dormia cavaram
um buraco na memória e no asfalto
E na trama de buraco em buraco
cavaram tão alto, tão alto,
que dormindo ou acordado,
não consigo ver o fundo falso
do acordo falso onde meu sonho se perdeu.
E a pouco o oco esqueceu.

 

Poeta Rodrigo Severiano