A recente operação policial nas favelas do Complexo do Alemão e Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, revelou, mais uma vez, a ineficácia de medidas que priorizam o espetáculo em vez da estratégia.
Conforme relata Roberto Saviano no jornal italiano Corriere della Sera, publicado na sexta-feira (31), a ação deixou 130 mortos, cerca de 100 presos e a apreensão de aproximadamente 90 armas longas, enquanto o chefe do Comando Vermelho, Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, permaneceu em liberdade durante a operação.
Saviano destaca que, apesar do impacto imediato, a operação não atinge o núcleo econômico e estrutural do crime organizado. O Comando Vermelho movimenta cerca de 16 bilhões de euros, e junto com o Primeiro Comando da Capital, forma um sistema criminal que gera 43 bilhões de dólares anualmente, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Ataques militares superficiais podem dar a sensação de segurança à classe média, mas não desmantelam essa engrenagem. Pelo contrário, operações desse tipo tendem a fortalecer a organização, ao criar vitimização de comunidades vulneráveis e legitimar políticas autoritárias.
O episódio mostra os riscos de uma política de espetáculo inspirada em populismos autoritários, que privilegia a imagem de ação imediata sobre a prevenção, a reintegração social e a redução das desigualdades. Sem atacar os fluxos financeiros, a estrutura de poder e os vínculos políticos do crime organizado, o Estado apenas reforça sua própria fragilidade, mantendo intactas as condições que permitem a perpetuação da violência.
Concordo com Saviano: massacres como esse não resolvem o problema do crime, mas aprofundam o ciclo de violência, violam direitos fundamentais e transformam operações policiais em atos simbólicos que favorecem o populismo autoritário, enquanto o verdadeiro controle da criminalidade permanece fora de alcance.














