19 de abril de 2021Informação, independência e credibilidade
Política

Horas antes de deixar o cargo Trump concede perdão a Steve Bannon e outros aliados

Marketeiro de Trump e conselheiro de Eduardo Bolsonaro e outros líderes da extrema direita desviou fundos para construção do muro

A poucas horas de deixar o cargo, o presidente Donald Trump concedeu perdão a diversos aliados, dentre eles seu ex-assessor e ideólogo da extrema direita americana Steve Bannon.

Além de Bannon, Trump também decidiu conceder perdão a Elliot Broidy, um doador da campanha do republicano que confessou ter conspirado para violar leis estrangeiras sobre lobby político. No total, 143 pessoas foram beneficiadas pela leva final de indultos.

O republicano não concederá perdão a seu advogado, Rudy Giuliani. Trump tampouco concederá perdão a seus familiares ou a si mesmo, diferentemente do que vinha sendo especulado nas últimas semanas.

Bannon

Ex-conselheiro de Donald Trump na Casa Branca e um dos maiores gurus da direita atual – inclusive tendo prestado consultoria informal ao deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e apoiado a campanha presidencial de Jair Bolsonaro (sem partido) em 2018, Steve Bannon foi preso hoje sob suspeita de fraude.

Leia mais: O jantar de Bolsonaro com Olavo de Carvalho e Steve Bannon nos EUA

A Procuradoria de Nova York acusa Bannon e outras três pessoas,Andrew Badolato, Brian Kolfage e Timothy Shea, de enganarem doadores no esquema de arrecadação de fundos online “We Build The Wall (“Nós Construímos o Muro”).

A motivação da campanha – que juntou mais de US$ 25 milhões (cerca de R$ 140 milhões) – seria arrecadar dinheiro para construir um muro na fronteira com o México, mas os acusados teriam usado os recursos para uso pessoal.

De acordo com a acusação, Bannon prometeu que 100% do dinheiro doado seria usado para o projeto, mas os réus usaram coletivamente centenas de milhares de dólares de uma maneira inconsistente com as representações públicas da organização.

De acordo com a acusação, Kolfage ficou com US$ 350 mil dólares para financiar seu “luxuoso estilo de vida”, e Bannon desviou US$ 1 milhão para uma organização sem fins lucrativos que pagou secretamente a Kolfage “e cobriu centenas de milhares de dólares de gastos pessoais de Bannon”.

Os quatro detidos foram acusados de dois crimes: fraude bancária e conspiração para lavagem de dinheiro. Cada delito pode resultar em uma pena máxima de 20 anos de prisão.

Fake News e Eduardo Bolsonaro

Steve Bannon comandava o site conservador Breitbart, cujo conteúdo dissemina informações duvidosas ou até mesmo falsas, e no segundo semestre de 2016 foi escolhido para liderar a reta final da campanha presidencial de Donald Trump, também acusada de promover fake news. Vencida a eleição, ele passou a ocupar um cargo importante de estratégia na Casa Branca, mas lá ficou por menos de um ano.

Bannon é considerado um dos ‘gurus’ da direita no mundo. Ao longo dos últimos anos, ele fortaleceu laços com a extrema-direita europeia, como o italiano Matteo Salvini e a francesa Marine Le Pen, e se aproximou da família Bolsonaro.

Em outubro de 2018, Bannon declarou publicamente seu apoio a Jair Bolsonaro na campanha presidencial. “O capitão Bolsonaro é um brasileiro patriota e, acredito, um grande líder para seu país nesse momento histórico”, disse ele à época, em mensagem enviada à agência Reuters. À BBC, afirmou que o então candidato era “brilhante”.

A relação com a família Bolsonaro já havia começado antes, porém. Em agosto daquele ano, o deputado federal Eduardo Bolsonaro esteve nos Estados Unidos e se reuniu com Bannon. “Conversamos e concluímos ter a mesma visão de mundo”, escreveu Eduardo na ocasião, postando uma foto com o americano.

Bannon é um guru do bolsonarismo muito mais importante do que o escritor de extrema direita Olavo de Carvalho, uma figura algo escatológica que tem perdido peso nos rumos do governo brasileiro. A campanha de 2018 que alçou Bolsonaro ao poder foi inspirada na estratégia elaborada para eleger Trump dois anos antes.

Banido nas redes

O Twitter já suspendeu o ex-estrategista-chefe da Casa Branca, depois que ele clamou pela decapitar o diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, Dr. Anthony Fauci, em um vídeo do YouTube, que também foi removido.

Ex-conselheiro de Donald Trump na Casa Branca, Bannon pediu que Fauci e o diretor do FBI Chris Wray fossem executados caso Trump fosse reeleito.

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Em seu podcast War Room: Pandemic, o ex-presidente executivo da Breitbart disse que “gostaria de dar um passo adiante”, mas disse que “o presidente é um homem de bom coração”:

“Eu gostaria de voltar aos velhos tempos da Inglaterra Tudor. Eu colocaria as cabeças em estacas, certo? Eu as colocaria nos dois cantos da Casa Branca como um aviso para os burocratas federais: ou você segue o programa ou vai embora. É hora de parar de brincar”. Steve Bannon.

Bannon também pediu que o CEO do Twitter, Jack Dorsey, fosse preso em um episódio de War Room: Pandemic, porque colocou avisos sobre vários tweets de Trump e os rotulou como “contestados e enganosos” sobre a eleição.

“Eu sabia que esse momento chegaria. Quando algum babaca como Jack Dorsey iria derrubar e suprimir a liberdade de expressão do comandante-chefe”. Steve Bannon.

Após este absurdo, o ex-diretor de redação de discursos do presidente Barack Obama e o cofundador da Crooked Media, Jon Favreau, pediu aos repórteres que parassem de entrevistar Bannon “como se ele fosse uma figura pública legítima”.