24 de setembro de 2020Informação, independência e credibilidade
Brasil

Vidas negras não estão importando

Mesmo vivendo os trágicos casos Ágatha, João Pedro e Miguel, movimento contra a violência racial no Brasil encontra resistência institucional dessensibilizada, como com o batido “todas as vidas importam”

“O Genocídio da População Negra”, charge do artista Carlos Latuff, que quando exibido na Câmara em Brasília foi rasgada pelo deputado federal Coronel Tadeu (PSL-SP)

Em crescente retomada após a violenta e injustificada morte de George Floyd, negro asfixiado por um policial branco em Minneapolis, o movimento Black Lives Matter (Vida Negras Importam) se proliferou nos EUA, alcançando boa parte do mundo.

E com o movimento, surgiram as críticas.

Não raro, é muito comum o incomodado questionar sobre as vidas brancas. “Elas também não importam?”, questionariam eles que, em sua maioria, são os ditos privilegiados da sociedade. E deixam de perceber o óbvio: meio que já se sabe que as “demais” vidas importam. Esse movimento quer apenas lembrar que as dos negros também.

Sendo um homem branco, hétero e batizado na Igreja Católica, posso dizer que, se comparado com os demais que não são como eu em pelo menos uma categoria (gênero/sexo, raça e/ou credo religioso), nem de perto usufruem das facilidades e oportunidades que tive. E invariavelmente, a sociedade “sabe” que esta minha parcela, “importa”.

Segundo o mais recente Atlas da Violência, estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 75,5% das vítimas de homicídio no País são negras, maior proporção da última década.

O crescimento nos registros de assassinatos no Brasil, que alcançou patamar recorde em 2017, atinge principalmente essa parcela da população, para quem a taxa de mortes chega a 43,1 por 100 mil habitantes. Para não negros, a taxa é de 16.

O músico Evaldo Rosa voltava com a família de um chá de bebê, quando foi fuzilado pelo exército

Só no Rio, casos emblemáticos

As vidas do músico Evaldo Rosa e do catador Luciano Macedo, ambos negros, fuzilados com mais de 80 tiros pelo exército, no Rio de Janeiro, pareceram não importar muito.

O músico estava no carro com sua família. O catador, como eles, no lugar errado, na hora errada e na raça errada. Isso aconteceu no ano passado, após uma ação atrapalhada, equivocada e criminosa, quando abriram fogo contra civis. Os militares foram presos e soltos imediatamente depois. E o presidente, à época, disse que não houve nem mesmo um assassinato.

“O Exército não matou ninguém, não. O Exército é do povo. A gente não pode acusar o povo de assassino. Houve um incidente. Houve uma morte. Lamentamos ser um cidadão trabalhador, honesto”. Jair Bolsonaro, presidente do Brasil.

Nem entremos no mérito do que ele disse recentemente.

No mesmo ano, menina Ágatha Félix, de 8 anos, negra, levo um tiro de fuzil. Ela estava dentro de uma van escolar. Nada aconteceu com os envolvidos. Polícia não deve abrir fogo próximo de tantos civis. Mesmo que esse tipo de ação seja defendida pelo próprio governo:

Essa história vive se repetindo. No mês passado, outra história chocante: João Pedro de Matos Pinto, de 14 anos, negro, foi fuzilado na casa de seu tio, com mais de 70 tiros. Em uma suposta tentativa de capturar um bandido em fuga, a ação policial adentrou de forma paramilitar na casa de inocentes e o garoto perdeu a vida.

Ele foi levado de helicóptero pelos próprios policiais. Seus pais só souberam de sua morte dois dias depois, por funcionários do IML, enquanto buscavam notícias de forma desesperada.

Isso nunca aconteceria com um branco de classe média alta. E se acontecesse, haveria punição, após seguidas horas de entretenimento em jornais policiais, com seus apresentadores exaltados e em busca de justiça.

Preto e branco

Vidas brancas estão importando mais. As vidas negras nem tanto, e precisam gritar para mudar o cenário. Outra situação emblemática é a do “fim da cracolândia”, quando João Doria teve a brilhante ideia de forçar tratamento aos dependentes químicos, como se a questão fosse só de segurança, e não social.

E em ações que não tiveram resultados positivos a longo prazo, e que resultou até na demolição de prédios com pessoas dentro, o que mais foi discutido fora o declínio de Andreas Albert von Richthofen, irmão de Suzane von Richthofen.

Andreas, evidentemente, teve sua vida destroçada após a irmã planejar o assassinato dos pais deles. E acabou declinando até ser mais um na cracolândia.

