O esgotamento da extrema-direita e o retorno da racionalidade política

A Faria Lima não virou petista - apenas percebeu que o extremismo sai caro demais até para quem vive de risco.

A maré positiva ao governo Lula, impulsionada pela crise profunda do bolsonarismo, atingiu definitivamente os humores da Faria Lima. Nos últimos meses, o favoritismo do presidente à reeleição, que já vinha sendo admitido em conversas discretas entre banqueiros e investidores, consolidou-se a ponto de alguns interlocutores do mercado falarem em chances reais de vitória ainda no primeiro turno – algo impensável há um ano.

A leitura da elite financeira sobre o bom momento do governo passa por uma constatação pragmática: Lula acertou politicamente. Diante da tensão diplomática com os Estados Unidos, o presidente encontrou no discurso da soberania nacional um instrumento de reaglutinação de um governo que até então parecia apagado, carente de marcas e sem narrativa. O “Lula do Itamaraty” devolveu ao Planalto um protagonismo que a própria direita dizia inexistente.

Mais do que retórica, o reposicionamento teve efeitos concretos. Ao discursar na ONU, Lula resgatou para si o tema do patriotismo – até então monopolizado pela direita – e reposicionou o Brasil num tabuleiro global em que a prudência vale mais que a submissão. A reação internacional foi calculadamente positiva: Donald Trump, notório por suas oscilações políticas, elogiou a “química excelente” com o brasileiro, enquanto seu secretário de Estado, Marco Rubio, recebeu o chanceler Mauro Vieira em Washington, em um gesto de distensão.

Os efeitos práticos do recuo norte-americano ainda são incertos, mas o simples fato de a crise não ter escalado – como se previa – já é lido como vitória diplomática. No balanço político, Lula conseguiu transformar uma potencial derrota em ativo: projetou liderança, impôs respeito e neutralizou a narrativa da oposição sobre isolamento internacional.

Outro movimento notado com atenção pela Faria Lima é a aproximação de Lula com o eleitorado evangélico. O presidente acenou à indicação de Jorge Messias, atual advogado-geral da União e evangélico, para o Supremo Tribunal Federal – um gesto simbólico e estratégico, que quebra a “exclusividade” religiosa cultivada por Jair Bolsonaro e seus seguidores. A foto do presidente em oração com líderes da bancada evangélica no Planalto não foi fortuita: é sinal de que o petismo entendeu o jogo de ocupação de espaços e valores.

Esses movimentos, juntos, têm um significado maior que o mero cálculo eleitoral. Representam a consolidação de uma nova percepção política — inclusive no centro financeiro paulista: a de que Lula, com todos os seus defeitos e contradições, se tornou o único polo de estabilidade possível no atual cenário. Enquanto o presidente recompõe pontes com setores historicamente avessos ao PT, a direita se autodestrói em facções e ressentimentos.

Eduardo Bolsonaro, condenado e às voltas com a Justiça, ainda dita o tom radical de um grupo que perdeu o senso de realidade. Tarcísio de Freitas, antes visto como o nome da “Faria Lima com farda”, já demonstra desânimo diante da fragmentação do campo conservador. Ratinho Júnior surge como alternativa, mas sem densidade nacional. A direita, refém do próprio extremismo, perdeu a bússola – e com ela, a confiança do capital.

O mercado, afinal, tem pavor do imprevisível. E foi isso que aprendeu com a extrema-direita brasileira: por trás do discurso liberal, esconde-se o autoritarismo que destrói o ambiente institucional, repele investimentos e alimenta crises artificiais. A Faria Lima, que um dia flertou com o “mito”, hoje percebe que estabilidade vale mais que fanatismo.

A desistência não é ideológica – é racional. Quando até os templos do mercado entendem que a extrema-direita é ruim demais até para o bolso, o país dá sinais de que voltou a respirar política com p maiúsculo.

No fim das contas, a escolha não é difícil: entre o caos e o cálculo, o Brasil – e a Faria Lima – parecem ter lembrado que a democracia é, antes de tudo, um bom investimento.

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