22 de maio de 2024Informação, independência e credibilidade
Justiça

Motorista do Porsche que matou em colisão reforça como é bom ser rico no Brasil

Situação remete ao caso do dono de Mercedes, que segue impune após batida matar dois e deixar bebê paraplégico em 2018

Fernando Sastre de Andrade Filho. Este é o homem de 24 anos conhecido como “motorista do Porsche”, que no dia 31 de março provocou um acidente que causou a morte do motorista de aplicativo Ornaldo da Silva Viana, de 52 anos.

Ele ainda está solto.

Há toda uma situação na justiça brasileira que não torna em prisão imediata os motoristas envolvidos em acidentes que provocam mortes. Seja por terem endereços estabelecidos e não apresentarem risco de fuga ou comprometimento com as investigações.

Mas ajuda muito se você estiver dirigindo um Porsche 911 Carrera GTS, modelo 2023.

Não foi por sorte que ao ser abordado pela polícia que Fernando virou estatística como mais um a ser espancado durante abordagem, seja com tapas, pé no pescoço ou mesmo spray de pimenta na cara enquanto estivesse preso.

A juíza Fernanda Helena Benevides Dias, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), que rejeitou o pedido de prisão contra o dono do Porsche, foi a mesma que manteve a prisão de um homem de 21 anos que tentando levar um litro de conhaque (R$ 16,99), duas garrafas de vodka (R$ 16,99, cada) e dois desodorantes (R$ 18,99, cada) escondidos sob sua camisa em um supermercado.

Fernando Filho não é um preto pobre. Ele é motorista de Porsche.

Após o acidente, a mãe do empresário, Daniela Cristina, foi até o local do acidente e teria afirmado à PM que iria levar o filho ao Hospital São Luiz Ibirapuera, “devido ao leve ferimento” sofrido por ele na boca.

Os policiais militares foram à unidade de saúde indicada pela mulher para realizar o teste do bafômetro. Na recepção, foram informados que Fernando não havia dado entrada em “qualquer hospital” da rede São Luiz.

O empresário, a mãe e o advogado dele foram procurados pelos policiais, via telefone, mas, segundo registros oficiais, “as ligações não foram atendidas”. Em que outro cenário, que não com o de um motorista de Porsche, isso aconteceria?

Claro, nem todo policial é violento e é de se destacar os méritos da equipe policial que o abordou e não usou da violência. Violência policial em absolutamente nenhum caso é bom ou justificado. Policiais não são justiceiros e que devem matar indiscriminadamente, afinal inocentes sempre morrem no meio do caminho.

Só que um apanhar e o outro ser liberado não é justo. A questão aqui é igualdade, isonomia por parte do poder público.

Mais de um mês após a colisão fatal, a Justiça finalmente resolveu determinar a prisão preventiva de Fernando Filho, na sexta-feira (3). A defesa dele, no entanto, pediu para ele não se entregar no final de semana – tendo tempo para ele aparecer na Globo e reforçar que não dirigiu e que não estava em alta velocidade durante a colisão – e pedir uma prisão especial no presídio dos famosos, ao lado de Robinho.

Alguém ainda duvida o quão bom deve ser rico no Brasil?

Empresário

Fernando Filho é apresentado como empresário, sendo um dos sócios ao lado do pai, de um tio e de outro parente na Sastre Empreendimentos Imobiliários, que atua na construção de edifícios, além da compra, venda, aluguel e loteamento de imóveis.

O setor imobiliário é a principal área de atuação do pai do jovem, o empresário Fernando Sastre de Andrade, que também é sócio da Irmãos Andrade Construtora (2012) e da Sastre Engenharia e Urbanismo (2018).

O negócio mais antigo da família é a F. Andrade, distribuidora de ferro e aço para a construção civil, fundada em 1993, sendo fornecedora de grandes bancos, supermercados e redes de fast food. O Porsche 911 Carrera GTS, modelo 2023, inclusive, estava no nome da distribuidora F. Andrade.

Fernando Filho segue solto.

Sua situação remete muito à do também empresário André Veloso Micheletti, que dirigia em alta velocidade uma Mercedes em 2018, que atingiu a traseira de uma Ecosport de André Gonçalves.

A mulher de Gonçalves morreu na hora e ele ficou paraplégico. Também estavam no carro outra família. Wesley Bispo não se feriu, mas perdeu a esposa, que morreu no acidente. Além disso, seu filho, que na época era um bebê com apenas 1 ano e 7 meses, ficou paraplégico.

Apesar de condenações na Justiça, o empresário André Veloso Micheletti, que dirigia a Mercedes, continua impune seis anos depois da tragédia, mesmo com a perícia avaliando que a velocidade da Mercedes estava entre 134 km/h ou 298 km/h na hora da colisão. Ele ainda culpou as vítimas pelo acidente, por terem invadido uma faixa – o que a perícia nega.

A suspeita é que o empresário André Veloso Micheletti disputava um racha contra um policial que dirigia um Camaro preto. A hipótese, apontada por investigadores na época, foi a mesma relatada por uma testemunha do acidente. Micheletti, ao menos, ficou preso por 44 dias, mas hoje está solto, curtindo a vida ao contrário de suas vítimas.

O caso é muito pior do que o de Fernando Filho. Claro, não há propriedade transitiva na Justiça brasileira e cada caso é um caso. O caso aqui, no entanto, é que Fernando Filho dirigia um Porsche, foi liberado no dia do acidente, teve a prisão negada por uma juíza que escolheu o dia para se entregar e pôde se defender na Globo.