25 de julho de 2021Informação, independência e credibilidade
Brasil

MEC diz que foi ‘um sucesso’ Enem com abstenção de 51,5% e estudantes barrados por aglomeração

Ministro atribuiu ao medo da contaminação pela covid-19 e a um suposto “trabalho de mídia contrário” a abstenção recorde

O ministro da Educação, Milton Ribeiro, classificou a aplicação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2020 como um “sucesso”. E isso apesar dos relatos de superlotação de salas e abstenção recorde de 51,5%.

Ribeiro considerou como uma “vitória” ser possível aplicar a prova mesmo em meio a uma pandemia e, nas suas palavras, “uma questão política, de mídia contra”.

“Nós qualificamos como sucesso porque, no meio de uma crise, nós conseguimos mobilizar milhões de pessoas de maneira segura. Para aqueles alunos que puderam fazer a prova foi um sucesso, e é isso que o MEC e o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) acreditam. Se nós disséssemos que não teríamos Enem este ano, aí seria um insucesso”. Milton Ribeiro, titular do MEC.

A fala de Ribeiro vai de encontro aos relatos de estudantes feitos em todo o Brasil. A UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), por exemplo, compartilhou nas redes sociais o caso de uma estudante que foi impedida de fazer a prova por conta da lotação de um dos locais de prova do Enem 2020.

Isabela Carolina escreveu que após muita espera na fila para entrar na sala, não permitiram que ela realizasse a prova porque havia sido ultrapassada a capacidade de 50% dos candidatos.

Segundo o presidente do Inep, em 11 dos 14.447 locais de prova os estudantes tiveram “alguma dificuldade” para realizar o exame. Em três escolas da Bahia, por exemplo, houve falta de energia. Também foram registrados problemas em Florianópolis (SC), Curitiba (PR), Londrina (PR), Pelotas (RS), Caxias do Sul (RS) e Canoas (RS).

Abstenção recorde “culpa da mídia”

O ministro atribuiu ao medo da contaminação pela covid-19 e a um suposto “trabalho de mídia contrário” a abstenção de 51,5% registrada no Enem 2020. Ele também exaltou as decisões judiciais que negaram o adiamento do exame.

Ao todo, segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), 5.523.029 pessoas se inscreveram no Enem, mas somente 2.680.697 — menos da metade (48,5%) — compareceram ao local de prova. Os ausentes somaram 2.842.332 (51,5%).

Houve ainda 2.967 participantes eliminados e 69 afetados por “ocorrências logísticas”, como falta de energia, por exemplo. Todos os dados ainda são preliminares, podendo ser atualizados pelo Inep nas próximas semanas.

“Este ano tivemos uma abstenção maior, parte pela dureza e a questão do medo da contaminação, parte por um trabalho de mídia contrário ao Enem, isso é fato, e de uma maneira até meio injusta. Não foi o mesmo trabalho de mídia feito contra o exame da Fuvest, em São Paulo. Não vi ninguém falando tão enfaticamente quanto o Enem, embora nós tenhamos tomado todos os cuidados”. Milton Ribeiro.

Ribeiro admitiu que o nível de abstenção é “significativo”, mas defendeu a aplicação do exame, dizendo que o MEC não queria “atrasar muito” a vida dos estudantes, sobretudo aqueles oriundos de escola pública.

Ele ainda comemorou a vitória da pasta nas quase 20 ações movidas na Justiça contra a realização do Enem, com exceção do Amazonas, que vive um colapso na saúde e sofre com a falta de insumos, especialmente oxigênio medicinal. De acordo com Ribeiro, o presidente Jair Bolsonaro estava ciente das dificuldades de aplicação do exame no estado.

“Nós fizemos questão de transferir os pouco mais de 160 mil estudantes do Amazonas para fazer a prova no dia 23 e 24 de fevereiro. Essa atitude demonstra a sensibilidade do MEC, que foi tido como um ministério insensível à dor, expondo os alunos… Não é verdade. Nós estamos falando com pessoas adultas, não é a mesma coisa que lidar com crianças”. Milton Ribeiro.