16 de abril de 2024Informação, independência e credibilidade
Alagoas

Plenário da ALE celebra 40 anos do MST defendendo a reforma agrária e o combate à fome

Movimento Sem Terra está organizado em 24 Estados e conta com 400 mil famílias assentadas

A Assembleia Legislativa realizou nesta sexta-feira, 1º, uma sessão solene em homenagem aos 40 anos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), celebrados no dia 22 de janeiro. A iniciativa do deputado Ronaldo Medeiros (PT) reconheceu o mais importante movimento social do País na formulação e execução da reforma agrária no Brasil e em Alagoas. Os trabalhadores levaram ao plenário alimentos produzidos pelos membros do MST, além de apresentações culturais.

“O MST, que luta pela reforma agrária, é um movimento que produz alimentos para restaurantes de universidades, como a Ufal, e fornece merenda escolar para diversos municípios”, lembrou o parlamentar no início da sessão. “Quando alguém tem sua terra, produz, vende e vive com dignidade. É isso que queremos, um País para todos, do pequeno ao grande, e a Assembleia, nesse momento, dá voz a um dos movimentos mais sérios, organizados e pacíficos do mundo”, prosseguiu o petista, afirmando que o Parlamento de Alagoas, mesmo com divergências, mantém o respeito às pessoas de outras classes sociais, cores e credos.

“Vi a entrevista de uma garota assentada que dizia não querer ‘sobreviver’, mas sim ‘viver’ com dignidade, e é isso que o movimento defende”, prosseguiu Medeiros, dizendo que isso pode incomodar parte da burguesia e elite atrasada do Brasil. “Não querem que os pobres tenham terra, casa e acesso à universidade. Muitos não querem sentar ao lado no avião ou no restaurante com alguém que veio das camadas mais pobres, para se manterem no poder”, afirmou Medeiros, ancorando sua fala no pensamento de elite, que deve ser veementemente combatido. “Um País para viver em paz, um País para viver com democracia, tem que ser um País para todos”, encerrou Medeiros.

Odilon Máximo, reitor da Uneal, lembrou que a realidade social dos assentamentos é bastante complexa. “Lá, temos escolas. Há toda uma organização voltada para uma educação do campo, com uma abordagem educacional diferenciada, que considera a realidade do homem do campo, valorizando o ambiente rural”, disse o reitor. Ele também derrubou um mito comum: “Muitas vezes, olhamos os livros didáticos e alguns materiais, especialmente aqui no Nordeste, e há sempre aquela ideia de que o campo é algo triste, que o campo está associado à seca, enquanto a cidade é considerada um lugar maravilhoso”, explicou.

Ainda segundo o reitor, “a educação do campo valoriza a vida no campo, destaca a permanência do homem em seu modo de vida e valoriza sua cultura”, sendo necessário oferecer cursos para jovens e adultos, considerando ainda o alto índice de trabalhadores e trabalhadoras analfabetos nos assentamentos. “É preciso valorizar também os cursos de formação para jovens e o ensino superior”, acrescentou antes de mencionar projetos e vários programas voltados para a educação do campo, como o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA), uma política pública do Governo Federal com o objetivo de promover ações educativas nas regiões de reforma agrária, por meio de cursos adaptados à realidade do meio rural, através de uma gestão participativa e compartilhada.

O Desembargador Tutmés Airan de Albuquerque Melo, do Tribunal de Justiça de Alagoas, contextualizou o momento com satisfação. “Lembro-me mais ou menos do período em que o MST surgiu, e foi uma enorme novidade, resultado da vitalidade de parte da sociedade brasileira que se mobilizou”, disse ele. O desembargador também mencionou o texto constitucional assegurando que a propriedade teria uma função social. “Para que esse texto constitucional deixasse de ser uma promessa e se tornasse realidade, é absolutamente importante a atuação desse movimento”, finalizou Airan, defendendo uma transformação de maneira civilizada, honesta e decente, conforme defendido por homens e mulheres do campo: “Hoje, 40 anos depois, pode-se dizer que isso foi disseminado. É um movimento que, sobretudo, oferece esperança àqueles que lutam por transformações sociais”.

Débora Nunes, coordenadora nacional do MST, expressou grande alegria em relação à sessão solene. “Nós somos o único movimento social do Brasil, da América Latina, que alcança 40 anos na luta pela terra, pela reforma agrária”, disse ela com orgulho, sendo parte do movimento há 27 anos e coordenadora há 10. “Temos muita importância na produção de alimentos saudáveis, no combate à fome e à desigualdade social. Buscamos mais acesso à terra, principalmente para produzir alimentos saudáveis e combater a fome em nosso Estado e em nosso País”, prosseguiu Débora.

“Durante a pandemia, enquanto lutávamos contra o coronavírus, tínhamos ainda como o principal vírus a fome que nosso povo e o povo brasileiro enfrentavam”, continuou a coordenadora, enfatizando a principal luta do movimento. “A reforma agrária tem esse papel a cumprir no combate à fome, na defesa do meio ambiente, na defesa dos direitos dos trabalhadores, tanto no campo quanto na cidade. Porque a reforma agrária não é apenas o acesso à terra, mas também o acesso às políticas públicas para o povo do campo”, concluiu Débora Nunes.

Por fim, Jislaine Maciel, integrante do Movimento, exaltou os 40 anos de luta, “de uma luta que a gente vem travando na Educação,  pela democratização do acesso à terra, para que as pessoas tenham o direito de moradia, tenham o direito também de poder plantar, tenham o direito também de poder colher, de poder se alimentar”, disse ela. Jis encerrou lembrando que “quando a gente fala da transformação da sociedade, está dizendo não aceitamos mais que as pessoas sejam violadas, sejam elas LGBT, mulheres, crianças ou idosos, a gente luta pela transformação da sociedade, querendo uma sociedade nova, um novo jeito de fazer cultura, um novo jeito de fazer arte, um novo jeito de produzir alimentos”.

Completaram a mesa de honra Luciano Santos, presidente da CUT em Alagoas; o pastor Wellington da Igreja Batista do Pinheiro; Lenilda Lima da Marcha Mundial das Mulheres; o padre Gilvan do Movimento de Luta Pela Terra e Reforma Agrária de Alagoas e Pastorais Sociais; Jaime Silva, presidente do Iteral; e o patrimônio vivo Zeza do Coco, representando a Cultura Alagoana.

MST

O MST foi fundado oficialmente em 22 de janeiro de 1984, no município de Cascavel, no Paraná, durante o 1° Encontro Nacional. Atualmente o Movimento Sem Terra está organizado em 24 Estados e conta com 400 mil famílias assentadas, que vivem em assentamentos conquistados a partir de anos de lutas e resistência às violências dos latifundiários e cerca de 70 mil famílias acampadas, que ainda moram em barracas de lona, de forma provisória, enfrentando várias formas de violência, em beiras de estradas e latifúndios que não cumprem a função social da terra.