Quando lá foi encontrado, a sociedade descobriu que, muitas vezes, as dificuldades impostas pela vida fazem com que as pessoas tomem rumos tortuosos e busquem alívio rápido e imediato para a dor e sofrimento.

Mas isso só para Andreas.

Andreas era o menino branco e rico que chocou a todos por ser um dos drogados na cracolândia. E claramente deu a entender que todas aquelas outras figuras anônimas estavam lá por serem pobres, negras e delinquentes. A ex-jogadora de vôlei, Ana Paula, resumiu isso nessa semana em um tweet de puro silogismo falso:

Segundo as estatísticas que ela tirou, apenas 12% dos negros são responsáveis por mais de 60% dos roubos e mais da metade dos assassinatos.

Se for para valer dessa premissa (rasa), digo o quanto é absurdamente mais fácil um austríaco morrer numa avalanche de neve, do que um brasileiro, mesmo considerando que a Áustria não tem nem 9 milhões de habitantes, enquanto que nós somos mais de 210 milhões.

Se for para seguir nos silogismos, que façamos então a proporção, entre brancos e negros dos condenados por desvio de dinheiro, colarinho branco (olha o nome do crime), dos cofres públicos. Entre essas raças, quais são as que mais foram responsáveis por crimes de ordem pública?

Mas, claro, fica a máxima: negros cometem esses crimes apenas, e exclusivamente, pela cor de suas peles. Muito bem, Ana Paula do vôlei.

Sem repercussão americana

O caso de George Floyd não foi o primeiro nos EUA envolvendo violência policial contra um branco. Mas foi a gota d’água. E para não ser repetido, a população foi às ruas protestar. Lembrar que as vidas negras importam.

Isso motivou protestos semelhantes no Brasil. Mas ainda não tão representativos.

Nesta semana, Sarí Côrtes Real, primeira dama de Tamandaré (PE), pagou 20 mil reais de fiança após ser presa, acusada de homicídio culposo, após a morte do filho da doméstica, Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos. Negro.

Ele caiu do 9º andar do prédio depois que ela, ocupada enquanto fazia as unhas, colocou o menino no elevador e sem interesse nenhum o levou para um andar acima de onde estava. E não para baixo, onde estava sua mãe, que passeava com os cachorros da patroa.

O prefeito da cidade, Sérgio Hacker, testou positivo para coronavírus. A doméstica também. Mas a patroa, loira dos olhos claros e com recursos para pagar 20 mil reais, manteve a mãe de Miguel trabalhando. E sem poder atrapalhar sua manicure, de forma negligente ajudou diretamente na morte do menino.

O nome e a foto de Sarí Côrtes Real foi omitido em diversos noticiários, até o caso estourar. A doméstica Mirtes Renata, mãe de Miguel, teve certeza quando afirmou que, se fosse o contrário, o nome dela estaria estampado em todos os jornais.

Miguel foi mais um caso recente de um negro morto que teve sua morte relativizada. Assim como após Ágatha, João Pedro ou infindáveis outros nomes, a revolta não ganhou as proporções merecidas. Não da mesma maneira que a repercussão teria acontecido, caso as vítimas fossem brancas.

Ágatha João Pedro, duas crianças que tiveram as vidas interrompidas em crimes que não terão punição

Só que mesmo “imitando” ou “indo na onda” dos Estados Unidos, iniciar esse movimento é uma coisa positiva. Se o próprio presidente do Brasil tem como ídolo o presidente americano, bate continência para bandeira dos EUA e chegou a dizer até mesmo que o ama, quem ele ou seus apoiadores pensam que são ao criticar a população por esses movimentos?

Vivemos num país em que, praticamente todos os dias, contamos mais de mil mortos em uma pandemia. Mais de mil brancos, negros, amarelos, pardos, o que seja. E nem mesmo assim, há comoção. “E daí”, diriam alguns. “Lamento”, complementariam.

Claro, deve impactar, chocar, doer muito mais quando é institucionalizado. Até o presidente negro da Fundação Palmares critica o movimento negro, o considerando uma “escória maldita”. Não há muito o que dizer. Por isso o povo foi agir. Na verdade, reagir.

Em um processo de dessensibilização em que “até” as vidas brancas passam a importar menos (afinal, a coisa no Brasil vai mais pendendo pro lado político do que a cor e raça), mais do que nunca é preciso lembrar que vidas negras importam.

No cenário em que estamos hoje, infelizmente, se vidas brancas não estão importando, vidas negras estão importando menos ainda.

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