15 de junho de 2024Informação, independência e credibilidade
Artigo

Pife: A Alegoria da Caverna de Platão em Fernão-Velho

Escuridão, silêncio dos humanos, mato fechado, uma água teimosa descendo sobre os seus ombros e a infinitude da altura despencada.

Por Osvaldo Pife

Fernão Velho: Distrito de Maceió

Tanto o Baiano como o Higino nunca tinham tido coragem de conhecer o buraco da Mata do Cachorro.

Embora fossem do mesmo lugar, e passassem toda semana pela estrada fina e escura do Alto São José para o campinho do Elétrico, vizinho ao cemitério, sobre o barranco da caverna, jamais, sequer, olhavam para aquele tenebroso declive.

Tinham a habilidade de um passarinho, correndo sem asas pela ladeira, subindo e descendo com os pés descalços num caminho de barro eternamente escorregadio.

Um dia, displicentes, como qualquer passarinho, escorregaram e deram um voo errático, e…

Estavam lá embaixo.

Escuridão, silêncio dos humanos, mato fechado, uma água teimosa descendo sobre os seus ombros e a infinitude da altura despencada.

Não adiantaram os gritos, seja pela remota distância entre a civilização e a caverna, seja pela acústica inútil dos galhos, dos capins e dos bichos. Não pediram socorro como os náufragos. Pediram socorro como os arrependidos.

Na queda, os dois ficaram em frente ao paredão reto da caverna apertada, sem condições de olharem para trás ou para os lados. Apenas um quadro de ervas daninhas, de alguns cocos-catolé, de ingás e de merda de saguim se apresentava diante de suas ventas.

Ninguém, àquela altura, os ouvia. Ninguém dava pela falta deles. O Baiano gritava “mãe”. O Higino chamava pelo Padre Luís, o pároco falecido.

Houve um momento em que o Baiano, para contestar a fé do amigo, já que não  acreditava em Jesus, apenas na Maria Boa, exigiu que seu colega parasse com aquela bobagem de chamar um padre morto. “Não existe Deus, só na reza de Dona Filó”, tecia seu rescaldo de descrente, mesmo perto da morte.

Nada. Nada de ninguém.

Dia desses, encontrei o Higino, já com a mesma idade inclinada como a minha. Estava com um menino do seu tamanho, mas de décadas de diferença entre as duas idades. Era seu filho. Chamava-se Carl Lewis, como o atleta, na escrita, mas pronunciado por ele, o pai, “Caus Liu”. Sem problemas. Também não sei pronunciar o inglês.

Sabia que os dois amigos tinham sobrevivido ao acidente, mas nunca tinha me importado em saber por quê.

“Higino, como vcs escaparam?”
“O Zé Hormindo, o sacristão, nos salvou. Ia para o cemitério colocar a cruz na cova do Padre Luís quando ouviu o Baiano gritar “mãe”.

“Incrível. E o Baiano acreditou em Deus?”.
“Não. Ainda hoje diz que Deus nunca tinha entrado numa caverna tão fedorenta”.

*Osvaldo Epifânio (Pife) é professor da rede pública e privada em Alagoas.